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Elas são drag queens… e mulheres

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O rosto de Clarissa Lasertits reflete as luzes da festa. São quadradinhos de vidro, também foram colados em cima do batom preto. Do alto, num collant rosa-choque com plumas, ela dubla a música que escolheu, “Man Down”, de Rihanna, acompanhada de duas dançarinas e levantando uma arma. Clarissa faz parte de uma cena crescente no Rio de Janeiro, que vem mudando o que muita gente entende por drag queen. Muito além de homens incorporando mulheres, o grupo abre espaço para mulheres e amplia ainda mais o debate sobre gênero.

Dentro do quarto com ‘A Origem do Mundo‘ de Courbet na porta, com a legenda de “palácio do amor”, está a máquina de costura de Clarissa com a qual ela mesma faz as roupas com que se apresenta. “Eu falo que fazer drag é desculpa pra fazer a louca na boate. Ela é uma ampliação de mim. Ela anda mais pelada, mais maquiada, é mais sem vergonha”, diz a estudante de audiovisual, confirmando o que parece ser um consenso entre quem gosta de se montar. Apesar de ter nascido mulher e preferir ser tratada no feminino, Clarissa não se identifica com nenhum dos dois gêneros. Um processo complicado de desbinarização, explica, no qual fazer drag teve papel fundamental. “Eu comecei a desconstruir o meu gênero ao mesmo tempo em que comecei a me montar. Isso me ajudou a me empoderar, a amar cada vez mais o ser complexo e louco que eu sou.”

Ao contrário do que diz o senso comum, ser drag queen não tem relação com a sexualidade. É uma performance, cuja origem do termo divide opiniões. Enquanto pode ser uma sigla para ‘dressed as a girl’ (vestido como uma menina), há quem diga que remete às fantasias usadas por atores no século XVIII, que interpretavam mulheres em sátiras e arrastavam (em inglês, to drag) figurinos pesados, como os que eram usados na época. Aparecendo na vida noturna nova-iorquina e londrina dos anos 1960, o movimento se popularizou e chegou ao Brasil entre o final dos anos 1980 e o início dos 1990. Quando surgiu o ímpeto de mulheres querendo se montar, foi batizado de ‘faux (de falso, em francês) queen’.

A denominação, um tanto pejorativa, não costuma agradar às meninas que fazem drag. “Não tem nada de falso. Nós temos drags mulheres incríveis na história, como a Cher, a Elke Maravilha e a Lady Gaga”, enumera Palloma Morimoto, ou Maremoto, quando está montada. Quem a vê na porta de uma festa talvez possa imaginar que a sua maquiagem demorou quatro horas para ficar pronta. Cílios enormes, cabelo colorido, muito brilho e a roupa cheia de detalhes fazem parte da produção. “Montar é a parte mais divertida. Desmontar é a parte do sofrimento. Eu já chorei várias vezes”, conta, explicando o método de colar a sobrancelha e de prender a peruca na cabeça.

Arquiteta e atriz, ela levou parte do conhecimento de maquiagem e atuação do teatro para o mundo drag, e vice-versa. Além de aprender a apagar todos os contornos do rosto, ela vê na sua drag uma personagem. “A drag veste uma máscara, mas não é tão diferente de você. Na verdade, ela é você mostrada de uma forma muito sincera. Você se monta pra se desmontar dos contratos do que a sociedade te impõe”, opina. Névia Rocha, que incorpora a Medusa Pandemonium, vê da mesma forma. “É muito libertador. Você se sente quase como um super-herói. Você tá com o seu disfarce de humano, até que tira a roupa e se transforma”, diz Névia, que caracteriza Medusa com um visual dark e com traços reptilianos. Apesar desse sentimento, ela se sente mais distante da personalidade de Medusa. “A Medusa é bem mais extrovertida do que eu, que sou mais fechada. Eu tento deixar ela bem diferente de mim”, explica.

Se a figura da drag queen clássica era um questionamento de mistura de gêneros, hoje, esse papel pode se dar de outras formas. Dessa maneira, não faria sentido para Clarissa escolher uma roupa como a de RuPaul, drag que retomou o movimento com o reality show de sucesso ‘RuPaul’s Drag Race‘. “Muita gente faz drag reproduzindo um estereótipo de mulher loira, gostosa. Eu lutei a minha vida toda contra esses padrões, não vou fazer uma drag que reproduz isso. Quero ser um monstro e perigosa”, diverte-se Lasertits, que prefere figuras robóticas e alienígenas para se inspirar. Camila Leite também rejeita essa figura quando vai esculpindo a drag Milka. “Não consigo ser bonequinha e menininha. Na verdade, nem tento. No dia a dia sou muito básica, mas quando chega a noite, eu viro trevas”, diverte-se.

Tatuada e cheia de piercings, Camila está acostumada a não se sentir normal. “Acho que qualquer coisa que você faz fora do normativo mostra que você pode fazer o que você quiser, ser o que quiser, se não estiver agredindo ninguém. É um ato político, além da diversão”, reflete. A agressão, na verdade, vem do outro lado. “As festas são ambientes seguros para quem é estranha. Enquanto eu sou xingada na rua, nas festas, as pessoas me acham maravilhosa”, conta Clarissa. Para quem é mulher, segurança é uma consideração importante. “Em uma festa drag, você pode fazer o que quiser. Pode beber, rolar no chão de calcinha, ninguém vai te incomodar, violar, te achar uma vagabunda. Não tem neurose, você pode se divertir mesmo”, concorda Palloma.

Casos de machismo, vindo de drags homens ou de gente fora do meio, são bem poucos. “As pessoas costumam ser bem receptivas, elogiam, param para conversar sobre maquiagem”, conta Camila. É sinal de que o caminho está aberto para quem quiser fazer parte. “As pessoas estão ressignificando o conceito de drag. Todo mundo pode fazer. Nós temos mil referências. Foda-se, você só quer se montar”, opina Clarissa. Palloma completa: “Drag é arte, e a arte é universal. Pode ser feita por todos os gêneros.”

Clarissa Stycer é carioca, tem 20 anos e estuda jornalismo na UFRJ. Escreve sem parar desde que aprendeu. Ama literatura e é fanática por cinema. Quer conhecer o mundo. E-mail: cstycer@gmail.com

 

Foto: as drags Medusa Pandemonium e Milka

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