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Tsu, a rede social que tira o sono de Mark Zuckerberg

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O diálogo começa assim: “Já usou essa rede social nova?” E logo você está se perguntando, em silêncio, para não parecer ultrapassado, quem, afinal, precisa de MAIS UMA rede social? Mas e se essa rede oferecer a você DINHEIRO a cada postagem ou curtida, a curiosidade aumenta?

Prazer em conhecer, essa é Tsu (se pronuncia sú, e tem a ver com uma palavra japonesa ligada à estética ou design), que nasceu há cerca de um ano atrás com a ideia de ser uma rede social ‘boazinha’. E o oposto de boazinha, neste caso, não é a palavra ‘malvada’, mas sim Facebook.

No início de novembro, o Facebook anunciou que o número de usuários já ultrapassou 1,5 bilhão de pessoas. É como se toda a população da Europa, do Brasil e dos Estados Unidos estivessem reunidas em uma rede social produzindo ou reproduzindo conteúdo 24 horas por dia. De graça. O conteúdo gera anúncios, mas o lucro com a venda desses anúncios fica na mão da rede social. Negócio da China, não é? E em escala global. Não é a troco de nada que o lucro do Facebook, só no terceiro trimestre de 2015, passou de 890 milhões de dólares (e seus diretores o consideraram fraco, com potencial para melhorar).

A ideia central do Tsu é ser um Facebook que divide o lucro com seus usuários. O design da rede social é inclusive bastante parecido com o do concorrente. Mas, a cada postagem e a cada curtida, você, teoricamente, recebe dinheiro. O esquema funciona assim: toda a publicidade do Tsu é dividida, 10% ficam com a rede social, e os 90% restantes são divididos entre quem posta e quem curte ou compartilha. Grosso modo, 45% vão para quem criou o post, 30% para quem foi diretamente convidado pelo autor do post e curtiu, 10% para quem foi convidado por essa segunda pessoa e assim por diante. O sistema de divisão do lucro é complexo, e algumas pessoas o têm comparado ao esquema em pirâmide.

Genial, não é? Mais ou menos. Ao mesmo tempo que o Tsu revela o quanto ‘trabalhamos de graça’ para o Facebook, ele também coloca um ‘preço’ no uso da rede social, acabando com a espontaneidade da experiência.

“As redes sociais se tornaram uma parte tão integrante do dia a dia das pessoas que elas raramente param para pensar por que estão nelas e por que estão postando um certo conteúdo. Você é o que você posta. Ou pelo menos gostaria de ser”, diz Carlos Affonso, fundador e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

E ele continua: “Se o objetivo de usar uma plataforma for ganhar dinheiro por cada post, uma indústria artificial de likes se instala de vez. Curte o meu post que eu curto o seu. Essa é uma rede que perde credibilidade, que peca justamente por não construir laços genuínos entre as pessoas, e talvez seja essa uma pista de por que as pessoas postam tanto nas redes. Existe um desejo humano natural por se comunicar, por ser e se fazer relevante.”

Esse é possivelmente o erro principal do Tsu, que rapidamente está virando uma rede social de… Spam. Todo mundo entra e curte e compartilha tudo porque a intenção principal não é se mostrar como você é ou quer parecer. A prioridade ali é lucrar.

Mas há outros erros. Aliás, segundo o blogueiro e consultor de comunicação Alexandre Inagaki, um desses erros é muito básico: a interface da nova rede social não funciona com perfeição como aplicativo.

“Em um mundo no qual a internet é cada vez mais acessada por dispositivos móveis, como smartphones ou tablets, qualquer rede social que queira conquistar um espaço atualmente dominado pelo Facebook precisa ter foco em apps. Não à toa, o WhatsApp já possui 900 milhões de usuários, enquanto o Snapchat está na casa dos 200 milhões”, explica Inagaki.

O terceiro erro, e talvez o mais fatal deles, foi dissecado com perfeição pela blogueira de tecnologia canadense e fundadora de uma rede social para mulheres, Girlfriend Social, Amanda Blain: a lógica da matemática do Tsu simplesmente não fecha.

Se a rede dividir o lucro com dois milhões de usuários e tiver US$ 2 milhões de dólares de lucro em um só dia, cada um vai ganhar menos de US$ 1. Em um ano, cerca de US$ 350. OK, mas e quando forem 100 milhões de membros, o lucro diário vai chegar a US$ 100 milhões? Difícil, nem o Facebook consegue isso (US$ 890 milhões em um trimestre, lembra?). Então na prática, quanto mais usuários, menor o lucro. Cada novo membro, na realidade, enfraquece a cadeia toda, levando a maioria a ganhar frações de centavos. Você para na rua para juntar uma moedinha de um centavo? Pois é.

E mais: a regra do Tsu diz que você só pode coletar o dinheiro depois de acumular pelo menos US$ 100. Mas, com essa matemática, recebendo frações de centavos por dia, o usuário mais ativo levaria anos, até décadas, para acumular US$ 100. É, camarada, dinheiro fácil mais suado esse, hein?

E mesmo assim, a nova rede social incomoda Mark Zuckerberg. Atualmente é impossível postar qualquer link do Tsu no Facebook. Ao tentar, aparece uma mensagem de erro dizendo que este conteúdo é bloqueado por questão de segurança:

“You can’t post this because it has a blocked link

The content you’re trying to share includes a link that our security systems detected to be unsafe:

tsu.co

Please remove this link to continue.

If you think you’re seeing this by mistake, please let us know”.

Claramente, a maior rede social do mundo não está interessada em dividir o lucro com mais ninguém além de seus acionistas. E, pelo menos por enquanto, os internautas parecem não se importar, conforme explica Affonso: “que os interesses econômicos da empresa que explora existam é algo tolerado e às vezes até esquecido, mas que esse seja o motivo pelo qual se posta e se curte parece ser algo que os internautas ainda não estão prontos para comprar.”

Carolina Cimenti é jornalista, está de férias em Paris, e assistia ao jogo no Stade de France quando a cidade foi atacada por terroristas. Munida de seu smartphone, fez a cobertura dos dias que se seguiram ao atentado para a TV.

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