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Sentimento do Mundo

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A menina e o oráculo

Logo que aprendi a ler e escrever, ficou óbvio o meu fascínio pelos livros: eu fazia os meus próprios, que também ilustrava e dava de presente à minha mãe. E eram muitos, um seguido do outro, alguns escritos ao mesmo tempo… Tanta atitude foi se diluindo no tempo, com o sonho sendo engolido pela urgência do jornalismo diário. Que, sim, é uma cachaça, e já me embriaguei muito e emocionadamente. Mas havia a vontade de beber em outras fontes. E, de repente, eu sequer me lembrava desse meu desejo primordial.

Cheguei a experimentar publicar esboços de ficção em um blog por mais de dez anos, o que me deu, antes mesmo do jornalismo, a alegria de descobrir que, sim, tinha leitores. Com a internet, havia a facilidade de contato com eles — alguns viraram amigos, inclusive. Também esbocei romances jamais terminados. Escrevi livros infantis que ficaram em pastas esquecidas do computador.

Há dois anos, no entanto, com a morte de um dos meus melhores amigos, acabei me confrontando com questões que surgem com a partida precoce de alguém. Ainda mais alguém como o Fred, com tanto potencial, que ele não chegou a desenvolver por completo. O que estou fazendo da minha vida? Onde foi que abandonei meu grande sonho, aquilo que foi minha primeira e maior certeza? Precisei de mais de 30 anos para me dar conta do que aquela garotinha sempre soube.

Sigo na missão de concretizar o desejo de ver minhas ideias em forma de livros, mas acabo de receber um afago na alma. Graças ao amigo Alvaro Costa e Silva, o Marechal — a quem chamo de meu oráculo, já que é grande referência para mim —, tive o gostinho  de ver um texto meu publicado em livro pela primeira vez, no recém-lançado ‘Dicionário amoroso do Rio de Janeiro’, um delicioso compêndio de verbetes escolhidos de forma puramente afetiva, organizado e escrito por ele.

O Marechal é daquelas figuras que guardam em si uma época que não existe mais. Um jornalista com uma bagagem que nós, que viemos depois, só podemos admirar, enquanto tentamos absorver qualquer coisa, anotando mentalmente suas infinitas histórias. Inteligente, boêmio, bem-humorado, Marecha, como é carinhosamente chamado pelos que o cercam, é uma verdadeira enciclopédia do bem-viver (e do bom jornalismo). Bebeu com os grandes, escreveu lindamente sobre eles. Isso para não mencionar o passo do siri-patola, uma dança que só ele conhece e executa, e que também é cercada por narrativas incríveis.

Pois graças a essa figura mitológica fiz minha primeira incursão no universo que sempre quis que fosse o meu, e do qual prometo não me afastar mais. Uma incursão tímida, mas ao lado de tenta gente talentosa que me fez perder um pouco a vergonha de trazer meus escritos à luz. Como oráculo que é, Marechal me deu a certeza do que eu sempre soube. Na busca de ser sua discípula (ou qualquer coisa próxima disso), sigo obstinada, olhos e ouvidos atentos. Ainda estou engatinhando, mas sei que ainda vou ter a coragem da menina que fazia seus livros sozinha.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: quadro ‘A Girl Writing; The Pet Goldfinch’, de Henriette Browne

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