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Prisma

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A justa medida

“Eu não vou crescer nunca, mamãe, nunca!”, me disse minha filha depois de uma longa bronca à mesa, na semana passada. Fiquei irritada com sua afirmação contundente, dada de punho fechado, com direito a um discreto soquinho de arremate. Acho que fiquei irritada comigo, que nunca cresci tudo que podia. Podia? Quando eu tinha uns 11 anos, parei de crescer. Estacionei em um metro e quarenta e alguma coisa, e meus pais ficaram desesperados e foram procurar um então ultramoderno tratamento à base de hormônios para impulsionar meu desenvolvimento. Meu pai era quem ficava mais transtornado, recorrendo à piada de que, para seu desgosto, ia acabar me vendo tocar cavaquinho em vez de uma pujante guitarra elétrica. Meu pai era louco por rock progressivo, músicas longas, introduções intermináveis e também apreciava mulheres altas. Minha mãe, mais que ironicamente, veio a ser vítima fatal de complicações em decorrência da acromegalia, uma síndrome causada pelo aumento da secreção do hormônio de crescimento. Em português mais rasteiro, mamãe sofria de gigantismo e foi lentamente se transformando, os pés, as mãos e a cabeça não paravam de crescer. Quando fui submetida aos primeiros testes de sangue, verdadeiras maratonas de horas de duração, exaustivas para um adulto, que dirá para uma pré-adolescente que ainda brincava de Barbie, comecei a me perguntar por que tanto sofrimento, se meus pais achavam que eu desapareceria na multidão, o que, pra mim, seria impossível, tendo eu sonhos e capacidades tão grandes. O verso de Jon Bon Jovi em sua canção miraculosa me consolava: “Eu tenho grandes planos, tão grandes que qualquer homem cego pode ver”. Depois de um dramático desmaio que roubou minha consciência por quase cinco minutos, durante um daqueles olímpicos hemogramas com curva glicêmica, meu pai decidiu abortar a missão “tornar Leïlah uma mulher grande”. Aos poucos, meu desenvolvimento ósseo foi retomando o ritmo e eu cheguei a heróicos 1,59 e meio. Eu sempre declarei ter 1,60m mas é mentira. Cinquenta e nove e meio. A esta altura, não convém mais negar o quase místico meio ponto.

Hoje é dia de receber os relatórios de desenvolvimento do ano letivo, na reunião de pais e mestres, na escola da minha filha de quatro anos. “E meio”, ela sempre faz questão de acrescentar. O que será que ela entende por ‘meio’? Ela julga ser algo muito importante. Sempre digo a ela: “Deixa isso pra lá.” Então, lembro do meio ponto na escola. Mais 0,5 e eu poderia estar salva em Matemática, mas sempre era preciso ficar em recuperação. Até que um dia, muito cansada daquela vida de faltar meio ponto, resolvi arregaçar e virar aluna média 3,5. Lembro também que quase sempre falta meio ponto pra eu conquistar qualquer coisa que seja. Meio ponto de diplomacia, meio ponto de intuição, meio ponto de dedicação, meio ponto de esperteza, meio ponto de disciplina. Lembro também que em meio ano acontece o que às vezes não acontece durante um ano inteiro. Talvez, o meio ponto importe e seja melhor encará-lo, assim, inteira. Mas é claro que ninguém está falando exatamente de altura aqui, essa coisa que dá vertigem em alguns mais sensíveis. “Por que eu tenho que crescer? Ser bebê é muito bom, mamãe, bebê é muito fofinho, fica no colo”, perguntou a minha filha diante de minha incredulidade frente à sua recusa em galgar os degraus rumo à maturidade dos oito anos, que abrange impressionantes decisões e responsabilidades, dentre elas, o uso da caneta esferográfica. Com oito anos, você já não corre tanto assim o risco de errar, entende-se. Com oito anos, você já pode passar um tempinho sozinho, até! Crescer é poder ficar sozinho e é da solidão que alguns insistem em fugir a vida toda. Então, juntei um punhado de argumentos sonâmbulos e joguei-os no colo de minha filha, que abraçava seu bebê de brinquedo: “Crescer é muito bom, sim! Você só vai poder ser quem você quer ser quando crescer.” Será?

