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As vozes femininas de Mia Couto

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Não é novidade na obra do moçambicano Mia Couto: em livros anteriores, como ‘O fio das missangas’ e ‘Terra sonâmbula’, seu romance de estreia, ele já dava voz a narradoras femininas. Mas agora, talvez por ser um momento em que a situação das mulheres vem sendo tão discutida no Brasil, o tema ganhou mais destaque por aqui. No país para lançar o romance ‘Mulheres de cinzas’ (Cia das Letras, 344 págs, R$ 39,90), o autor falou sobre o assunto quinta-feira em debate na Biblioteca Parque Estadual, no Centro. Mia respondeu às perguntas de Carmen Lucia Tindó Secco, doutora e professora de Literaturas Africanas na UFRJ, Ana Kiffer, doutora e professora, que leram trechos da história, e do público que lotava o auditório.

O novo livro faz parte da trilogia ‘As areias do imperador’, que se passa no chamado Estado de Gaza, segundo maior império comandado por um africano na África. A história é contada a partir do ponto de vista do sargento português Germano de Melo, enviado ao vilarejo de Nkokolani para participar da batalha contra o imperador Ngungunyane, que ameaçava o domínio português, e a jovem Imani, de 15 anos, que foi educada por jesuítas e é sua intérprete.

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“Olhemos praqui, pra quem está aqui. Quantos homens estão aqui e quantas mulheres estão aqui? Isso já diz da proximidade da mulher com a palavra, com a história, com a facilidade de narrar e a sensbilidade de escutar. Isso passou-me, porque na minha casa vivi isso, quem contava histórias, quem as contava de uma maneira mais encantatória eram as mulheres. Essas vozes ficaram dentro de mim, trabalhando, como se fossem um patrimônio, um manancial que tava à espera de alguma coisa”, resumiu o autor. “No caso, as mulheres de Mocambique, falando mais de um ponto de vista social, são elas que têm essas histórias pra contar, são elas que contam histórias, mas não são reconhecidas. Uma das únicas autoras moçambicanas reconhecidas, Paulina Chiziane [primeira mulher no país a publicar um romance, em 1990], é uma mulher que teve que enfrentar todo um sistema patriarcal de violência enorme que foi feita contra ela porque é uma autora que teve reconhecimento nacional, internacional, e os homens se viam ameaçados porque alguém está a contar uma história, e ‘eu sou o dono da voz, o dono da história'”, explicou.

Depois da leitura de um trecho do livro (leia no fim desta reportagem) que aborda a violência contra a mulher, Mia foi elogiado por tratar do tema. “Eu tenho que confessar uma coisa: eu não posso dizer, quando faço um livro, que pensei: ‘Bom, agora, aqui, vou colocar a questão da mulher.’ Mas quero fazer isso, sim. Essa é a minha intenção, talvez mais sentida do que pensada”, disse. Ana Kiffer fez um paralelo entre o texto e o momento vivido pelas mulheres no Brasil, com o impacto da campanha #primeiroassédio e a resposta nas ruas ao projeto de lei 5069, e o escritor comentou que a situação em seu país é ainda pior. “Se as mulheres brasileiras vivem essa condição de violência contra elas, a mulher moçambicana viverá uma condição bem mais grave, portanto é quase preciso ser cego pra que em Moçambique não se veja que essa é uma briga que nos temos que vencer juntos.”

Ele contou que o nome de sua personagem, Imani, significa “quem é?” na língua do local onde se passa a história. “Isto quer dizer que esta pessoa não tem identidade, é uma interrrogação. E esta cinza com que ela se faz representar na história também foi outro nome que foi dado (a ela), em certo momento. A mãe achou que melhor seria Cinza, porque cinza é alguma coisa que não tem substância, por isso sofre menos. E aqui há outra coisa na história que também é sugerida e é pena que no Brasil não tenha que podido… [aqui, o livro se chama Mulheres de cinzas, no plural, diferentemente do nome original do livro, o que aconteceu para que não pareça que as mulheres do título estão vestindo roupas na cor cinza]. Cinza é o que restou do que já foi fogo, mas é alguma coisa que pode voltar a ser fogo, então há aqui um momento de transição em que esta mulher pode ainda renascer”, acrescentou.

O romance também reflete, afirma o autor, sobre a questão da memória. “Tanto como nações, como pessoas, temos que inventar uma memória para nós. Uma verdade é uma ilusão. A gente pensa que a nossa memória é feita de fatos, é  feita de coisas inquestionáveis. Passaram-se assim, acreditamos. Mas elas não se passaram assim”, argumentou. Mia reforçou que é importante que Moçambique entenda que há diferentes vozes em seu passado. “Nós próprios, dentro da África, estamos lutando para isso, para mostrar que a história não é tão simples assim, com os maus de lá de fora e nós, os inocentes injusticados, lá de dentro. Houve processos internos de violência, de ocupação, de colonização da própria África feita por africanos.”

Com a mesma poesia que perpassa sua obra, Mia Couto resumiu a experiência que vive ao escrever um novo livro. “Eu tenho que ser tomado, essas personagens tomam posse de mim, eu tenho que ser elas. E é uma coisa que é de domínio quase da embriaguez, porque eu tenho que deixar de saber quem eu sou. É um processo de apagamento, eu tenho que saber não ser, pra dar espaco pra que essa gente seja. E isso eu não sei como se faz, mas provavelmente é uma coisa no domínio, não (vou) dizer da patologia, mas no domínio de uma coisa que está muito dentro de nós. Porque eu não sei se o ser humano tem muita essência, mas tem alguma, provavelmente, e uma das que tem é a capacidade de poder viajar pelos outros, por outras identidades. A criança que pede ao pai ou à mãe ou ao avô ou à avó que lhe conte histórias, essa necessidade absoluta, como se fosse uma necessidade de comer e de beber, de viver numa história, de se produzir a fantasia, é algo absolutamente essencial pra que nós nos constituamos como criatura. Eu acho que isso tá inscrito, é como se fosse uma coisa genética. Nós somos criaturas de histórias. Somos feitos de células, de átomos, sim, mas de histórias.”

 

Veja um trecho de ‘Mulheres de cinzas’ que foi lido no debate:

A sua mãe tambem era espancada. A avó, a bisavó e a trisavó. É assim desde que a mulher é mulher. Prepare-se para ser espancada também você. Uma filha não contesta certezas dos mais velhos. Imitei o seu gesto e, na concha da mão, suspendi um punhado de areia que depois deixei desabar em cascata. Aquela era areia vermelha era, no costume da nossa gente, alimento de grávidas. Escorria-me por entre os dedos o desperdício da minha existência.

 

Kamille Viola é uma das editoras da Vertigem e completamente encantada por livros. Mia Couto é um dos escritores do coração. E-mail: kamilleviola@gmail.com 

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