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Prisma

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A crônica da crônica falta de tempo

Todo dia eu me falo: você precisa escrever textos mais curtos. Você precisa se arrumar mais rápido, talvez aprender uma técnica pra passar o delineador em menos de 10 segundos. Você precisa completar aquela tarefa antes de tocar o alarme do celular. Por outro lado, eu sempre me cobro: deveria sair mais, conhecer mais gente, aproveitar melhor os fins de semana, ficar mais com minha filha. Abrir espaço pra cuidar de mim, então, nem se fala. Só os que vivem da própria imagem conseguem cuidar de si nestes tempos de hipervalorização da ocupação máxima. O tempo, enfim, parece uma sombra colada nos meus pés, alongando o passado conforme eu me dirijo ao presente e quanto mais eu me dou conta disso, menos eficientemente consigo avançar. Não acho que os amigos estejam diferentes. O evento é na quinta, mas eles aparecem na sexta. A mensagem é visualizada mas ela foi lida junto com outras vinte e não vai ter resposta tão cedo. Na verdade, não vai ter resposta no tempo certo. Afinal, qual é, hoje, o conceito de “tempo certo” e “tudo a seu tempo” se tem tudo demais e nada de menos? Não há tempo para tanto tudo.

Vamos admitir: neurotizamos nossa relação com o tempo. Um looping de afazeres nos deixa cada vez mais longe da satisfação. A não aceitação da velhice, por exemplo, nos joga contra ele sem que percebamos, todos os dias, e é a face mais difícil de encarar desta nossa tempoíte, uma inflamação da percepção sobre o tempo. Precisamos dar espaço para a pausa mas ela parece doer mais que este moto-contínuo. Precisamos sempre estar produzindo, dizendo ou apontando alguma coisa na direção de alguém. Você anseia pela contemplação mas se para por um minuto e olha pro teto, pensa em dar uma volta no celular, na rede social, naquela conversinha, naquelas fotos. Mais sinapses precisam ser feitas. Você não pode cair no vácuo, não pode ficar sem saber o que está acontecendo na cidade, no país, no mundo, não pode deixar de pesquisar sobre aquele exame que fez e checar no aplicativo se alguém se sente atraído por você. É preciso estar ocupado o tempo inteiro. Não há esvaziamento. O tédio foi varrido da experiência humana. É sempre possível aprender mais alguma coisa ou falar com mais alguém. É sempre possível compartilhar mais um acontecimento, uma ideia e uma história. A oferta é ilimitada.

Cérebros congestionados de informação, intestinos constipados. Nunca se falou tanto em prisão de ventre na história. Não é por acaso. O tempo virou uma prisão. Provavelmente, você já considerou estar gastando tempo demais no banheiro. Enquanto isso, uma estafa sinistra nos acinzenta a pele enquanto as imagens pululam multicoloridas diante dos nossos olhos sobrecarregados, incapazes de convergir sem coçar, lacrimejar ou doer. Nossos xamãs tecnológicos dizem que a máquina inverteu o jogo: estamos jogando pra ela e ela, contra nós. Ela nos escravizou. Gastamos todo o nosso tempo nela e eis a nossa maior escravidão. Um sábio de turbante que entende dos processos mentais intrincados que levam alguém a criar uma marca, ou seja, transformar em produto ou serviço valores que traz dentro de si, me disse na semana passada: “hoje, em um dia, consumimos mais informação que um homem do século 18 conseguia nos seus 30 ou 40 anos de vida”. Tem como não estar de bode no dia seguinte? Um enorme bode de saber tanto e poder fazer tão pouco com tudo isso.  Um bode barulhento que nos manda ir procurar saber mais um pouco, sempre mais um pouco, e com isso, reduzirmos o tempo de assimilação da informação anterior. Um bode saturnino que, de repente, pode ficar nosso amigo se aceitarmos que consumir tanto conhecimento tem o custo do tempo, ainda que o conteúdo seja de graça, mas que podemos estar ganhando algumas coisas sem preço com isso.

Depois, o mesmo sábio rapaz me apresentou ao mestre que introduziu a Kundalini Yoga nos Estados Unidos, Yogi Bhajan. Num vídeo de 1993, finais agonizantes do agridoce século 20, ele anuncia que, em muito pouco tempo, praticamente tudo estaria a nosso alcance ao clique de um botão. Mas ele não está maravilhado com a possibilidade. Sua conclusão é de que passaríamos a viver numa ilusão de absorção infinita da informação e portanto, de conhecimento da Verdade. A máquina teria um só botão, mas nós teríamos vários, ou seja, não daríamos conta no nosso hardware pessoal de tantas emoções e ideias que todo este conteúdo nos faria acessar em velocidade extraordinária. Ainda parecendo dentro de um delírio sci-fi, ele diz: “você poderá ter 56 livros de uma só vez se quiser, mas como irá lê-los?” O drama não é só a falta de espaço e tempo, entendi naquele momento. Contrariando Obama, nós não podemos. Ou podemos, mas vai levar mais tempo. E, hoje, começamos a esboçar o difícil caminho de volta à aceitação dos nossos limites.

