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Olhares negros na moda

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Tudo começou de forma despretensiosa. Enquanto Jota C. não via nenhum homem falando de moda, Fernanda Alves decidiu registrar seus looks. Assim nasceram o blog dele, o blog dela e os de mais dezenas de pessoas que descobriram em suas páginas virtuais mais do que um movimento fashion: havia uma corrente social, que se torna cada vez mais popular. O que todos eles têm em comum, além disso? A pele negra.

“Com o passar do tempo, percebi que era uma demanda falar da representatividade negra”, diz Fernanda, que criou o So Shopaholic (hoje um canal no YouTube em 2009. “As meninas que são famosas hoje, como Maraisa Fidelis, não existiam ou estavam começando naquela época. Temos uma força muito grande com as redes sociais, mas ainda temos pouca representatividade na mídia. Porém, agora o adolescente pode seguir uma blogueira negra no Instagram, no Facebook, em um blog e se sentir representado”, explica ela.

A ficha só caiu quando ela se deu conta de que algumas coisas que encarava com naturalidade não eram tão normais assim. O processo de resgate de suas madeixas naturais, documentado no blog, foi o pontapé inicial para isso. “Cabelo crespo é um problema para as mães. Fazia relaxamento desde os 11 anos. Mas já vi criança de quatro anos fazendo. Para mim, isso era normal”, diz Fernanda, hoje com 30 e a certeza de que seu cabelo não deve ser definido como ‘ruim’ ou ‘selvagem’, adjetivos que a acompanharam desde a infância.

O caminho de Jota C., ou José Carlos Angelo, de 27 anos, foi parecido. Inspirado na blogueira Ana Soares (do Hoje Vou Assim Off), também em 2009 criou o Eu Vou Assim (Homens), rebatizado posteriormente como O Último Black Power. “Escrevia sobre moda, mas não tinha referências de negro na moda. Aí, descobri fotógrafos americanos especializados nisso”, conta o carioca, que acabou se tornando conhecido na rede ao falar de assuntos que não eram abordados por aqui, como cabelo afro colorido e tatuagem para pele negra.

“Acho importante esse movimento porque as pessoas passam a valorizar mais o que elas têm”, diz Jota, reconhecendo a importância do papel que assumiu. Mesmo assim, o carioca confessa que ainda há um longo caminho pela frente.

“Ainda sinto uma certa dificuldade das marcas quererem associar sua imagem a um blogueiro negro. Em TV e revistas, você vê poucos negros, tanto os modelos como as pessoas que escrevem, o que acaba refletindo no editorial”, desabafa.

Tanto que, em um evento de moda recente, a blogueira Ana Soares, inspiradora de Jota, percebeu que não havia nenhuma blogueira negra convidada. “Nesse evento, falava-se de um produto que poderia ser usado por todos os tipos de pele. Mas a Ana só viu pessoas brancas por lá”, conta Allê Oliveira, criadora do Allê Urbana. “Foi daí que surgiu a ideia do projeto Constelação Negra”, diz ela, sobre a iniciativa ainda em desenvolvimento, que está unindo um grupo de blogueiros, publicitários e jornalistas para discutir sobre a representatividade negra no Brasil.

“Quando eu via os looks na internet, nunca os via em uma menina negra. Minhas amigas gostam de moda, se vestem bem. Tem muita gente assim, mas que não é vista”, lamenta Allê, que decidiu ela mesma criar seu espaço. Joca faz questão de deixar claro que não se trata de falar somente de moda para negros. “Todo mundo pode vestir o que quiser. O importante é que o negro tenha voz também, que se sinta representado”, afirma.

Já a estilista Thais Pires tem a moda como maior foco do site que leva seu nome. Ela está lá, mas o principal assunto da página gira em torno do estilo de vida de sua criadora. “Tem sido interessante o retorno. Tenho muitas seguidoras mais novas, vejo que elas querem uma referência legal e se empoderar”, comenta Thais.

Karina Maia é jornalista, crítica de cinema, apaixonada por cultura e quase tudo que se move. E-mail: karinasmaia@gmail.com
Imagem: o blogueiro Jota C.
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