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Carta editorial de Leïlah Accioly

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Kamille e eu somos de uma geração criada achando ‘Nova’ e ‘Cláudia’ muito naturais. Também houve ‘Marie Claire’ e ‘Criativa’. Nelas, mulheres que começavam a ocupar lugares no mercado de trabalho do patriarcado, mas que ainda se submetiam aos (seus) homens e a regras para conquistá-los, mantê-los — às vezes a custos inimagináveis mas sempre dentro daquela narrativa de vencedora orgulhosa — e aceitá-los. Nas páginas brilhantes daquelas revistas também eram obrigatórios os cuidados com o corpo e cabelos e a subserviência a um padrão de beleza branco ocidental quase cartesiano. Negras eram raríssimas. A mulher que estava naquelas páginas era frequentadora de salão de beleza, vivia de dieta, tinha um par de filhos, admitia terapia para ela e para eles e competia com as outras mulheres, sempre potenciais ladras de namorado. Namorar ainda era o epicentro da questão. O homem no seio do negócio. Ter um orgasmo para que ele se sentisse poderoso e valer mais no mercado das fêmeas, e não por prazer.

Na nossa adolescência, alvoreceu a contracultura indie roqueira via MTV. Mulheres que naquele canal eram muito mais inteligentes e independentes que as mocinhas das novelas e as moças dos depoimentos dramáticos das tais revistas. Para nossa geração, as mulheres da MTV eram mensageiras de tempos mais excitantes e de um certo despertar da consciência sobre cultura, política e meio ambiente. Elas nos colocavam diante da tela e nos apresentavam um mundo onde uma figura como Courtney Love podia ironizar o status Miss Universo. Onde a beleza podia ser estranha e a estranheza podia ser bonita. Onde um desenho animado como Daria escancarava o que era ser uma adolescente questionadora diante do sistema e de sua irmã totalmente devota aos ritos da popularidade fútil na escola. Onde Patti Smith, Joni Mitchell, Natalie Merchant, Tori Amos, PJ Harvey, Björk, Siouxsie Sioux, Kim Gordon, Madonna tornavam-se nossas cúmplices e contadoras de histórias muito mais verossímeis para nós que aquelas de Nova e Claudia. Mulher não era mais apenas um bicho com celulite que demandava cuidados obsessivos. À nossa alma pop se juntaram as donas do microfone na MTV Brasil: Astrid, Cuca, Daniela, Tatiana, Sabrina, Marina, Cris e Chris, Adriana, Maria Paula, Soninha. Havia lugar para mulheres que tivessem seu radar plantado no mundo e não, num minúsculo mundinho particular onde tudo giraria em torno da família e quem sabe, de um emprego. Quem sabe.

Corta pra 2015. A mulher ocidental se expressa na internet, já tem três décadas, pelo menos, de trabalho nas costas, continua ganhando menos mas hoje, não acha mais que isso é assim porque tem que ser. A mulher se posiciona nos principais temas do mundo e está em governos, grandes empresas, organizações importantes e em alguns casos, como líderes. Líderes ou não, não são infiltradas, são titulares dos seus postos. Casam, descasam, assumem os filhos muitas vezes sem o amparo masculino. Sua função não é mais agradar ao macho provedor. Sua função é transcender o macho e decidir e legislar sobre sua própria vida como os homens sempre fizeram. De repente, a vida também não pode ser transcender o macho, mas lutar ao lado dele pelo mesmo tipo de sociedade em que os dois creem. Mas que dois? Quantos homens estão dispostos a vir ao lado das mulheres? Essas novas mulheres não calam a boca diante de assédio tão facilmente, embora ainda sintam medo. Essas mulheres não têm medo de falar do que as aflige, ainda que precisem operar no cotidiano com força e precisem justificar suas fragilidades. Essas mulheres estão hiperconectadas mas querem resgatar o encanto dos trabalhos manuais numa era em que o artesanato renasce das cinzas industriais. Essas mulheres querem escolher se vão ter filhos ou não e em que circunstâncias e não admitem que legislem sobre seus corpos. Elas ainda estão abertas a conexões que a maioria dos homens despreza na hora de tentar compreender a existência, trazendo à superfície a Astrologia, os oráculos milenares, o Sagrado Feminino, as preocupações com o planeta, com a saúde e as terapias alternativas à medicina tradicional, com o tônus muscular e a coerência de suas histórias, e principalmente, a sabedoria oral que lhes é peculiar, só que amplificada pela web. Reconhece-se nela vários tipos de mulheres e de feministas. Há graus diferentes de envolvimento com a discussão, com o que acreditam que sejam as funções psicossociais dos homens e mulheres hoje, mas é difícil encontrar uma que não esteja envolvida ou tentando decodificar do que se trata essa discussão. É difícil fechar os olhos para a onipresença dessa discussão.

