colu

Prisma

0 Flares 0 Flares ×

Amigas e rivais

É nome de novela mexicana que não está mais no ar, mas todo dia tem um capítulo dela na sua, na minha, nas nossas vidas. Na de qualquer mulher. Tema espinhoso esse da inveja, ainda mais em tempos de ampla difusão do conceito de sororidade — pra quem não sabe, “‘sororidade’ tem origem do latim, ‘sororis’ (‘irmã’) e ‘idad’, e diz respeito a um pacto entre mulheres que são reconhecidas entre si como ‘irmãs’, em uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo”, tirado do texto de Camila Galatte, publicado no WebJornal da Unesp. Neste momento de levante em prol de algo tão maior, como é a afirmação dos princípios femininos numa sociedade patriarcal violenta, representado tão exemplarmente na causa específica do PL 5069, está proibido falar mal de outra mulher. Na frente dos outros. Porque sorrateiramente, fora do palco das redes sociais, algumas mulheres continuam pichando umas às outras à vontade e tentando articular derrubadas de espaços. Na privacidade dos inboxes e whatsapps, é ligada a rádio patrulha no volume máximo. Quem vai falar em nome das outras, quem sabe melhor o que é sofrimento, quem vai estar na linha de frente dessa luta com direito ao maior número de likes viram perguntas mais relevantes que o espírito colaborativo da sororidade, pregado nos palanques iluminados. E falar dessa pedra no nosso sapato, seja ele alto ou não, chamada inveja, que é o que motiva boa parte dessa patrulha, vai “enfraquecer a luta”. “Não denuncia a sua irmã, mesmo que ela esteja fazendo uma grande bobagem, ela quer o mesmo que você.” Mas de que maneira? Ousar fazer essa pergunta pode resultar na temida impopularidade por quem quer protagonizar o levante. Mas, como eu não quero protagonizar movimento algum, como a minha missão pauta-se em observar, pesquisar, tentar entender e relatar, e passa pelo reconhecimento da necessidade do debate, eu não peço licença para questionar. Penso que o que algumas lideranças qualificam como “lavar roupa suja (do movimento) na frente dos outros” só está na ordem do dia porque a roupa está fedendo em muitas intimidades, com mulheres sendo chamadas daquilo que sempre foram chamadas na história da humanidade: putas, exibicionistas ou loucas. Não pelos homens, mas por suas próprias irmãs. A diferença — que faz a diferença, hoje, e aponta que o caminho da desconstrução interna antes da externa já está, mal ou bem, sendo feito — é que há mulheres reprovando essa lógica, nem um pouco interessadas em perpetuá-la ao brecar julgamentos rasos.

A gente sabe que a inveja é um sentimento comum a todos os seres humanos, de qualquer ‘ethos’, mas, na história da civilização ocidental, esse sentimento mesquinho que gira a chave de ignição do sistema capitalista, baseado na competição, foi, convenientemente, sublinhado pelos homens como privilégio do sexo feminino. Mais ou menos assim: homens competem (são gente grande), mulheres têm picuinhas. A picuinha é algo muito menos nobre, menor, é cisma, é implicância. E vem da inveja. Homem não sente inveja: de novo, ele compete. Compete porque tem poder. Balela. Todos e todas nós competimos e em qualquer sistema onde a competição é o mandamento que o sustenta, a inveja será um sentimento norteador. A competição que aplaudimos nos campeonatos esportivos é a mesma que nos desune dentro dos grupos que criamos para defender que a competição não é o caminho mais saudável para as nossas existências individuais e a nossa coexistência no planeta. É como se, neste momento, as mulheres estivessem sendo colocadas à prova. Nós conseguimos desconstruir a competição perversa instaurada no patriarcado começando pelo nosso próprio umbigo? Qual o tipo de feminino que está vindo à tona quando, mesmo sem querer, reproduzimos comportamentos tipicamente masculinos? A inveja é uma cobra dissimulada que pinta e borda quando há conceitos mal digeridos e preconceitos tão introjetados que dissolvê-los entre as quatro paredes das nossas vidas pessoais parece ser a primeira grande luta antes de sairmos às ruas e falar em nome de uma coletividade.