No meio de tanto ruído, o silêncio acabou se tornando o maior ‘objeto’ de desejo do século 21. Junto com ele, os ideais são a simplicidade budista, a renúncia ao zumbido perpétuo das máquinas, a cabeça enfiada num turbante e o súbito ganho de consciência sobre a existência das estações. Reaprendemos por meio dos sintonizados na frequência da Terra que há tempo de semear, esperar o crescimento e colher. E é esse entendimento — ainda que ele tenha como exemplo os nossos vários projetos e relações em vez de batatas e tomates — que nos coloca de novo dentro da Terra. É importante estar em contato com o ritmo interno, respeitar que as pessoas têm o direito de não responder, mesmo que a máquina te entregue que elas leram ou ouviram sua mensagem.

Mas quem são estes seres sintonizados na frequência da Terra? São os alinhadores energéticos, os astrólogos, os tarólogos, os acupunturistas, os aromaterapeutas, ou seja, os senhores do tempo, que trabalham com informações que só ele oferece, que o regulam quase que naturalmente em suas atentas e precisas escutas e que mergulham no silêncio para ouvir as vozes próprias das existências de quem atendem. Não é à toa que eles são tão populares hoje. Eles nos arrancam da programação binária e nos devolvem o espaço individual perdido. O espaço da dúvida, da angústia, do medo, da frustração. “Ainda somos criaturas mortais”, lembramos diante deles quando a correria cessa plasticamente. Eles são bússolas entre as carcaças de aparelhos eletrônicos que nos entopem os sentidos. Eles nos dão as pausas onde nos investigamos e entendemos quais as nossas reais motivações e bloqueios. Sim, estamos bloqueados em algum lugar de autenticidade que não nos é permitido no constante teatro social em rede.

Embora, a gente saiba disso tudo e busque se tratar, qualquer pausa que leve inevitavelmente a uma formulação mais sofisticada e minuciosa das coisas da vida ainda precisa ser interrompida porque nos coloca em contato com as nossas próprias engrenagens, estas sim, prontamente silenciadas em favor de um ser em estado social contínuo. Seu rangido interno nos assusta. A necessidade de retiro para dentro de si próprio passou a ser encarada como um perigo. Precisamos estar responsivos o tempo todo e sabemos que o estresse é uma resposta ao excesso de resposta aos estímulos. Nessas peças sociais que encenamos exaustivamente e com tamanha demanda de responsividade, opiniões viraram commodities. Há uma briga constante por captura ideológica. O tempo digital é um labirinto de caminhos ideológicos tortuosos e estamos perdidos nele. Somos distraídos ao mesmo tempo em que temos conhecimento disponível para fundir a cuca das civilizações de todas as épocas.

É preciso entender que estamos diante de uma inédita miscelânea de escolhas e possibilidades e que ao nos abrirmos para elas, um efeito colateral é esta sensação de que o tempo vai escapando. Na verdade, não é sensação, é fato. Envolvidos com tantas voltas e tantas tentativas dentro deste labirinto digital, muitas mais do que nossos pais e avós se permitiram durante suas trajetórias adultas mais curtas que as nossas, estamos gastando mais a nossa matéria-prima primordial. E ainda que nosso planeta corra graves riscos de inviabilidade para humanos em não tão pouco tempo assim, nunca dominamos tantas ferramentas científicas e podemos viver mais do que nunca quando amparados por bons sistemas de saúde e se conseguimos nos prevenir. Aliás, de certa forma, a vida virou uma grande medida de prevenção. Corremos da morte fugindo do tempo mas tempo é vida. No espaço que chamamos de “durante”, é preciso ter consciência de que experimentar e saber mais leva a um tempo mais intenso e, apenas aparente ou ilusoriamente, mais curto. É preciso curtir o durante. Acredite, nosso tempo nunca foi tão longo mas também, nunca foi tão fragmentado. “Nosso tempo, mano velho, falta um tanto ainda”, sabemos, “pra você correr macio”, como cantou Fernanda Takai. Nunca houve tão pouca fluidez na chamada modernidade líquida de Zygmunt Bauman.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com 

 

Imagem: quadro ‘A persistência da memória’, de Salvador Dalí

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