Imediatamente, eu me peguei em dúvida. O que significa crescer, e que meio ponto é esse que sempre teremos de atingir para chegar ao tamanho ideal? Por que não dá pra ser o que você quer ser enquanto pequeno? E se nunca der pra crescer tudo que o pediatra, os pais, a escola e as revistas dizem ser possível? Há um limite de consciência a NÃO ser ultrapassado. Um ponto do qual não se passa, uma capacidade de ser ‘al dente’. Quem muito expande se perde. Mesmo no mais longo texto, é preciso ter um ponto, um pequeno ponto que seja mais visível que tudo que se usa para que aquele ponto seja (bem) dito. Eu diria melhor e maior: é preciso ter meio ponto. Quando escrevi minha monografia de fim de curso de Comunicação, eu queria falar tudo que havia sobre o videoclipe. Não me bastava ter um ponto a expor sobre os vídeos musicais, era preciso ir até os primórdios do cinema de George Méliès pra explicar tudo que eu sabia acerca de algo que foi formatado nos anos 1980 do século 20. Eram quase cem anos pra contar numa monografia que não podia ter o tamanho de uma tese. Meu orientador me disse: “Você precisa ter um ponto de partida, um conceito para construir essa história em torno dele, você não pode contar tudo, não há espaço.” Acatei sua indicação e me pus no caminho de falar sobre o clipe na pós-modernidade e como compêndio de imagens da música popular. É, eu tinha dois pontos. Os professores da banca queriam me dar 9,5, mas meu orientador sabia que eu tinha conquistado aquele meio ponto ao não contar tudo que sabia, e os convenceu a me dar 10. Dos fragmentos de Baudrillard se fez um inteiro, afinal. Muitas vezes, a única saída é apequenar, restringir, encolher, trocar em miúdos. O menor pode ser o essencial. Reconhecê-lo e aceitá-lo é o que faz com que você cresça.

Era o que o poeta norte-americano Ted Hughes pensava. Em 1986, ele escreveu uma carta antológica para seu filho, então com 24 anos, que estava se sentindo “muito imaturo” em “várias situações”. Interpreto que ele devia estar sem fôlego em algum meio ponto da íngreme escalada na vida para a qual alguns parecem nunca ter aparato que dê conta. A última coisa que se espera de um pai ou de uma mãe é que eles relativizem o sagrado crescimento, aquele que parece resguardá-los de sua intrínseca pequenez adulta. Os pais estão sempre apressados para que os filhos tomem suas lições e ocupem seus lugares. Pra isso, é preciso negar o tamanho real e abraçar cegamente as aspirações mais altas. Isso poderia ser chamado de preservação da evolução da espécie, ainda que alguns mais emotivos queiram que suas crias continuem cabendo nos seus colos. Em momentos recreativos. Hughes, aparentemente, não; aparentemente porque não posso avaliar se este conselho é mero truque romântico-epistolar. De qualquer forma, sua argumentação, tão poética quanto pragmática, é arrebatadora e me abriu os olhos para a necessidade de parar de cobrar que minha filha cresça tão rápido, negando a criança-bebê que é ou, mesmo, que atinja algum tamanho impossível para ela. “Todo mundo ainda é uma criança e está dolorosamente consciente disso. Passar de oito anos de idade não é permitido a este primata”, Hughes começa. Após um breve mas veemente elogio sobre o nível de independência que seu filho já havia alcançado e sua habilidade para planejar minuciosamente sua vida — o que o próprio Hughes declarava não possuir —, o escritor desfia sua ode ao ser essencial, ao self-criança que tratamos de encobrir debaixo de uma pesada armadura, o que ele chama de “self secundário artificialmente construído”, para que lidemos com nossa perpétua inadequação, incompetência, solidão e dependência. “Isso tudo, é na verdade, o sofrimento da criança dentro dos indivíduos”, Hughes sentencia. Numa passagem, ele lamenta que, geralmente, conheçamos apenas o tal self artificial das pessoas, em vez de suas crianças íntimas. Essa camada do indivíduo toma o controle a partir dos oito anos, segundo o poeta, mas, toda vez que a vida surpreende, a criança despreparada que está soterrada emerge para lidar com a experiência crua, chacoalhando de temor e, ainda assim, esse é o seu momento glorioso, em que se sente vivo e entra-se em contato com os recursos reais, e não, com as “ajudas artificiais, conseguidas do lado de fora”.

Sempre tive uma secreta fascinação pelos sujeitos que permitem que essa criança irrompa selvagem e livre, justamente quando é esperado deles que tenham ainda mais autocontrole. Mas, hoje, o que eu penso ser o maior barato é não reprimir essa criança, o self real. É aceitá-la e acolhê-la, fazendo com que ela não exploda nas situações em que ela não está preparada para atuar. Hughes descreve: “Geralmente, aquela criança é um pequenino ser desgraçadamente isolado e subdesenvolvido. Tem sido protegida por uma armadura eficiente, nunca participou da vida, nunca foi exposta à vida e a administrar as relações daquela pessoa, nunca foi dada a ela a responsabilidade perante a parte mais difícil. E aquela pequena criatura está lá, atrás da armadura, observando pelas frestas. E, dentro de seu próprio self, ainda está desprotegida, incapaz, inexperiente. Toda pessoa é vulnerável à derrota inesperada nesse self mais secreto. A todo momento, atrás do mais aparentemente eficiente adulto, todo o mundo da infância daquela pessoa está sendo cuidadosamente carregado como um copo d’água prestes a transbordar. E, na verdade, aquela criança é a única coisa real dentro dela. É a sua humanidade, sua real individualidade, aquela que não pode entender por que nasceu e que sabe que terá de morrer, não importa se num lugar cheio ou se completamente na sua.” Por que só o sofrimento pode trazer essa criança essencial à superfície? “Quando aquela criança é enterrada debaixo das cascas adaptativas e protetivas, o indivíduo se transforma num zumbi, num monstro. Então, quando você saca que se passaram algumas semanas e você não sentiu aquele terrível esforço do seu self imaturo, lutando para evadir sua inadequação e incompetência, você saberá que passou algumas semanas sem encontrar um desafio, e sem ter crescido, e que você passou algumas semanas perdendo contato com você mesmo.”

