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Toninho Geraes além do compositor

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No samba de raiz, Toninho Geraes é considerado. Essa é a melhor definição para o compositor consagrado nas principais rodas de samba do Rio de Janeiro e que começa a ganhar projeção nacional. Ele é um dos autores de “Se a fila andar” e  “Alma boêmia”, novos hits dentro do repertório de difícil renovação. O artista também foi descoberto por São Paulo, onde tem feito uma média de três shows semanais, além de se apresentar em estados da região Norte e Nordeste e em Brasília.

“Eu me sinto ignorado pelas rádios, mas toco na internet e, hoje, nas rodas do Brasil inteiro. Onde tem roda de samba de raiz, sou reconhecido, e isso me basta, me faz feliz, supre a minha alma. Isso é meu pão, meu conforto. A minha realização é saber que tem pessoas cantando a minha obra. Agora tenho uma agenda nacional”, garante Toninho, que, há pelo menos duas décadas, assina sucessos, como “Mulheres” (cantada por Martinho da Vila), “Seu Balancê” (famosa na voz de Zeca Pagodinho) e “Me leva” (lançada por Agepê).

E, depois de tempos entregando o ouro para artistas consagrados, o músico mineiro, de 53 anos, percebeu que precisava segurar as portas da mina. Antes de terminar a composição de “Se a fila andar”, ele já sabia que tinha um sucesso nas mãos. Escalou a canção na primeira faixa do CD ‘Tudo o que sou’, que estava para lançar. Mas o faro infalível de Beth Carvalho detectou de longe o potencial da música.

“Nunca abra a boca pra dizer: ‘Isso eu não vou fazer’. Porque o Criador te dá uma resposta. ‘Eu não vou fazer’ até a página dois. Quando eu compus essa música, bati no peito e falei: ‘Essa eu não dou pra ninguém’. Aí, a Zê, que trabalha com a Beth e é minha amiga, crente que estava me ajudando pra caramba, mostrou pra ela. Mas, pra você ter ideia de até onde eu chegaria, eu não queria dar aquela música nem pro Frank Sinatra. E aí me liga a rainha. Ela não pede, ela manda. Ela me liga toda empolgada com a música. E eu falei pra ela: ‘Está no meu disco, é a faixa um do meu disco’. Ela respondeu: ‘Mas gostei tanto dessa música. Deixa gravar também no meu DVD?’ E como eu vou dizer não pra Beth Carvalho, gente? Mas eu queria dizer não pra Beth Carvalho. Tentei dizer não pra Beth Carvalho. Mas não consegui”, revela ele.

Apesar de ter aberto uma sofrida exceção, Toninho está firme no propósito de ser reconhecido também como cantor. A justificativa é mais do que plausível: “Estou construindo a ponte que liga o autor ao intérprete, e essa ponte não é qualquer um que consegue fazer. Não quero mais ser compositor de ninguém, quero ser intérprete da minha obra. Direito autoral não dá dinheiro mais. Não tenho essa vaidade mais de ser gravado por fulano ou beltrano”, garantiu ele, que depois pensou melhor e entregou três nomes que se orgulharia de ver gravando uma música dele: “Paulinho da Viola, Chico Buarque e Maria Bethânia. E ficaria por aí.”

A produção independente deu a Toninho Geraes uma visão ampla do mercado fonográfico. O jovem sonhador que, aos 16 anos, trocou Minas Gerais pelo Rio de Janeiro com três músicas autorais achando que iria conseguir fazer samba, se transformou no autor de mais 250 canções e, hoje, é responsável por uma tática de marketing arrojada.

“Nada cai de paraquedas no meu colo. Tudo eu garimpei, eu ralei muito. No ‘Preceito’ (álbum anterior), eu dei 20 mil CDs nas rodas de Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. No último Samba do Trabalhador (a roda carioca mais badalada), eu dei mais de mil CDs promocionais (já do novo ‘Tudo o que sou’). Nada vem de graça. Não dou jabá. Já teve rádio me chamando pra conversar. Mas se eu não concordo com o que eles fazem, por que agora eu iria fazer?”

O entendimento dos meandros da produção musical, Toninho adquiriu depois de anos de fracassos acumulados. “Vim pro Rio de Janeiro para vender uma música pro Martinho da Vila. E vim fugido de casa, de carona. Não tinha onde morar. E já que eu vinha pra morar na rua, eu fui logo pra Ipanema, lugar mais caro do Rio de Janeiro. Iria para Nova Iguaçu? Com todo respeito a quem mora em Nova Iguaçu! Vamos deixar de hipocrisia. Ninguém mora em Nova Iguaçu porque quer. É longe da praia! Fui logo morar no lugar que é o metro quadrado mais caro do Rio. Mas, quando dei de cara com o muro, vi que o mundo era outro. Eu fiquei magrinho. Voltei para Belo Horizonte. Tiveram algumas idas e vindas. Passei muito perrengue”, lembra ele, que ainda chegou a ser despejado de uma casa em Madureira: “Uns amigos de Belo Horizonte vieram passar um feriado comigo. E, na segunda-feira, o oficial de Justiça chegou para acabar com a nossa maloca. Também já morei em quartinho em que só cabia uma esteira. Morei no sapato. Morei andando. Mas sobrevivi”, diz.

Prestes a se mudar para um apartamento próprio no Rio Comprido, Toninho, hoje, morador do Andaraí, sabe que a fase profícua que vive se deve ao atento e contumaz garimpo de letras e melodias. “Até hoje me deparo com compositor que chega pra mim e diz que tem cinco músicas. Esse aí ainda nem aprendeu a lidar com a caneta. Tem que calejar um pouquinho. Uma vez, eu fui elogiar o Aldir Blanc e ele me mostrou a inspiração dele: eram calos no cotovelo. Não há receita de bolo. A letra é mais complexa. Melodia está no ar. É só pegar, é que nem passarinho”, define.

“Mulheres”:  letra gay?

Não faltam exemplos de machismo declarado sem pudor em sambas de conceituados sambistas. Mas, em tempos de calorosos debates em torno do feminismo, Toninho Geraes está em paz com a própria obra. O clássico “Mulheres” já foi adotado por gays que viram na letra da canção uma espécie de redenção.

“Um dia me mostraram uma montagem na internet com uma novelinha, em que o cara vai ficando com mulher, mulher e, no final, ele aparece beijando um homem. Achei o maior barato ver que uma obra minha, num tempo com tanta discriminação, transcendeu essa minha intenção de gênero”, defende.

Sara Paixão é tijucana-raiz, rubro-negra, mãe do Arthur, mulher do Flávio, filha da Alexandrina e do Ribamar. Saiu da redação de jornal popular, mas a redação não saiu dela. Adora escrever sobre música e comportamento, principalmente, sobre o que vê no subúrbio carioca, uma paixão antiga. E-mail: sarapaixao@gmail.com

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