colu

Prisma

0 Flares 0 Flares ×

Gratidão por 2015

“Gratidão” já é quase um bordão nas redes sociais. Esse “obrigado por tudo” ‘reloaded’ está por todo lado, mas é preciso perguntar: tudo, mesmo? Dois mil e quinze, um ano pra lá de estranho, que colocou a mim e a tantos que conheço numa montanha-russa das mais violentas e inusitadas. Pudera, ano de Marte. O mundo, a gente sabe, também está de cabeça pra baixo, afinal, essa montanha-russa está incrustada nele, que está cada vez mais parecido com o parque de diversões do Banksy, Dismaland. Daí, parece que, pra suavizar a barra pesada, gerar uma onda de bem estar coletivo e evocar a saúde emocional perdida na guerra cotidiana, seja dentro, seja fora da internet, começou a pipocar aqui e acolá, nas redes sociais — sempre elas — uma palavra que andava meio esquecida e que sempre foi identificada com religião, especialmente com o Cristianismo: gratidão.

Depois da avalanche de pedidos de mais amor, por favor, de repente, estava ela, onipresente, principalmente nos comentários dos gurus da grande rede, quase sempre acompanhada do emoji das mãos juntas em oração. Em seguida à onda, Gisele Bündchen, uma criatura com muito pelo que agradecer, tascou uma hashtag na frente da palavra terminada em ão e, pronto!, banalização. A gratidão, de virtude soterrada pelo clima “reclame aqui” das mídias sociais, termo em desuso diante do acúmulo de adversidades nos micros e no macrocosmos, tornou-se um vírus do léxico da web. E em pleno ano de crise no Brasyl, acho que, se for feita uma pesquisa de vocábulos mais usados nas principais redes por brasileiros e brasileiras, ganham gratidão e crise. Gratidão pela crise, 2015?

Pois, curiosamente, na arqueologia online, revela-se que em 2010, um ano depois de o Brasyl ter sido capa da The Economist com o Cristo Redentor decolando como foguete, situação bem diferente da de dois mil e crise, em que a mesma mostra o país atolado no lamaçal a gratidão não estava em alta. Uma chegadinha no site origemdapalavra.com.br mostra Hosana (não sabemos se nas alturas) perguntando: “Qual a origem desta palavra tão bonita, porém pouco exercida (sic)?” A administração do site, pesarosa, responde: “é verdade, a palavra está sendo pouco usada atualmente”, antes de explicar que ela deriva do latim ‘gratus’, que significa tanto ‘agradável’ como ‘agradecido’. A realidade do país era bem mais agradável em 2010 mas a #gratidão andava em falta.

Já em tempos de muita culpa — seja pela superexposição nas redes sociais, que já virou alvo preferencial de apedrejamento ou deboche, seja pelos palavrões desferidos no trânsito durante o dia que não são mais ignorados — e dívidas, financeiras ou de atenção, já que são tantas as solicitações diárias, a #gratidão parece assumir perfeitamente o papel do outro prato da balança. Esta balança que desequilibra facilmente para o lado da dor quando um coletivo espancado diariamente pelas dificuldades de viver no Brasyl se vê reunido online. O povo está endividado até as calças mas assume com humildade a necessidade de agradecer como contraponto forçado ao mal-estar imperativo. É interessante observar que a gratidão envolve um sentimento de dívida em direção ao outro ou a uma divindade. “Devo, não nego, pago quando puder”, mas #gratidão não vai faltar em ano de crise. Um pôr-do-sol no paraíso perigoso com água de coco a 5 reais, por exemplo, passa a ser visto como um luxo e é preciso ser grato pelo momento. Não por acaso, pintou uma pichação em alguns bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro, como Botafogo e Ipanema, onde se vê um alien-monstrengo com um “GRATO” escrito dentro de um balãozinho de HQ. É uma experiência urbana desconcertante dar de cara com semelhante dessemelhante expressando sua gratidão. Ficamos indefesos diante do “grato”. Em tempos de escassez de recursos, sobra o exercício de reconhecer valor no pequeno (que nem sempre é tão pequeno assim), no imediato, no presente, no que se pode dar a si e ao outro. Não deixa de ser uma benesse que uma emoção tão positiva esteja sendo espalhada num momento de perda, conflito e caos.

