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Garotas invadem as rodas de mosh

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As luzes vermelhas banham a plateia com um brilho ameaçador, quase sinistro. A banda emerge no palco. A bateria cospe uma rajada de sons, como uma metralhadora. As guitarras trovejam um riff pesado. O baixo rosna, gutural, revirando estômagos. A galera que se acotovela à frente do palco começa a saltar para cima, para baixo e para os lados, movida pelo som. Punhos erguidos socam o ar, cabeças balançam. A música acelera, a roda se abre. Esbarrões antes esporádicos viram colisões contínuas e intencionais. A garota mergulha no olho do furacão: é engolida pelo redemoinho de camisas pretas nos corpos, quase todos masculinos.

Como parte dos estudos de seu doutorado em Educação Física na Universidade de Leeds Beckett, no Reino Unido, a pesquisadora canadense Gabby Riches, 28 anos, não se contentou em observar fãs de heavy metal em mais de cem shows na Inglaterra, de 2102 para cá. Ela também se atirou, literalmente, nos chamados ‘moshing pits’ — as famosas rodas que se abrem nas plateias de metal ou punk para dar espaço a uma espécie de dança que, de longe, parece briga [também chamado de pogo no Brasil]. “Minha pesquisa atual explora o significado de praticar o moshing para mulheres fãs de metal”, afirma Gabby, que, no calor do momento, entrevistou 26 delas, com idades entre 20 e 50 anos.

A atitude — que subverte as normas sobre a capacidade corporal feminina — empodera aquelas mulheres, constata Gabby. Uma das entrevistadas, Casey, explica como sente seu corpo de maneira diferente: “Me sinto poderosa. Sou bem grande e, fora daqui, sempre penso: sou gorda. Mas, no moshpit, eu me acho forte… Faço parte de um conjunto, sou capaz de lidar comigo mesma… Então, sim, eu fico feliz em fazer parte disso.”

Trechos de depoimentos das meninas nos shows foram apresentados pela pesquisadora, em junho, num artigo para a conferência ‘Heavy metal moderno: mercado, práticas e culturas’, em Helsinque, Finlândia. O evento ocorre anualmente e reúne centenas de estudiosos. “Para muitos outsiders, que não estão familiarizados com o estilo musical e sua cultura, o moshpit é tido como violento, descontrolado, masculino e perigoso. Mas, para os fãs, é considerado seguro e divertido. É um espaço que evoca um forte senso de pertencimento, onde as pessoas pode se expressar e se conectar com a banda e com outros fãs”, explica Gabby.

Ou seja, a turma entra na roda para sentir-se envolvida na experiência crua e visceral que é uma performance de heavy metal. “É quase como fazer parte da música, sabe… Tudo vai para cima e para baixo com a batida e você vai batendo em tudo… é uma energia conjunta, enorme…”, descreve Carole, que Gabby conhece justamente num encontrão na noite em que se atira no moshpit. Após o choque, elas colocam braços nos ombros uma da outra e balançam as cabeças em uníssono. “Como é estar no pit?”, pergunta Gabby. Carole pensa rápido e sorri: “Você fica completamente imprudente, mas não de forma perigosa… fica despreocupada… tudo está bem, mas com uma batida brutal dentro do peito.” Carole, então, empurra Gabby com delicadeza e some entre as sombras ao redor.

Segundo a socióloga Deena Weinstein, professora da DePaul University, em Chicago (EUA), o que é “realmente novo” no que se refere ao público de rock pesado no mundo, hoje, é o grande número de mulheres, principalmente com idades entre 18 e 30 anos. “O metal, definitivamente, não é mais um ‘Clube do Bolinha’. Há aquelas que vão aos shows levadas por namorados, mas a maioria vai em grupos, que muitas vezes são só de mulheres”, afirma Deena, que também fez uma palestra na última conferência na Finlândia. “Algumas bandas já estimulam até moshpits exclusivos para as garotas”, acrescenta a autora do cultuado livro ‘Heavy Metal: a música e sua cultura’, que há mais de 30 anos escreve sobre rock nos Estados Unidos.

Muitas das ‘moshers’ têm dificuldade de explicar as sensações para Gabby. “Eu não sei… É muita energia… Difícil falar… É adrenalina, não é medo. Não estou assustada, nem brava, nem agressiva… Estou muito feliz!”, diz Hailey. Para Sabrina, ir para o moshpit é como ser despertada e alimentada: “A música agita alguma coisa dentro de você, e é impossível ficar somente parada, ouvindo. Você tem que fazer alguma coisa. É como um alimento que entra no seu corpo.”

De repente, um grupo sobe ao palco, enlouquecido. Lá está Roxy, que canta e dança, enquanto o olhar faz uma varredura na plateia, à procura de um ponto seguro para o ‘stage diving’ (literalmente, mergulhar do palco para a plateia). Sem aviso, ela se joga. Várias mãos rapidamente seguram-na pelo estômago, e ela vai surfando de peito sobre a multidão.

Depois, seu corpo vai rolando, até que é colocada no chão pela galera. Gabby pergunta a Roxy por que ela faz ‘stage diving’ — bem mais radical que o moshing. “Quando você mergulha do palco, não sabe se vai ser pega e não sabe onde vai parar depois. A sensação de risco é boa. E com a música rolando ao mesmo tempo, é um dos melhores momentos da vida.”

Os depoimentos levam a crer que o sentimento geral, ali, é o de uma forte camaradagem coletiva. E o salão é transformado num espaço de intimidade, inclusão e prazer. “É boa a sensação de ser parte de algo, de ser aceita, de não ter que dar justificativas sobre os meus gostos. Em outros lugares, eu sempre tenho que explicar minha relação com o heavy metal. Essa sensação de estar junto com outras pessoas, de me sentir segura e de poder ser quem eu sou é sensacional”, constata Carole.

O mosh

A prática nasceu no início dos anos 80, na cena punk hardcore dos Estados Unidos. O vocalista da banda Bad Brains sempre gritava para o público: “Mash it up!” (“Batam!”). Segundo Gabby, como o cantor tinha um forte sotaque jamaicano, as pessoas entendiam ‘mash’ como ‘mosh’. Os moshpits se tornaram populares para sempre nos shows de punk e heavy metal. Mas há regras, como a proibição de joias ou outros acessórios pontiagudos. Contato sexual, nem pensar. E ajudar quem cai a se levantar é fundamental.

Ao contrário do que muita gente pensa, o ato de se atirar do palco sobre a plateia não é um mosh, mas sim um ‘stage diving’ (“mergulho do palco”). Se o salto der certo, ou seja, se a pessoa for pega pela galera, pode acontecer um ‘crowd surfing’ (“surfe na multidão”), como rolou com Roxy, uma das entrevistadas de Gabby Riches. Se der errado, a pessoa se espatifa no chão, como ocorreu com Mike Patton, vocalista do Faith no More, na última edição do Rock in Rio. Aquilo doeu…

Fernanda Portugal é mãe do Arthur há oito anos, jornalista há uns 20 e roqueira de nascença. E-mail: fernandabportugal@gmail.com

 

Foto do destaque feita por Brandon Marshall durante show da banda Cavalera Conspiracy no Summit Music Hall, em Denver, Colorado (EUA), em abril deste ano.

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