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Notas Perfumadas

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Cento e onze aromas de vísceras

Eu tinha uns oito anos quando senti cheiro de putrefação pela primeira vez, o odor vinha de um cadáver  na esquina da minha rua. Eu lembro como se fosse hoje: era um homem de mais ou menos 20 anos,  negro, magro, com a roupa suja de quem trabalhou um dia inteiro de servente na obra.

O corpo do moço ficou ali por três dias, ninguém veio retirar: era periferia, e, não lembro os motivos, mas lá ele ficou até que os próprios moradores resolveram retirar e enterrar. O motivo: o cheiro!

Naquela época, meu nariz já se mostrava diferente: enquanto todos reclamavam do “fedor terrível”, eu sentia cheiro de algo que beirava uma verdade e que, na época, eu não sabia explicar, mas hoje sei: era cheiro visceral!

Mamãe não entendia, nem ninguém, por que os aromas de absolutamente tudo ficaram muito mais fortes e suscetíveis nos dias que se procederam. Mas eu sabia! Eu entendia: foi o cheiro do moço morto na rua que fez os aromas dos perfumes, dos desinfetantes, dos sabonetes e xampus e, onde mais o rastro dos aromas dele passasse, se fixarem por muito mais tempo.

O cheiro visceral sempre me fascinou, não no sentido poético, mas no sentido da profundidade dos processos, das dores, dos lamentos e dos choros. Cheiro visceral incomoda porque é profundo, e ser profundo dá trabalho! No entanto, sem profundidade, nenhum cheiro se sustenta!

Sem nota baixa não há sustentação de um perfume. Cheiro de sexo, de víscera, fezes, pedaços densos de madeiras, musgos: tudo que é profundo é nota baixa. Isso serve de metáfora para a vida: se você não deixa suas notas baixas virem à tona, suas raivas, ódios, dores, tristezas, se você não consegue entrar em contato com a dor do mundo, com a dor do próximo, o perfume da sua alma não tem sustentação, é castelo de areia!

Você pode meditar por muitos e muitos anos, cantar mantras por horas, mas, se a dor do outro não te incomoda, se um grito do reprimido não te alcança, se você não faz contato com o seu redor, seu cheiro de flor é tão insustentável quanto a sua superficialidade.

Hoje, eu faço um lindo trabalho com perfumes naturais e leciono cursos sobre os arquétipos das deusas. Por isso, muitos cobram de mim uma postura de flor o tempo inteiro. Alias, até meu nome é Margarida. Mas, acreditem, eu conheço bem sobre perfumes e, para sustentar notas florais, é preciso víscera, é preciso contato, é preciso uma boa madeira para sustentar uma bela flor.  Para ser Afrodite, é preciso uma Baba Yaga antropofágica.

Essa semana, eu senti 111 cheiros viscerais. Cento e onze foi o número de mortos no Carandiru, 111 tiros terroristas contra cinco jovens negros. Nosso país está cheirando a víscera. Querendo ou não, esse cheiro vai se entranhar em todos nós. É melhor falar sobre isso, sentir esse aroma e pensar, dentro de uma consciência que só as notas baixas são capazes de trazer à tona, como diminuiremos, juntos, a dor do próximo, que também é sempre nossa, pois, no final, olfato não é igual a visão: não adianta fingir que não viu. Você vai sentir!

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail:margaridalquimia@gmail.com

 

Imagem: ‘Detalhe 1’, de Laurent Jiménez-Balaguer

 

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