Falando em reconhecer, no site www.hottopos.com, um texto sobre a origem etimológica de “gratidão” informa que “algumas línguas expressam a gratidão, tomando-a no primeiro nível: expressando mais nitidamente o reconhecimento do agraciado. Aliás, reconhecimento (como ‘reconnaissance’, em francês) é mesmo um sinônimo de gratidão”. Numa fonte mais religiosa, o livro ‘Sementes entre lágrimas: porque o seu sofrimento não é em vão e pode ser transformado pelo poder de Deus’, do Pe. Antônio José, há um capítulo dedicado à palavra campeã das redes sociais, em que o autor diz que demonstrar “gratidão ao Senhor não é só dever de reconhecimento, mas de salvação”. “Quem agradece salva-se”, resume. Flavia Melissa, a blogueira que lançou o desafio ‘300 dias de gratidão’, convocando leitores de seu espaço a agradecer por algo todos os dias por 300 dias, concorda com o padre: “(…) buscar motivos pelos quais me sentir grata foi o que literalmente me salvou em momentos de desespero e falta de confiança”. Ela destaca que é nos momentos de maior desgraça que se deve, justamente, agradecer. Ainda no capítulo sobre gratidão, o sacerdote declara que os dois maiores inimigos da gratidão são a ansiedade (porque não permite reconhecer o que há de bom durante o momento vivido) e a mania de limpeza. Segundo ele, um olho que pesca defeitos com precisão parece estar condenado a desprezar todo o resto que está “certo” e, assim, parece ser o perpétuo movimento de algumas pessoas de perceber somente e continuamente os erros, imersas no famoso estado “aquém das expectativas”.

Não é de hoje que o Facebook se transformou numa espécie de sucursal online das trevas, receptáculo de todo o absurdo que abunda em nossa terra, muro das lamentações tropicais, Procom das relações mal resolvidas e ambulatório precário das instituições nacionais. Pensando nisso, esse empedernido círculo vicioso de reclamações, com direito a bem divulgadas “faxinas” de amigos nos perfis dos mais maníacos por perfeição, deve ter sido o ponto crucial para transformar a #gratidão em fenômeno pop. A singeleza do agradecimento, mesmo em meio às mais soturnas tormentas, veio, então, atenuar os efeitos ‘hard’ dessa pílula azul social que deixa os dedos sempre em riste, tanto para dar ‘like’ como para apontar defeito. Mas até que ponto a filosofia “é bom ser do bem” de parachoque de SUV e a aplicação compulsiva do emoji-amém se sustentam fora da peça encenada no site de Zuckerberg? A histeria não-solte-um-grito-solte-um-grato! faz sentido em situações cotidianas numa metrópole castigada pela falta de educação e bom senso como o Rio de Janeiro? Foi com essas perguntas que eu fiquei cara a cara na semana passada, quando presenciei uma moça a quem apelidei de “a louca da gratidão” ter um surto de reconhecimento de uma pretensa boa ação que não passava de… obrigação. Cabia um “obrigado”, afinal?

Ponto de ônibus. Três veículos enfileiram, dois deles não dão partida nunca e o terceiro, já nervosinho, começa a ensaiar a providencial saída à esquerda. Era justamente no terceiro em que eu queria embarcar. Rapidamente, me levanto pra checar se era mesmo o “meu” ônibus. Assim que chego perto, ele começa a andar por fora. Eu, a pedestre ‘kamikaze’, atravesso na frente dele e já no meio do asfalto, deixo claro que ele tem que parar. Ele aponta pra frente, sinalizando que vai parar distante do ponto. Saio correndo, mas duas mulheres já estão mais próximas e sobem antes de mim. Quando estou finalmente subindo, uma delas diz ao motorista: “Gratidão! Muito obrigada por ter parado.” Não era ironia. Ela vibrava pela graça, opa, parada concedida. A senhora que ia girando na roleta me olhou com cara de “não estou entendendo nada” e eu soltei um ar de preguiça, o “aff” das redes sociais. A senhora não deixou passar e comentou que o motorista tinha desrespeitado a regra. A moça se exaltou, numa postura defensiva estrondosa e veio cheia de desculpas: Ué, gente, eu só estou tentando ser gentil, você não acha que deveríamos cultivar a gentileza? O mundo está tão ruim, o Brasyl não está nada bacana, é melhor agradecer.” Eu me irritei e dei um corte: “Ele não fez mais que a obrigação dele e, ainda por cima, fez errado.” Não ia explicar a ela que o ônibus só tinha parado porque tinha havido uma louca pra parar em frente a ele no meio da rua. Comigo, ela adotou uma defensiva mais veemente: “Vai me xingar por isso, vai me linchar?”, e prosseguiu no seu transe de #gratidão. E eu deixei pra lá, mas fiquei encucada com os limites entre a obrigação e o obrigado.

