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O mosh de Maíra Freitas

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Quando o Flamengo venceu a Taça Guanabara, em 1996, num jogo contra o Vasco, a pequena rubro-negra Maíra Freitas comemorou não apenas o título conquistado, mas também uma aposta ganha do pai, o cruzmaltino Martinho da Vila. Na pequena disputa familiar, ficou acertado que, se o time do sambista levasse o título, ele receberia uma caixa de cerveja, mas, em caso de derrota, teria que presentear a filha de 11 anos com o que ela tanto lhe pedia: o seu primeiro piano. Faz tempo, mas ela lembra direitinho da alegria que sentiu quando o instrumento chegou todo desmontado ao apartamento onde morava com a mãe, em Laranjeiras.

Essas são algumas das recordações de infância que vêm à mente da pianista, arranjadora, compositora e cantora em entrevista sobre seu segundo disco, ‘Piano e batucada’ (Natura Musical/Biscoito Fino), produzido por Sacha Amback, cujo show de lançamento está marcado para o dia 25 deste mês, no Teatro Net Rio, em Copacabana.

Deitada na rede colada na janela de seu apartamento na Usina, com a Floresta da Tijuca ao fundo, Maíra, 30 anos, conta que começou a estudar piano aos 7, sem influência de ninguém, e nunca mais parou. Formada pela Escola de Música da UFRJ, iniciou a carreira como pianista erudita, estudou na Alemanha, e participou de vários concursos no Brasil e no exterior. Até que, num desses paradoxos da vida, recebeu um terceiro lugar no Varna International Piano Competiton (Bulgária) e decidiu que queria seguir outros rumos profissionais.

“Eu deveria ter voltado empolgada, mas não foi o que aconteceu”, lembra. “No mundo erudito, você tem que ser quase um atleta, tocar com perfeição matemática. Aquilo me incomodava bastante. Temos que tocar Beethoven exatamente do jeito que Beethoven fez. E eu sentia necessidade de improvisar, de criar. Queria mudar.”

E mudou mesmo. Inquieta, começou a se envolver com grupos de choro, gravou a faixa “Último Desejo” num disco do pai (‘Poeta da Cidade — Martinho Canta Noel Rosa’) e revelou ao mundo que também era cantora. Em 2011, lançou seu primeiro disco, ‘Maíra Freitas’, produzido pela irmã Mart’nália, e mostrou a faceta compositora com três faixas de sua autoria. Em ‘Piano e Batucada’, esse lado compositora ficou ainda mais forte ela assina 10 das 13 faixas, sozinha ou em parceria com nomes como Edu Krieger (“Êta”), Felipe Cordeiro (“Gargalhada”) e Daniel Mã (“Cuidado, moça”). O disco tem ainda participações de João Sabiá, de Mart’nália e do grupo baiano Ilê Aiyê.

O processo de criação não é nada organizado. “Às vezes, a composição surge de uma ideia, outras vezes de uma levada. Posso ter necessidade de falar de um assunto que mexe comigo ou sentir raiva e descarregar aquele sentimento todo em uma letra”, descreve Maíra. “Muitas vezes, consulto um caderno com anotações e percebo que tem um material legal que pode ser usado, embora eu seja virginiana e sempre tenda a achar que nada ficou bom”. O resultado é um diálogo entre diferentes ritmos, experimentações musicais e vocais e programações eletrônicas que comprovam por que ela não poderia mesmo continuar tocando “Beethoven exatamente do jeito que Beethoven fez”.

A última música do disco, “Nua”, fugiu desse processo e resume o que ela sente diante do lançamento do segundo trabalho. Feita uma semana antes de entrar em estúdio, fala de nudez, exposição e de estar pronta. “Foi meu momento mais compositora, uma encomenda de mim para mim mesma. Senti que faltava uma música que falasse da unidade desse trabalho, de se expor com sinceridade. Este disco é como se eu fizesse um mosh esperando, claro, que o público me segure para eu não cair de cara no chão”, resume.

Depois de dar esse mosh metafórico em show no Recife e em Porto Alegre, Maíra chega ao Teatro Net Rio, no próximo dia 25, com sua voz, piano, teclado e loops ao lado dos músicos Guilherme Oliveira (percussão) e Cassius Theperson (bateria). Edu Krieger, Felipe Cordeiro e João Sabiá sobem ao palco para participações especiais. Além das músicas autorais, a cantora vai apresentar três releituras criativas, que demonstram sua vocação para mesclar clássico e moderno: “Estranha loucura” (de Michael Sullivan e Paulo Massadas, sucesso na voz de Alcione), “Minha festa”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, e “Feeling Good”, sucesso interpretado por Nina Simone, que no disco ganhou releitura samba-reggae ao lado do Ilê Aiyê.

A reverência à ativista Nina Simone e o conceito do disco, de desvendar a alma de uma mulher, chegam em consonância aos debates do último mês sobre os direitos femininos, que incluíram manifestações contra o presidente da Câmara Eduardo Cunha (autor de projeto de lei que dificulta o acesso ao aborto em caso de estupro) e campanhas nas redes sociais como #meuprimeiroassedio e #AgoraEQueSaoElas. Um momento que Maíra classifica como extremamente necessário:

“Eu sou totalmente a favor do aborto, da pílula do dia seguinte, da escolha das mulheres sobre o que fazer com o próprio corpo. Às vezes, a gente vive em um meio em que essas coisas são óbvias, mas aí vêm esses políticos, falando aberrações, e vemos que tem muita gente que vota neles. Então, essas manifestações são necessárias, temos que ir às ruas, sim”.

A musicista também leu tudo que chegava à sua timeline com a hashtag primeiro assédio. “Além dos relatos horríveis que foram compartilhados, de casos de estupro e abusos de familiares, vimos como faz parte do cotidiano das mulheres andarem com medo: o ‘fiu-fiu’, o ‘gostosa’, o sarrar no ônibus são práticas extremamente comuns. Devemos lutar para que deixem de ser”, avalia. Como Maíra diz na letra de “Nua”, que a moça possa ser “imoral primitiva/forte, nua, bruta, pura e lasciva/bem maluca e teimosa/descabida e gostosa/escancarada e macia firme, fresca, simples, livre, leve e solta”. Que ela seja o que quiser.

Serviço:
Show de Maíra Freitas em lançamento do CD ‘Piano e Batucada’, com participação especial de Edu Krieger, Felipe Cordeiro e João Sabiá

Quarta-feira, 25/11, a partir das 19h30.

Theatro Net Rio. Shopping Cidade Copacabana. Rua Siqueira Campos, 143/2º piso, Copacabana (2147-8060).
R$ 20 (meia-entrada) e R$ 40

Rachel Almeida é jornalista com grande experiência na área cultural. Atualmente, trabalha como editora, repórter e assessora de imprensa. E-mail: racca10@gmail.com

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