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Três vezes Murilo Salles

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Enquanto um cineasta refilma uma cena, um DJ tenta fazer uma música se tornar sucesso e um publicitário chega em Brasília tentado pelo valor do salário oferecido, mas munido de ideais. O que esses três personagens têm em comum? Além de nos serem apresentados sob a ótica do diretor Murilo Salles, em três diferentes histórias, lançadas ao mesmo tempo nos cinemas, todos buscam afirmação profissional e social. Mas as dificuldades do dia a dia e a realidade do país em que vivem acabam fazendo com que eles entrem em crise com o que os rodeia. A partir daí, cada um vai encarar a situação a seu modo.

Em cartaz a partir de hoje, os documentários ‘Passarinho lá de Nova Iorque’ e ‘Aprendi a jogar com você’ (vencedor do prêmio de Melhor montagem no Festival de Paulínia) retratam a rotina do DJ Duda e do cineasta Cícero Filho, respectivamente. Para Duda manter sua vida artística em Samambaia (DF), ele precisa se virar entre vários expedientes. A saga de Cícero é para refazer o seu longa ‘Flor de Maio’, em Porção de Pedras, no interior do Maranhão. Já a ficção ‘O fim e os meios’, à primeira vista, apresenta a jornalista Cris (Cintia Rosa) e o publicitário Paulo (Pedro Brício), casal que acaba se envolvendo em um em um jogo de interesses políticos com o assessor de um senador (Marco Ricca).

O documentário 'Passarinho lá de Nova Iorque'
O documentário ‘Passarinho lá de Nova Iorque’

Em tempos de alvoroço no Congresso Nacional, Murilo Salles garante que o terceiro filme elucida que todos nós estamos sujeitos a cometer pequenos delitos e a nos perder dos próprios ideais. Mas, com a trama, ele também abre uma discussão a respeito da vida política do Brasil, a partir da esfera humana de cada um de seus personagens.

VERTIGEM: Por que lançar os três filmes ao mesmo tempo? Como eles dialogam?

Murilo Salles: ‘Passarinho lá de Nova Iorque’ e ‘Aprendi a jogar com você’ são filhos de um mesmo projeto meu, o ‘És tu, Brasil’. É uma vontade de olhar o país pela singularidade de cada um. Porque acho que, se eu focar no indivíduo, eu olho melhor o Brasil. Sei que é uma loucura lançar os três neste momento, em pleno dezembro, quando saem os filmes dos grandes estúdios. Estou até com uma brincadeira, digo que vou ter que me virar contra o ‘Jedi Voraz’. Mas resolvi encarar essa questão agora, pois são filmes que falam muito entre si. Uma parte da crítica me cobra como se eu tivesse feito um tratado sobre a corrupção no Brasil em ‘O fim e os meios’. Só que não é nada disso. A corrupção é uma das coisas abordadas no filme, mas como pano de fundo para eu olhar um casal que veio do Rio de Janeiro e que acaba se perdendo dentro do olho do furacão em que se mete em Brasília. Esse filme mostra como somos engolidos pelo dragão através das pequenas coisas, dos pequenos atos.

Cena de 'Aprendi a jogar com você'
Cena de ‘Aprendi a jogar com você’

O que o estimulou a escrever ‘O Fim e os Meios’, única ficção entre o trio a ser lançada?

Foi um incômodo que tenho com tudo isso (a corrupção no nosso dia a dia). Um incômodo comigo, me olhando no espelho.

Mesmo mostrando que qualquer um está sujeito a se corromper, não há como não assistir a ‘O fim e os meios’ sem ligá-lo aos escândalos políticos mais recentes do país…

O filme tem totalmente a ver com esses escândalos. Ele quer dar conta de como se dá essa endemia da corrupção. É um absurdo essa pequenez. Quero entender como se dá a pequenez humana no Brasil. Pois não venham me dizer que o André Esteves (banqueiro preso recentemente, junto ao senador Delcídio do Amaral) precisava de mais uns milhões na conta dele. É tesão, é arrogância, é uma síndrome brasileira grave de quem está no poder político, que chamo de ‘Crise Luís XIV’: “O Estado sou eu.” É o cara que se acha impune, acima de tudo. Mas a pessoa que vai ao cinema achando que estou falando do Cunha, dessa questão maior, vai ver uma historinha simples. Falo sobre as pessoas simples. Tanto que a trama é toda em volta de um casal e não passa disso.

Se todos somos passíveis de cometer esses delitos, como você mostra a partir do casal de ‘O fim e os Meios’, qual seria a saída para mudar isso?

A corrupção é o nosso abismo. A saída está no que cada um pode fazer no seu dia a dia. Não concordo que a corrupção está no sangue do brasileiro. Mas é uma endemia, sim, e muito forte na nossa cultura e rotina. É fácil falar do Cunha. O problema sou eu. Por que tudo termina em pizza por aqui? Porque a gente dá um jeitinho, faz um gato, não paga a água… Tem um bar e dá uma grana para a fiscalização sanitária não multar aquele estoque fora da validade… Isso é o Brasil.

Acha que as pessoas têm preguiça de tomar atitudes, de mudar o jogo?

Olhamos isso tudo e não fazemos nada. Acho que não tomamos essas atitudes porque nos acomodamos. O capitalismo brasileiro é um capitalismo de encosto. É uma das maiores economias do mundo e tem tanta gente pobre, miserável. É… difícil, né? Tudo isso é difícil demais. O Brasil é um absurdo que foge ao meu racional.

Karina Maia é jornalista, crítica de cinema, apaixonada por cultura e quase tudo que se move. E-mail: karinasmaia@gmail.com

 

Imagem em destaque: Marco Ricca em ‘O fim e os meios’

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