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Notas Perfumadas

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A volta dos cheiros naturais

Atualmente, muitas pessoas não conseguem sentir o aroma de pinho sem lembrar de desinfetante de banheiro, ou não reconhecem sequer o aroma de rosas se não estiverem olhando para uma. A supersaturação dos odores químicos sobrepujou a nossa habilidade olfativa e perdemos a magia de sentir e reverenciar os cheiros mais sutis!

Os aromas são capazes de mudar nosso estado emocional. No entanto, para surtir bons efeitos, é necessário que lavandas, rosas, tangerinas e bétulas sejam reais, e não sintéticas. Os sintéticos das plantas, criados em laboratórios, apresentam bons cheiros, mas não o efeito de plantas de verdade, já que existem coisas na natureza que só existirão nela, jamais conseguiremos criar. Esse é o caso da energia vibracional das plantas, ou seja, a energia vital vegetal que só existirá nelas, assim como a nossa energia vital, a dos minerais, da água e da terra. Elas não podem ser criadas em laboratório.

Cheiro de flor de verdade não é apenas doce. Tem um toque de amargo, misterioso e convidativo capaz de elevar-nos às mais sublimes imaginações e emoções. Os perfumes sintéticos são feitos de fragrâncias lineares desenvolvidas para causar um impacto forte e instantâneo, atingindo os sentidos de uma só vez, sem que se possa observar e sentir as suas nuanças. Albert Einstein dizia que o olfato é o sentido da imaginação, pois aguça a memória permanecendo invisível. Para os historiadores, os perfumes, em sua época de ouro, quando eram feitos artesanalmente, não eram apenas produtos, e sim um modo de ser que revelava a personalidade e fazia representações importantes na sociedade.

Para Mandy Aftel, “o declínio da perfumaria natural não foi somente uma perda material, mas também uma perda em termos espirituais”. Os perfumes artesanais, criados como unguentos ou macerados em óleos essenciais e vegetais se transformam na pele, entrando em diálogo com ela. Os preparados artesanais possibilitam que façamos contato com nós mesmos numa metafísica recíproca entre os aromas das plantas e o nosso cheiro.

Segundo Eugene Rimmel no ‘Book of perfumes’ (1865), é possível ver a história das essências através das civilizações. Hoje, podemos não entender a importância das especiarias aromáticas, mas, no passado, tanto os seus valores materiais, como também os de uso eram tão conhecidos que eles foram responsáveis pelo desenvolvimento da Rota das Especiarias, por suas transformações, interações entre os povos e trocas culturais.

Foi com a descoberta do fogo no período Paleolítico e a queima dos vegetais no Neolítico que as plantas ganharam papel de veículo místico e símbolo litúrgico, tornando-se chaves de contato com o Celeste e o Divino. Muitas são as representações da importância do Reino Vegetal na história da humanidade: o Shen Nung na China, o Atharva Veda na Índia e o Papiro de Ebers no Egito. Todos esses falam de manipulação, conservação ou descrição de ervas.

A perfumaria, de forma artesanal e rudimentar, usada para higiene, ligação espiritual e estética, tem a sua origem na derivação do latim “per” (através) “fumum” (fumaça), “através da fumaça”. Ela se refinou com as descobertas de destilação no mundo árabe e teve um grande aperfeiçoamento até ser solapada pelo golpe da Inquisição, no século XIII. Com três milhões de pessoas mortas, acusadas de bruxaria, em sua maioria mulheres, os conhecimentos herbários foram silenciados, sua cultura oral passada de mãe para filha foi enfraquecida e as receitas de unguentos e tinturas, feitas com ervas, deixaram de ser registradas.

Com o fim da Inquisição, a herbaria voltaria à cena na era Renascentista, perdurando até que o Iluminismo, com o seu pensamento de modernidade e progresso, passasse a colocar o olfato como o mais baixo dos sentidos por nos aproximar dos hábitos dos animais e com a natureza. O homem iluminista não era a natureza, como dizia o alquimista Paracelso, mas achava-se maior que ela, num obsessivo pensamento de dominação sobre a mesma. Dessa forma, o olfato passa a ser marginalizado como o menos importante dos sentidos, indigno de ser cultivado.

Cheirar e cozinhar plantas, unguentar e fazer analogias com metais e fases da Lua eram sinônimos de uma Idade das Trevas. No século XIX, o termo ‘cientista’ é cunhado junto à euforia tecnológica da Revolução Industrial, e é, também, nesse quadro que os sintéticos são criados em número cada vez maior e ganham aceitação pela rapidez, menor preço e estabilidade na manipulação química ao substituírem os naturais.

Desde então, os sintéticos dominaram o mercado dos aromas, sendo a magia dos óleos essenciais resgatada em 1920 com René-Maurice Gattefossé, e apenas no que tange à aromaterapia. Só agora, no início do século XXI, é que a utilização da herbaria e a manipulação de unguentos, macerados e tinturas voltam, na forma de perfumes botânicos, e com muito mais força, já que hoje se tem uma gama de estudos muito maior do que no passado sobre as qualificações das plantas e a ligação delas com as terapias holísticas. Isso ocorre devido ao processo de revalorização e de reconexão da sociedade com a natureza.

Como bem escreveu Marsilio Ficino em 1489, no seu ‘Livro da Vida’, “Se você retirou sabores de coisas que já não vivem, odores de aromatizantes secos, coisas sem qualquer traço de vida, e pensou que isso era muito útil à vida, por que hesitar em extrair odores de plantas com raízes ainda crescendo nelas, ainda vivas, coisas que maravilhosamente acumularam poderes para a própria vida?”

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail:margaridalquimia@gmail.com

 

Imagem: quadro ‘Perfume’, de Daniël Douglas

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