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Sentimento do Mundo

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Um pedaço de subúrbio

Passei boa parte da infância entre a casa onde morava com os meus pais, na Tijuca, e a dos meus avós maternos, numa bucólica vila no bairro de Vila Isabel. Tão marcante que até hoje, nos meus sonhos, é lá que minha avó mora, embora ela já tenha se mudado há muitos anos, com meu avô ainda vivo.

Talvez venha daí meu fascínio pelas vilas: elas guardam esse pedaço de infância, têm um certo ar de subúrbio que é feito casa para a menina criada na Zona Norte que até hoje vive em mim.

Há cinco anos, através de uma amiga, tive a sorte de me mudar para uma — sim, porque descobri que as vilas, ao menos as do lado de cá do túnel, são uma espécie de clube fechado para o qual só se entra com o aval de algum morador. A cada vez que atravessava o portão, era como se eu adentrasse outro mundo, tranquilo, onde o tempo fluía em outro ritmo. Talvez fosse esse o tempo da delicadeza do Chico Buarque.

Não à toa, quando recebi o aviso de que teria que devolver o imóvel à proprietária sofri como quem vive uma desilusão amorosa, o aperto no peito dia após dia, apesar das palavras de ânimo de todos à volta.

Mas, como bem ensina a sabedoria popular, nada como um novo amor, e eu me deparei com uma nova casinha de vila para alugar. Foi amor à primeira visita: me imaginava passando as noites olhando para a lua, sabendo o nome dos vizinhos, conversando uns bons minutos no portão, pedindo ajuda nos pequenos imprevistos em casa.

Uma amiga, antiga moradora, fez a ponte, e cá estava eu — mãos suando, coração acelerado, medo de dizer alguma coisa na hora errada e acabar sendo rejeitada — diante do dono. Contou-me que já havia um outro interessado, mas que me dera preferência por causa da indicação.

Quando chegou a hora de ouvir o sim, me senti como quem ganha o aguardado primeiro beijo: tive vontade de sair pulando, de gritar para o mundo que aquela casinha agora era minha, que seríamos felizes para sempre.

Enquanto escrevo, as crianças brincam na área comum. Aos domingos, uma família faz churrasco, piscina de plástico no chão, samba tocando alto. O casal de vizinhos gente fina resolve problemas para a vila inteira. Há uma família só de mulheres em que todas gritam umas com as outras o dia todo. Minha amiga (e hoje vizinha) me dá dicas que só quem mora há quase 20 anos no mesmo lugar poderia saber. Às vezes, meu amor e eu nos pegamos olhando para o céu, apaixonados pela vista da janela. Sinto que já encontrei um lugar para chamar de lar outra vez. Que seja infinito enquanto dure.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

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