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Notas Perfumadas

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A Vertigem e as uvas

Na coluna ‘Notas Perfumadas’, a gente vai bater um papo sobre tudo do mundo dos aromas, desde os cheiros até a filosofia dos aromas e neurociência.

O Brasil é um dos líderes do mercado de consumo de perfumaria porque aqui o povo adora se perfumar (herança dos indígenas?). No entanto, temos poucos veículos na mídia nacional para tratar deste assunto tão etéreo, poético, subjetivo e que o brasileiro ama. Os aromas revolvem nossas lembranças, criam emoções e podem nos levar a qualquer lugar. Nosso nariz é quase uma maquininha de teletransporte.

Para inaugurarmos esta coluna, nada mais digno do que captar o cheiro deste espaço, um site escrito só por mulheres em um mundinho latino-americano, em que nos falta atmosfera e, com uma mídia digital batida e repleta de textos superficialmente iguais.

Quando as idealizadoras começaram a me narrar sobre a Vertigem, um aroma de uvas exalou e tomou conta do meu ser. Não, não fui eu quem as escolhi. Elas, as videiras, se borrifaram nesse site, sem pedir licença, já entrando, enfiando o pé na porta e dizendo: “entramos e viemos pra ficar! Quem quiser, venha conosco!”

Daí pensei: “Ops! Vocês? Uvas?” Sim, cachos de uvas. Seguindo o rastro dos aromas da videira, fui garimpar onde essa história vai dar. Para onde a Vertigem quer nos levar? É possível canalizar os aromas de ideias, cores, pensamentos, sentimentos e tudo mais que você quiser. Sim, você pode e deve, é um sentido, use-o! Quando tentamos canalizar o cheiro de algo, nosso nariz trabalha com o inconsciente coletivo, fazendo com que o objeto em questão, exale uma quintessência de todas as memórias, emoções, histórias e associações que temos e fazemos em torno dele.

Este site foi parido, idealizado e é dirigido por mulheres e em tempos em que o feminismo vem sendo discutido com tanta veemência na sociedade brasileira, que parece retroagir, ter um espaço assim pode causar Vertigem em certos grupos, a mesma que Eva, aquela da cobra e sempre simbolizada enrolada em videiras, causou no Éden, a mesma Vertigem dos vinhos que desafiam o ego e colocam para fora nosso inconsciente.

Uma das conotações das uvas é o pecado, isso porque, na história, elas estão ligadas às mulheres, deusas, musas e ninfas enroladas nas folhas das videiras. As mulheres dançando apenas com folhas e cachos de uvas, embebidas de inconsciente, verdades e profundidades pelo vinho, nas festas de bacanais (celebrações do deus Dionísio), sendo quem quisessem, corpo livre, nu, sem vergonha, sem culpa! A Vertigem exala aroma de videira porque são mulheres no comando, escrevendo de forma profunda sobre bem estar, sobre si mesmas, para outras mulheres, homens, para outras deusas, irmãs, todas com seus cachos de uva nas mãos, dançando na escrita e nos pensamentos, tentando capturar o aroma da alma.

Afinal, para se chegar ao nosso sagrado, às nossas profundezas (a Vertigem nasce sob o Sol em Escorpião, como explica Paula Maia aqui) é preciso a luz, a sombra, o sagrado, o profano, experimentar todos os sentidos. A Vertigem não deixa rastro de uva à toa: a videira é sagrada no próprio cristianismo, que tanto a colocou no panteão das pecadoras. Vamos lembrar que ela representa Jesus (“eu sou a verdadeira videira”, João 15:1) e o vinho simboliza o sangre de Cristo. Mas antes disso, ela já se enroscava nos corpos nus das deusas e vertiginava os sentidos. Posteriormente, monastérios inteiros se entregariam ao vinho e criariam as melhores vinícolas do mundo.

Então, preparem-se, porque aqui vai ter Vertigem, vai ter Baco, vai ter neurociência do olfato mostrando que aroma é mais que cheirinho e que Deusa enroscada em videira não é para principiantes!

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

 

Imagem: quadro ‘Baco bebendo’, de Guido Reni

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