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Sem química no cabelo e mais feliz

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As razões que levam as mulheres a abandonar seu cabelo natural e aderir à massacrante rotina de secar, esticar ou alisar os fios são muitas. As principais delas talvez sejam a baixa autoestima e a tentativa de se encaixar em um padrão de beleza, mas também há quem busque a praticidade e até mesmo quem tenha abandonado os cachos para atender a um pedido do namorado. Porém, de uns tempos para cá, muitas delas têm feito o caminho inverso, em busca de suas origens. “Eu sentia uma pressão da sociedade inteira com relação ao meu cabelo. Todo o meu ideário de beleza nunca se pareceu comigo, então, a forma que eu encontrei foi ficar cada vez mais parecida com o que me era apresentado como pilar único da beleza, ou seja, alisar o cabelo. Hoje, eu só quero ser eu mesma”, diz a comunicóloga Karina Vieira.

Depois de alisar o cabelo durante 11 anos, Karina começou a perceber que o procedimento era uma forma de se distanciar do que ela verdadeiramente era. “Eu decidi parar quando a minha irmã de alma já não alisava mais o dela e eu pude ver o quanto ela estava mais bonita. Ela participava de um grupo de estudos negros, e isso acabou me estimulando quanto ao reconhecimento dos processos de embranquecimento, me fazia olhar no espelho e perceber que aquele cabelo que ali era refletido não era o meu, era fruto de um processo de distanciamento”, lembra.

Quem também viveu uma situação parecida foi a estudante de Comunicação Marcela Lisboa. Desde criança, o seu sonho era ser branca, loura e de cabelos lisos. “Acho que foi muito pela influência das revistinhas e dos filmes que via. Adorava as gêmeas Olsen (Mary-Kate e Ashley Olsen) e filmes como ‘As patricinhas de Beverly Hills’. O meu nariz também me incomodava bastante. Meu sonho era fazer 16 anos e entrar na fila da Santa Casa pra operar”, revela a carioca. Mas, a partir do momento em que a jovem decidiu mudar o seu olhar, não foi só o processo de transição que ela teve que enfrentar. “Assim que cortei o cabelo e o deixei natural, o racismo começou a se expressar de modo muito mais intenso. O primeiro comentário de uma amiga de trabalho — na época, uma multinacional — foi que eu estava parecendo uma ‘neguinha de morro’. Acho que a galera, mesmo que indiretamente, alisa os cabelos no intuito de tornar-se ‘aceitável’.”

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Marcela Lisboa sentiu o racismo mais intensamente ao parar de alisar o cabelo

Para Marcela, principalmente, para as crianças, a representatividade tem um peso muito grande. “Cresci vendo Xuxa, Angélica, Eliana, Jaqueline… Todas iguais. Hoje temos mais atrizes negras naturais, temos mais negros na universidade, nos meios de comunicação. Isso importa muito. E a internet é um dos nossos maiores instrumentos, com a quantidade de grupos de feminismo negro, sobre cuidados com os cabelos e de muitas outras coisas”, analisa.

E quando a vontade de mudar vem por conta do pedido de um namorado? Foi o caso da passista da Vila Isabel Mariana Meira. “O meu namorado dizia que cabelo cacheado era ruim para fazer carinho e que eu ficaria muito mais bonita de cabelo liso. Eu alisei, mas me arrependi no momento em que os fios começaram a quebrar, por conta da química. Fiquei dois anos com ele liso e, quando decidi assumir o natural, foi muito difícil”, conta a moça, que nesse meio tempo, teve que cortar o cabelo e lidar com a raiz totalmente diferente do resto das madeixas. “O pior momento era quando eu tinha que fazer chapinha e o cabelo estava metade liso e a outra metade cacheada. Ele não ficava bom de jeito nenhum. E eu odiava passar chapinha, porque sempre queimava meus dedos.”

Mariana Moura com seus cachos
Mariana Meira com seus cachos

Quem também sofreu no processo de abandonar os fios lisos e enfrentar a transição foi a farmacêutica Thais Carvalho. “É uma fase muito ruim. Eu me sentia feia, péssima. Não tinha vontade nenhuma de sair de casa”, diz a friburguense. Gabriela Cristina, criadora do projeto Trança Terapia, diz que a melhor forma de passar pela transição é adotando as tranças. “Algumas meninas raspam a cabeça, outras cortam assim que o cabelo crespo dá o primeiro sinal. Mas, para aquelas que não são tão radicais, o ideal é trançar. As tranças são ótimas. Além de práticas, elas estimulam o crescimento dos fios. Quem adota esse visual em um ano consegue um ‘blackinho’ de 10 centímetros”, garante.

Melissa Paladino, caracterizadora titular do programa ‘Encontro com Fátima Bernardes’ e uma apaixonada por cabelos crespos, dá as dicas para aquelas que já estão com seus blacks assumidíssimos e querem saber qual é a melhor forma de cuidar da cabeleira. “Geralmente, o cabelo crespo é bem fino, apesar do volume, por isso, ele necessita de hidratação e cuidados especiais, com produtos específicos que não danifiquem, deixem o cabelo oleoso nem sobrecarregado demais. Um erro fatal é usar leave-in em excesso. Danifica tanto o couro cabeludo como os fios”, alerta a profissional, que ainda acrescenta: “A hidratação pode ser feita até duas vezes na semana, no salão ou em casa. E sempre prefira os produtos à base de aloe vera e pantenol.”

Carmen Lúcia da Silva é friburguense e acaba de passar pelo processo de deixar de alisar o cabelo. Trabalha com aquilo que ama, o jornalismo. Adora ouvir e contar uma boa história. Gosta de pensar que o trabalho dela pode mudar a vida de uma pessoa. E-mail: jornalistacarmenlucia@gmail.com

 

Na imagem em destaque: a comunicóloga Karina Vieira. Foto de Thales Lima

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