Em 31 de outubro último, Emily V. Gordon, autora de “Super You: Release your inner superhero” (em tradução livre: “Super Você: Libere seu super-herói interior”), escreveu o artigo “Por que mulheres competem entre si” na seção de opinião do New York Times. Ela traça uma trajetória manjada nesse texto, que vai das saborosas aventuras da infância, quando as meninas se sentem o máximo por formar um grupo fechado, uma espécie de irmandade (no seu caso, o “Sensational Six”), passando pelas disparidades que surgem na puberdade e que vão redefinindo as alianças femininas (Emily começa a ser vista de lado dentro do grupo por ter as pernas e a cabeça maiores que as das outras) até chegar ao “exercício da agressão indireta”, fundamental para que uma prevaleça sobre as outras, especialmente quando o jogo da conquista amorosa entra em cena. Mas, segundo ela, existem diferentes estratégias para lidar com o momento de descobrir o que parece ser uma verdade soberana, “mulher não é amiga de mulher”. No caso da escritora, ela preferiu virar um dos garotos. Alargou e rasgou as roupas, calçou botas pesadas, foi conviver com meninos, já que ouvia heavy metal e gostava de filmes de terror. Pra ela, essa era a maneira de enviar a mensagem às outras garotas de que não era uma rival. Camuflou-se de garoto. O texto contém alguns lances emocionantes, como a declaração sobre a angústia de sentir-se permanentemente na defensiva diante de ou junto a outras mulheres e, pra mim, especialmente, a frase “eu me exauri por anos ao tentar entender como outras garotas podiam ter pulado (da categoria) de mais próximas aliadas às mais assustadoras inimigas”. Depois de dar um bonito golpe de misericórdia na inveja feminina ao expressar que, raramente, a mulher está enxergando a outra, de fato, mas, apenas mirando no que lhe parece ser uma versão melhor dela mesma, sua conclusão pode soar genérica — e talvez seja, porque serve para todos os gêneros —, mas é aguda: “nós não precisamos diminuir o estoque de outras mulheres, seja em nome do futuro da espécie, ou pelo bem de nossas próprias psiques. Quando cada uma de nós foca em ser a força dominante dentro do nosso próprio universo, em vez de (focar em) invadir outros universos, todos e todas (no original em inglês, sem gênero) nós ganhamos”.

A sede pelo território da sua irmã e o exercício da autoridade sobre ela, como se só você soubesse o que é melhor que seja dito ou feito, denunciam comportamentos machistas arraigados. Eu já vivi isso na pele com uma ex-melhor amiga mas o que pode acontecer quando esses comportamentos patrulheiros são permitidos ou, pior, aplaudidos no seio de um movimento? Caiu na rede, este mês, um texto bastante necessário, “Também há inveja entre feministas e temos que falar sobre isso”, da ativista Stephanie Ribeiro, na revista online Azmina. Esperei 11 anos por esse texto, já que, assim como Emily V. Gordon, me debati por anos tentando entender por que, em 2004, minha então melhor amiga, a quem chamava de irmã, tinha me arrancado de sua vida na posição de “você só faz merda e eu sei o que é melhor pra você e, enquanto você não for exatamente como eu quero, você não interessa”. Stephanie me explicou tudo ao radiografar algo bem menos badalado que relações amorosas abusivas, as “amizades abusivas”: “Aceitava amizades onde a necessidade de ser minha tutora era, para a dita ‘amiga’ bem maior do que meu bem estar psicológico e físico. O que primeiro identifiquei foi o CONTROLE. Assim que manifestei qualquer independência, me tornei não mais um ente querido, mas alguém que precisava ser controlada e combatida. Depois percebi o contexto de DISPUTA. A suposta PROTEÇÃO acabava camuflando todo um contexto agressivo (…) Fazemos parte de uma sociedade patriarcal e católica, onde é mais fácil ‘tutelar’, ação que carrega uma opressão e consequente hierarquia, do que ser empático e manter respeito pelas grandes peculiaridades das demais.”

A pintora e eu ficamos amigas em 1999. Às vezes, eu sentia que gostava mais dela do que ela de mim. Ela tinha uma aura marginal que me encantava. Assim como eu, ouvia pós-punk e rock psicodélico, mas era muito mais outsider na aparência que eu, uma espécie de arara coloridíssima pós-clubber retrô. Dois meses depois de minha mãe morrer, em 2000, quando eu tinha 21 anos, nós já éramos companheiras quase inseparáveis e, um dia, a pintora surtou. Lembro de ela me dizer: “Você não sabe nada da vida, foi criada numa redoma de vidro entre móveis renascentistas e precisa me escutar. Você está tendo uma atitude perdulária, oferecendo altos almoços para os seus amigos para encapar a falta da sua mãe, você está mais exibicionista que nunca para ter a atenção que você não tem mais de sua mãe, mas a verdade é que você precisa crescer e deixar de ser a Leïlahzinha da mamãe e do papai.” Meu pai também já tinha morrido, mas seis anos antes, quando eu tinha 15 anos. Nada que a pintora pudesse compreender, ela nunca havia perdido alguém. Mas sua opinião e, mais, seu apoio importavam muito pra mim. Aquela que encarnava ideais de liberdade e força que eu tanto admirava, sabendo muito mais sobre a rua, que me era vetada por uma educação superprotetora, precisava aprovar minhas atitudes. Eu devia estar, como sempre, me comportando inadequadamente.