No mesmo , há uma longa explicação sobre a diferença entre a etimologia de “gratidão” na língua inglesa e na alemã. Em ambas, “pensar” e “agradecer” compartilham da mesma raiz. Em inglês, ‘think’ (pensar) e ‘thank’ (agradecer) são irmãs, assim como em alemão, ‘danken’ (agradecer) e ‘denken’ (pensar). O autor do site comenta: “Tudo isto, afinal, é muito compreensível, pois, como todo mundo sabe, só está verdadeiramente agradecido quem pensa no favor que recebeu como tal.”O que a moça agradecida ao motorista considerou um favor porque ponderou foi o que eu não fui capaz de reconhecer. Mas teria ela realmente ponderado? Na cultura latina, a formulação de “gratidão” assume contornos um tanto diferentes. São Tomás diz que o núcleo do ‘gratias ago’, que se projetou no italiano, no castelhano e no francês, comporta três dimensões, e a primeira delas é assustadoramente adequada à cultura brasyleira: “Obter graça, cair na graça, no favor, no amor de alguém, que, portanto, nos faz um benefício.” Senti uma pontada na cabeça ao ler isso, já que país em desgraça sempre tem um significativo contingente de indíviduos para cair nas graças de alguém importante. E o que me pareceu é que o instinto de agradecimento tão aflorado naquela moça condiz com o reconhecimento da graça que é ter um motorista que simplesmente pare para que ela suba, ainda que fora do ponto. O popular meme do ônibus “a que ponto chegamos?” define. Na terra da baderna, quem para, não importa onde, é rei. E, por isso, é justo agradecer. Como ela mesma explicou, “ele podia não ter parado, gente, vamos ser gratas!”. A obrigação, essa sim, não é mais reconhecida como tal, e se não é por aquele que é servido, como será por aquele que serve?

Enquanto isso, na cultura japonesa, o ‘arigatô’ remete aos seguintes significados, classificados como “primitivos” pelo autor do hottopos: “a existência é difícil”, “raridade”, “excelência”. Creio que possamos dar as mãos aos japas na consciência de que é bem difícil viver. Para ele, o sentido de ‘arigatô’ aponta para a consciência do quanto a vida se torna complicada a partir do momento em que se recebe um favor, já que retribuir ou “saldar a dívida” torna-se impossível. Num ambiente de difícil locomoção como é o Rio, com tanta carência de respeito às regras de convivência e às noções sobre servir, não pode espantar que alguém prefira bancar a dívida gerada pela percepção de um falso favor como sendo verdadeiro a reclamar de uma obrigação não cumprida. E, assim, vamos tornando a vida uns dos outros cada vez mais difícil, usando a blindagem da #gratidão. A organização, sim, nos parece impossível. Por outro lado, se pensarmos que aquele motorista não tem responsabilidade pelo ponto malfeito, nem pela incompetência de seus colegas que ficaram estagnados por tempo demais e, sabe-se lá por quantas tristes condições mais que tornam sua tarefa de dirigir um ônibus algo de sobrenatural dificuldade, podemos entender por que a moça reconheceu um favor, mesmo no desvio. “Num mundo em que a tendência geral é a de cada um pensar em si, e, quando muito, regularem-se as relações humanas pela estrita e fria justiça, a excelência e a raridade salientam-se como característica do favor”, diz o autor do hottopos. Parar o ônibus em vez de ignorar os passageiros já deve ser considerado uma raridade no Rio?

Mas eu ainda me pergunto: agradecer indiscriminadamente é a maneira justa de sublimar tudo que está errado? Será mesmo preciso, erradicar a mania de limpeza num lugar em que quase tudo está tão sujo? Reconhecer o que temos de bom em meio a tantas mazelas parece ser uma medida prudente para a nossa saúde mental, mas não parar pra pensar no sentido das coisas não me parece ser a saída para que elas entrem nos eixos. “Think before thanking”, talvez. Vamos tirar a hashtag da frente de uma palavra séria como “gratidão” e tascá-la na frente de “banalização”. As mãozinhas do emoji motivacional estão fechadíssimas, mas o valor da gratidão parece escorrer por entre os dedos. Nunca vai estar totalmente bom, mas vamos ser gratos, mesmo assim. Nunca vai estar totalmente bom, mesmo, mas, nem por isso, vamos deixar de fazer o que há de ser feito pra que melhore. Com isso, gratidão por 2015 e seus infindáveis testes de resistência, paciência, coerência e inteligência, mas que venha por aí um ano em que possamos ter mais amor e união sem pedir por favor. Grata.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×