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BH Calling: segunda noite

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Na última terça-feira, fez-se dia e fez-se noite, em sequência, na Mostra Cantautores, na Funarte. Foi o segundo dia da quinta edição do evento, em que cada cantor-compositor se apresenta acompanhado apenas de seu instrumento. Fluminense de Itaperuna radicado em Contagem (MG), Chicó do Céu mostrou na abertura canções ensolaradas, que falam sobre as coisas da vida cotidiana, como o quintal de casa (“Quintal”), a correria da mulher amada (“Pela casa de manhã”) ou o dia a dia de um músico (“De sol a sol”). Leve e bonito. Como diria o poeta, jogou o clima lá no alto.

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Chicó do Céu. Foto: Pablo Bernardo

Do céu ao inferno. A coisa ficou densa com o show de Helio Flanders, vocalista do Vanguart. No repertório, as músicas do primeiro trabalho solo do artista, ‘Uma temporada fora de mim’, lançado em setembro deste ano. Se no disco os arranjos, com bandoneon, contrabaixo acústico, piano e cordas, garantem sofisticação às canções, no palco, despidas de tudo isso, tendo apenas Flanders na voz e no teclado Rhodes, elas ganharam tintas ainda mais dramáticas.

Músicas como “Onde a terra acaba” e “Dentro do tempo que eu sou” soam como espécies de contos vitorianos (o figurino usado pelo cantor segue a mesma linha), sombrios, trágicos, interpretados com um vocal que parece ser um encontro entre o canto de Thom Yorke, Anthony Hegarty (do Antony and The Johnsons) e Cauby Peixoto. As do Vanguart, mais conhecidas do público, também tiveram vez, com Flanders ao violão: a plateia cantou junto em “Demorou pra ser”, “Depressa” e “Se tiver que ser na bala”. Momentos de doçura em meio ao tom amargo da apresentação.

O que me fez pensar que, só por ter se arriscado a fazer um trabalho tão diferente do que faz com sua banda, Flanders já mereceria aplausos. Para um artista querido por um público fiel, quanto vale voltar a sentir insegurança, frio na barriga? Mas a questão vai além: com a influência do Los Hermanos sobre os artistas surgidos depois do grupo, o rock brasileiro foi inudado por músicas felizes, fofas. O movimento de Helio Flanders bem que poderia ser resumido em um verso da canção “De onde você vem?”: “Quando a alegria sufocar, que ironia, eu estarei lá”.

Kamille Viola é jornalista, carioca da Tijuca e uma das editoras da Vertigem. A música e a palavra são duas grandes paixões. E-mail:kamilleviola@gmail.com

 

Imagem destacada: Helio Flanders. Foto: Pablo Bernardo

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