Em 2000, eu era uma garota de 21 anos, poeta e sonhadora no último dos últimos graus. Foi um choque ser implacavelmente julgada pela minha irmã e demorou quase dois anos para que eu, finalmente, me conscientizasse de que aquele impulso de me controlar escondia questões que pertenciam a ela e não, a mim. Um dia, em sua casa, dei de cara com um relato escrito dentro de um livro que ela havia me deixado para ler enquanto ia à rua. Aquele relato me abriu os olhos para a existência de uma competição velada. Quatro anos se passaram e eu estava de malas prontas para São Paulo. A pintora tinha participado de lances muito importantes da minha vida naqueles anos e me dizia que eles tinham ajudado-a a ganhar uma crença. Nosso elo, a despeito de todos aqueles momentos em que eu me sentia censurada ou mesmo agredida por ela, parecia indestrutível, e eu sofria muito por deixar o Rio depois de, novamente, perder alguém, daquela vez, minha avó paterna. O meu voo independente não foi tolerado. A pintora se aproveitou de um mal-entendido entre um amigo e eu para, mais uma vez, apontar meus defeitos e solapar minha autoestima. Um amigo em comum, poucos meses depois, escreveu-lhe um email contando que eu não conseguia me alimentar e estava pesando 44 quilos, sendo hospitalizada com frequência, vítima de uma depressão severa. Pudera, 2004 foi um colapso de tudo que eu tinha vivido até ali, desde 1994, quando meu pai se foi. Eu tinha que me adaptar a um novo lar noutro estado, à vida de casada, tinha perdido minha avó, precisava começar a trabalhar num mercado que eu desconhecia por completo e, pra coroar, meu gato de estimação tinha acabado de morrer de câncer. Esse nosso amigo achava que ela deveria se reaproximar, que isso me ajudaria a me reerguer e pediu que ela ignorasse nossas diferenças de personalidade em nome de nossa “irmandade”. Ela respondeu a ele. Um email antológico em que eu recebi a gentil alcunha de “filhote da aristocracia decadente”. Sem mais “sordid details following”, parafraseando David Bowie. Nunca mais nos falamos.

Voltando ao texto da Stephanie Ribeiro, ela articula que “sucesso ou realização de qualquer tipo parecem ser os piores crimes” em amizades abusivas e conclui alertando que “Precisamos ampliar nossos debates e desconstruções, para que, realmente, a prática de empatia entre mulheres seja real”. Pra mim, é preciso encarar o tema se quisermos um feminismo maduro, oposto a um feminismo de ringue que vejo se formando, feminismo-datena, do tipo sensacionalista, simplista e com sede de sangue, que se volta contra as próprias mulheres. Infelizmente, o feminismo, causa seriíssima e mais que necessária, está sofrendo dos problemas que acometem qualquer assunto em evidência e sendo usado como arma por algumas irmãs equivocadas e suscetíveis a seus próprios recalques, que precisam ser transmutados e ultrapassar o status de bile, se os ideais forem mesmo mais sintonizados com a Era de Aquário, a era da compreensão e aceitação das diferenças, da amálgama de gêneros, raças, nações e ideias. A velocidade espocante dos likes de adolescentes pode fazer com que alguns discursos virem um pastiche nauseante que só expõe a fragilidade do entendimento ou do conhecimento sobre conceitos complexos de sociologia e filosofia.

Deixe a sua irmã falar. Deixe a sua irmã brilhar. A realização é o maior divisor de águas na vida de alguém. Eficiente em mostrar quem é quem. Quem torce e quem distorce. Quem vibra positivo e quem vibra negativo. Movimento algum pode ser usado para que se expurgue demônios pessoais. Falar em nome de si é mais intelectualmente honesto quando falta arcabouço para as ideias. Eu falo por mim. Talvez, assim, eu fale por mais alguém por aí, mas sem pegar carona em causas que são questão de vida ou morte para tantos e tantas. Se eu falei para alguma mulher que já tenha tido sua autoestima pisoteada por outra mulher ou tenha sofrido com amizades abusivas, estou satisfeita. Se eu falei para alguma mulher que está mais afim de refletir sobre as questões que nos afligem do que sair sentenciando sobre elas e impondo suas verdades sobre as outras mulheres, estou mais satisfeita ainda. O feminismo precisa, mais do que nunca, do feminino. Menos competição, mais colaboração e relativização, e menos abusos cometidos em nome dos nossos laços.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

 

Imagem: “Envy” de Lorraine Christie

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×