Em paralelo a isso ou por causa disso, a mulher busca se informar mais do que nunca e não se satisfaz com as pautas de sempre. As pautas às quais fomos acostumadas há trinta anos atrás não refletem a diversidade e a complexidade do nosso universo. Hoje, nós sabemos que somos parte de um universo maior e contribuímos para que a orquestra universal toque uma música mais bela e harmoniosa. Estamos dentro da coletividade e com postura crítica sobre ela, mentalmente ativas que somos, cheias de ideias, planejando as mudanças necessárias com ímpeto de realização. “Atrás de um homem de sucesso sempre há uma mulher” era o que nossos pais e avós diziam. Hoje, quem se atreve a repetir isso? Com essa mudança de posição, nós queremos comunicar a estas que estão na frente, e também às que vêm pelas margens ou atrás, mas que desejem um mundo que trabalhe melhor o seu polo feminino, ou seja, que tenha mais flexibilidade, compaixão, respeito às diferenças e à natureza, solidariedade e planejamento assim como proteção, o que elas se importam em saber. Porque nós também descobrimos que precisamos dar ouvidos às demandas do Feminino, que incluem a maternidade responsável e o engajamento no trabalho sem que isso nos mecanize e nos insensibilize para o próximo, sem que nos roube todo o tempo que precisamos dividir com os múltiplos papeis que desempenhamos, pois ainda somos administradoras das nossas casas e nutridoras das nossas relações familiares e sociais.

Um dia, acordamos e nos perguntamos o que fazer depois que compramos tantos sonhos do Masculino. Depois que vimos tantas mulheres tomarem o poder apenas para perpetuar estruturas patriarcais, repetindo erros que nos jogaram neste momento histórico de saturação de um modelo histérico e competitivo de vida. Dentro desta vertigem que é ser mulher em tempos de velocidade descontrolada, cheia de coisas pra fazer e dizer, performando em dois, três, quatro turnos, coberta de informação do minuto em que acorda ao que vai dormir e ainda precisando dar voz às suas deusas interiores, pensamos que deveria surgir uma publicação que revelasse a mulher em sua inteireza, comprometida com os assuntos que a mobilizam, dentro do raio da cultura, do comportamento e da sabedoria holística.

A Vertigem vai levar a homens e mulheres pautas relevantes nesses temas para todos e todas, mostrando que, hoje, há algo além das questões de gênero, que é esta capacidade de pensar no mundo como máquina que necessita do equilíbrio das forças para funcionar bem. Pautas que vão mais fundo nas cabeças das pessoas e na construção do momento que estamos vivendo do que aquelas de trinta anos atrás quando precisávamos vencer na ficção criada pelos homens para ter nosso direito a abrir a boca.

Nisso entram a música que ouvimos, os filmes que assistimos, as personalidades que falam alto aos nossos corações, as histórias inspiradoras, os limites e barreiras postos abaixo, os debates sociológicos e filosóficos, as crônicas que lemos, as descobertas dos nossos tempos, os mapas que traçamos no astral, as perguntas que fazemos do alto da nossa experiência feminina. Enfim, tudo que você queria saber contado por mulheres e, por que não, novas formas de abordar a nossa beleza, que é tão múltipla quanto nossos sonhos.

E no momento em que estávamos nos ajustes finais para lançar nossa revista, nos vimos diante das campanhas #primeiroassédio e #agoraéquesãoelas. Foi imediata a impressão de estarmos afinadas com o espírito do momento, prontas para ecoar desejos nem sempre verbalizados. Ou verbalizados ainda por uma camada menor da população. Não é de exatamente hoje que as timelines mais espertas vêm reverberando assuntos como lowsumerism, a causa indígena, os slow qualquer coisa, do jornalismo ao parenting, a discussão sobre a legalização do aborto no Brasil, a diminuição dos agrotóxicos no que consumimos, a necessidade de reconhecimento dos novos arranjos familiares e sexualidades, o alerta sobre o crescimento vertiginoso da intolerância religiosa no país e as manobras para soterrar a laicidade do Estado, a desgraça do racismo velado e a precarização das relações de trabalho versus o boom do empreendedorismo mais maduro e a necessidade de se rever o modelo de trabalho arcaico, os impactos sociais, comportamentais, psicológicos da onipresença da tecnologia e a crescente necessidade de mais e melhor curadoria da informação em meio ao flood diário nos nossos feeds. Tudo isso estará presente na Vertigem, que não se prestará apenas a ser uma irradiadora de opiniões por acreditar que há opinião demais nos corredores da web. Em vez disso, apostamos no formato jornalístico, na reportagem, na audição de várias fontes de vários perfis para oferecer a oportunidade de o leitor e a leitora fazerem sua própria cabeça. Isso tudo num ano marcado pela crise institucional e econômica no país, com lamentáveis demissões em massa de jornalistas nas principais empresas e o fechamento de alguns veículos. A Vertigem também é a consequência natural de um inevitável salto no escuro. Venham nesta vertigem conosco, no exercício diário de tentarmos enxergar melhor, a nós mesmas, ao outro e ao momento que estamos vivendo.

L.A., editora e cofundadora da Vertigem. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

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