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As vertentes do feminismo no cinema

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Inspirado nos protestos das feministas britânicas pelo direito ao voto entre os anos de 1911 e 1913, ‘Suffragette‘ (dirigido por Sarah Gavron, Grã-Bretanha, 2015), que estreia no Brasil em dezembro, apresenta a história do primeiro movimento social organizado exclusivamente para a defesa de direitos da mulher.

No final da década de 1840, particularmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, o termo ‘feminismo’ passou a definir as iniciativas coletivas contra as desigualdades de condições impostas às mulheres. Embora as séries ou episódios de resistência protagonizados por mulheres contra a intransigência das esferas familiar, jurídica, policial ou médica escapem às tentativas de petrificação cronológica, foi a partir da organização dessa resistência no espaço público durante a luta pelo direito ao voto que o termo adquiriu o sentido que ainda lhe é atribuído.

Com uma breve aparição de Meryl Streep, como a lendária Emmeline Pankhurst, ‘Suffragette’ combina drama e linguagem documental para descrever o primeiro movimento reconhecidamente feminista.  O filme pode ser considerado uma das peças que faltavam na série recente de longas-metragens que buscam explicar diversas vertentes feministas, como ‘Libertem Angela Davis‘ (2013), ‘Pussy Riot: a punk prayer‘ (2013), ‘Ukraine is not a brothel‘ (2013) — a história das controversas ativistas do Femen — e ‘The punk singer‘ (2013), documentário sobre Kathleen Hanna, vocalista da banda americana Bikini Kill e principal arquiteta do movimento Riot Grrrl.

Curiosamente, porém, ao menos, desde meados dos anos 1990, quando os ideais anticapitalistas das Riot Grrrls foram adaptados para a estética pop do chamado ‘girl power’, “feminismo” parecia uma palavra em desuso e, em certos casos, até mesmo um termo pejorativo. Algumas teóricas, inclusive, chegaram a se proclamar ‘pós-feministas’, alardeando uma suposta obsolescência do feminismo. Na tentativa de enquadrar os movimentos feministas historicamente, tendências distintas ou mesmo divergentes acabaram reduzidas a um bloco monolítico formado por três grandes matrizes — as chamadas “três ondas do feminismo”.

Nunca houve, de fato, um consenso rigoroso ou um feminismo único: enquanto a americana Betty Friedan pregava um feminismo de viés liberal e vetava a participação de lésbicas na sua organização, por exemplo, do outro lado do Atlântico, Simone de Beauvoir afirmava que a biologia não define a condição de mulher. De acordo com essa tipologia problemática, as três ondas corresponderiam às fases sequenciais em que os movimentos feministas ganharam mais visibilidade. Assim, essas três ondas seriam as sufragistas, o movimento pela liberação da mulher nas décadas de 1960 e 1970, e, após o colapso do colonialismo, o reconhecimento das diferenças culturais, sociais, econômicas e sexuais entre mulheres.

‘Suffragette’ é um instantâneo da “primeira onda” à qual os historiadores se referem, a mobilização protagonizada por senhoritas burguesas e militantes egressas dos movimentos operários em meio às intensas transformações experimentadas nas sociedades industriais.

Aparentemente, contudo, como argumentaram as pós-feministas, as conquistas femininas nas mais variadas esferas eram definitivas e nada parecia ameaçar novos avanços. O que explicaria, portanto, essa intensa renovação de interesse, tanto por parte das mulheres como da indústria do entretenimento, pelo feminismo e sua história? No Brasil, nas últimas semanas, “feminismo” foi um dos assuntos mais recorrentes nas redes sociais. Segundo uma publicação no Facebook do pesquisador Fábio Malini, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo, numa amostra de quatro milhões de tweets sobre o Enem 2015, destacou-se uma intensa participação de redes feministas. Essa participação se explica em virtude do tema proposto pela redação do exame — a violência contra a mulher.

Coincidentes com a crescente reação contra o PL 5069/2013, de autoria do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que, entre outras medidas injustificáveis, impede que vítimas de estupro possam realizar o aborto legal garantido pela Constituição desde 1940, essas discussões se somaram aos relatos publicados sob a hashtag #primeiroassédio. Nos incontáveis depoimentos que circularam nas redes, mulheres descreveram experiências sofridas como forma de combate ao silêncio compulsório que geralmente assombra as agressões de caráter sexual, garantindo não só a impunidade do agressor, mas a própria naturalização do estupro. Toda essa mobilização iniciada nas redes acabou transbordando para as ruas do Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Fortaleza, entre outras cidades, onde milhares de mulheres protestaram contra o projeto de lei e pela cassação do seu autor — notório fundamentalista neopentecostal indiciado por recebimento de propinas mantidas em contas clandestinas na Suíça.

A exemplo do Brasil, muitos outros países democráticos andam às voltas com tentativas semelhantes de sabotagem dos direitos civis por parte de grupos políticos originados em seitas “cristãs”. Se, por um lado, os processos globalizadores provocaram um contágio sem precedentes entre narrativas feministas do mundo inteiro, erodindo a tradicional supremacia das vertentes anglo-saxãs, eles também produziram, por outro lado, radicalismos ancorados no finado conceito de identidade nacional. Quando misticismo passa a se confundir com Estado, é sempre na dominação dos corpos — especialmente dos corpos femininos — que a violência busca tornar o seu poder visível.

Assim, como afirma Judith Butler, enquanto mulheres forem vítimas de violência pelo simples fato de serem mulheres, é preciso ser feminista. E, num momento como esse, em que direitos fundamentais das mulheres se encontram sob forte ofensiva, toda tentativa de recuperação da trajetória dos movimentos feministas, por mais melodramática que seja, é extremamente bem-vinda.

Simone do Vale é jornalista e doutora em Comunicação e Cultura pelo Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ. E-mail: simvale@gmail.com

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