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Sentimento do Mundo

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Não há coincidências

Trabalhei por dez anos em um jornal e recentemente comecei a fazer o que fui adiando durante todo esse tempo: salvar os arquivos de todas as reportagens que fiz lá. Com a ajuda de uma dessas boas almas que a gente tem a sorte de encontrar de vez em quando na vida, comecei a guardar as matérias. Uma verdadeira viagem no tempo, com direito a boas surpresas ao me deparar com entrevistas que sequer lembrava de ter feito. Tem sido importante observar meu caminho em busca de um estilo próprio e, alguns textos bobos à parte (ossos do ofício, infelizmente), a sensação em geral é de orgulho.

No entanto, ontem, uma dessas matérias me fez parar o trabalho automático. “Protesto no enterro do menino baleado”, dizia o título. Setembro de 2006. Nove anos se passaram, mas me lembro desse dia como fosse ontem. Eu, repórter de cultura, invariavelmente ficava arrasada nos plantões de fim de semana na editoria Rio, a realidade esfregada na cara. Daquela vez não foi diferente. O menino Lohan Soares dos Santos, de 10 anos, tinha morrido ao ser atingido por um tiro no Morro do Borel, numa troca de tiros entre polícia e traficantes. No enterro, família e amigos traziam faixas e cartazes pedindo justiça e acusando a imprensa de só ir a favelas para contar os corpos. Lembro de como me senti mal com a hostilidade contra a minha profissão. Não temos culpa, pensei. Só estamos aqui fazendo nosso trabalho.

Pensei em dizer que, por coincidência, esbarrei nessa reportagem no momento em que vivemos o horror da execução de cinco jovens em Costa Barros. Mas não há coincidências. Lohan estudava na mesma escola onde eu estudei por um tempo, a Laudímia Trotta, na Tijuca. Mas era negro, era pobre, era favelado. Depois dele, vieram muitos outros com histórias parecidas — tantos que já perdemos a conta, já nos esquecemos dos nomes.

Wesley, Wilton, Roberto, Carlos e Cleiton, os garotos de Costa Barros, foram alvejados 111 vezes por policiais. Cento e onze, mesmo número de mortos no massacre do Carandiru, outro horror de nosso país. Um sangrento e cabalístico número. O universo parece estar nos sacudindo para que acordemos e consigamos dar um basta nesse genocídio.

Precisei de nove anos para mudar opinião sobre a relação entre a imprensa e o assassinato de meninos e jovens negros — ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres. E hoje entendo que, quando chama de “desordem” o mergulho de meninos negros em uma área revitalizada da cidade, quando acha que lugar de preto é só nas páginas policiais, quando acha que alguém é suspeito só por causa da cor da pele ou do lugar onde vive, ela é, sim, cúmplice dessas mortes. E somos, todos nós, cidadãos brasileiros, também responsáveis por essa tragédia quando deixamos de nos horrorizar com os crimes que ocorrem longe da nossa vizinhança.

Que os próximos nove anos possam nos redimir.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: Shutterstock.com

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