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BH Calling: primeira noite

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Crise não é exatamente uma novidade para quem faz jornalismo musical. Primeiro, tivemos que lidar com a que aconteceu na indústria musical, que viu toda sua estrutura mudar de uma hora para outra. Agora, estamos no meio da crise enfrentada pelo próprio jornalismo (ou, pelo menos, do modelo de negócio que sustentava o jornalismo), ainda sem saber o que a internet nos reserva num futuro próximo. Enquanto os grandes veículos seguem com seus passaralhos (as famosas demissões coletivas em redações, que não surgiram com a internet, mas se tornaram mais frequentes depois da popularização dela), há quem tente fazer algo diferente em meio a tantas mudanças.

A Mostra Cantautores, realizada em Belo Horizonte por Luiz Gabriel Lopes, do Graveola e o Lixo Polifônico, e Jennifer Souza aposta em uma ideia que eu achei muito interessante. Em vez de convidar veículos para cobrir o evento, os organizadores chamam jornalistas para fazer a cobertura em seus próprios perfis no Facebook. É o que vou fazer aqui durante esta semana: postar minha impressões sobre os shows a que assistir. Se é o caminho, não se sabe, mas é uma tentativa de fazer diferente do que vem sendo feito até aqui, de explorar a internet e o poder das redes sociais, os jornalistas da área como filtros nesse mar de informações com o qual somos inundados diariamente. Já comecei gostando.

Criada em 2011, a mostra apresenta cantautores interpretando sua obra da forma mais básica possível: apenas o artista e seu instrumento. Assim, despida de arranjos, a canção pode ser apreciada em sua essência. Este ano, são 18 os nomes que vão passar pelo evento. E, pela primeira vez, a organização abriu inscrições para interessados em participar. De 117 artistas, foram selecionados 14. Os shows sempre trazem a abertura de algum artista local, o que é uma ótima oportunidade para conhecer alguns nomes da cena, que é bastante diversa e repleta de talentos que o Brasil ainda precisa descobrir.

O mineiro Gustavito abriu o festival
O mineiro Gustavito abriu o festival

A primeira noite aconteceu na última segunda-feira, no belo Cine Theatro Brasil Vallourec, no Centro, recém-reformado. A casa estava cheia, o que não deixa de ser surpreendente para uma segunda-feira. Os trabalhos foram abertos por Gustavito, mineiro que tem um tanto de baianidade em sua música e dois discos solo na bagagem, ‘Só o amor constrói’ (2012) e ‘Quilombo oriental’ (2015), lançado este ano. Com influência de Gilberto Gil em seu trabalho, apresentou canções como “Xote dos 26” e “A festa da batalha da banda do Zé Caolho”, além da nova “Flor de justiça”, sobre o crime ambiental que atingiu Minas Gerais.

Xangai emocionou o público
Xangai emocionou o público

Nascido na Bahia e criado no Vale do Jequitinhonha, em Minas, Xangai teve o público na mão em uma bela apresentação, em que alternou comentários bem-humorados e causos enquanto intepretava músicas suas e outras famosas em sua voz, como “Dispensar” (de Juraildes da Cruz), “Tirana do Vaqueiro Antenoro” (de Elino Julião e Dilsondoria), “Estampas Eucalol” (de Hélio Contreiras, uma das cantadas em uníssono pela plateia) e “Qué qui tu tem, canário”, e versões de Ataulfo Alves (“Meus tempos de criança”), Pena Branca & Xavantinho (“O ciúme”) e até uma cantiga de roda gravada por Clemilda (“Papagaio Louro do Bico Dourado”). Não por acaso, tinha o público na mão. Um show que nos lembra que, em meio à loucura diária das grandes cidades, não podemos esquecer que há coisas mais importantes nessa vida, como os rios e o canto dos passarinhos.

cesarlacerda

Se a primeira sessão de shows foi solar, a segunda teria um clima bem diferente. A abertura ficou por conta do mineiro César Lacerda, que morou por oito anos no Rio e atualmente está em São Paulo, e tem dois álbuns solo, ‘Porquê da voz’ (2013) e ‘Paralelos & infinitos’, lançado em agosto deste ano. Com referências literárias (o título do disco vem do livro “Amor em segunda mão”, da portuguesa Patricia Reis) e uma interprertação ora contida, ora dramática, as canções de Cesar, que em grande parte falam sobre amor, ganharam um tom ainda mais intenso no show (o que me fez pensar em Adriana Calcanhotto em alguns momentos). Destaque para a voz do artista, que tem personalidade.

Lacerda recebeu Marcelo Jeneci, de quem é amigo, para mostrarem pela primeira vez em público “Canto azul”, parceria dos dois com Dandara e Paulo Monarco. E, na sequência, foi a vez do paulistano se apresentar. A noite seguiu intensa, em tom de dramaticidade contida. Alternando-se na sanfona e no teclado, Jeneci começou mostrando canções menos frequentes de seu repertório, como “Estrela cruel” e “Gravitacional”. O público embarcou na onda e recebeu cada música com entusiasmo, num show construído em boa parte com canções tristes. Mais para o fim, ele interpretou “Amado” (parceria com Vanessa da Mata), “Felicidade”, “Pra sonhar” e “De graça”, fechando o primeiro dia de mostra em clima alegre, com a plateia de pé, dançando. A sequência das músicas pareceu lembrar que, também no amor, nada como um dia após o outro.

Kamille Viola é jornalista, carioca da Tijuca e uma das editoras da Vertigem. A música e a palavra são duas grandes paixões. E-mail: kamilleviola@gmail.com

Imagens: Pablo Bernardo

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