Crescer, em certa medida, é permanecer pequeno ou consciente de sua vulnerabilidade. Sentir-se sempre adequado e grande o suficiente para lidar com a vida, portanto, é não crescer, é não entrar em contato com o indivíduo real, aquele que sempre tem mais meio ponto a alcançar. O sofrimento por sentir-se insuficiente é o que nos humaniza. A megalomania é uma deformação, uma monstruosidade. Como o gigantismo, a doença que matou minha mãe, e que tem entre seus efeitos a deformação do indivíduo. Justo mamãe, que gostava de cantar “Bola de meia, bola de gude” quando a situação apertava: “Há um menino, há um moleque morando dentro do meu coração, toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”.

Na sexta-feira, 4 de dezembro de 2015, o vocalista Scott Weiland saiu da cena deste mundo, silenciosamente, enquanto dormia. A notícia de sua morte me levou de volta a 1996 e meu último aniversário antes da maioridade, quando meu então namorado me deu de presente o álbum que sua banda, o Stone Temple Pilots, tinha lançado fazia quase exatos dois meses. “Big Bang Baby”, o primeiro single do disco, uma canção com aroma do mais fino glam rock de Marc Bolan (T-Rex), fazia parte da trilha sonora do início da nossa relação. Mas a garota-da-grande-expansão, capaz de dar origem a todo um universo, era habitante de um disco que se chama ‘Tiny music… Songs from the Vatican gift shop’ (“Música pequenina… Canções da loja de presentes do Vaticano”). Nesse álbum, o STP deixava sua vocação para hinos de arenas rock e voltava-se para melodias mais sutis, de bolso, bugigangas de 1,99, músicas 0,5 em sua potência total. Scott Weiland nunca foi grande quando vivo. Pelo contrário, chegou a ser esmagado pela crítica. Para os homens resenhistas que vivem de marcar discos com estrelinhas apagadas ou brilhantes, Scott era um filhote menor do grunge, sem a grandiloquência autodestrutiva caricatural de Kurt Cobain, perfeito para o papel de protagonista incompreendido e que é sacrificado no fim da história que mal começou, e sem o messianismo sóbrio e engajado de Eddie Vedder, o sorumbático útil, que, no auge da história, briga com os donos da bola, proclama independência e segue vendendo suas ideias a milhões no conforto da estabilidade criativa. Para mim, que nunca entendi a sonoridade suja e rascante e o discurso distópico de uma fatia das bandas dos anos 1990, que dominou as rádios e a faixa mainstream da MTV, como sendo um movimento chamado grunge, essas piruetas conceituais da crítica nunca importaram. Scott Weiland, para aquela garota big bang que queria realizar coisas grandes, era O cara. Sempre gostei mais dos que não ficam debaixo dos holofotes, protagonizando cenas inventadas por jornalistas. Agora, é engraçado e triste ao mesmo tempo ver a nata da crítica de rock, incluindo o mago David Fricke da Rolling Stone, festejando a excelência do compositor, performer, vocalista e letrista Weiland, um dos maiores poetas beat que o rock teve nos seus últimos 20 anos. E não só críticos. Os músicos contemporâneos seus também fazem elegias. Até Billy Corgan do Smashing Pumpkins chamou Weiland de uma das “três grandes vozes da sua geração”, ao lado de Cobain e Layne Staley do Alice in Chains. E, diante disso, eu penso que eles devem deixar o pequeno Weiland em paz, do tamanho que teve em vida, quando era um coadjuvante de luxo no panteão dos roqueiros atormentados. Não quero que a morte agigante Weiland artificialmente. Não sovem Weiland de homenagens, tornando-o maior do que foi. Ele, que tanto perseguiu ser como o larger-than-life David Bowie, o dono de montanhas, mas tudo que fez foi carregar a pedra de Sísifo pra cima e pra baixo. Há sempre algo por descobrir em quem não chega ao tamanho GG na carreira, na vida, há sempre mais um minúsculo detalhe que dá sentido ao escopo maior. Cheguei a reivindicar que reconhecessem a grandeza de Scott, por aí. Bobagem. A maior das ambições é atingir seu próprio tamanho e conformar-se com ele. Ainda assim, “o homem é do tamanho do seu sonho”, como disse Fernando Pessoa.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

Imagem: Scott Weiland por Jennifer Pottheiser.

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