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Sentimento do Mundo

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Anotações de viagem

Desbravar uma nova cidade é uma das minhas atividades preferidas na vida. Gosto dos sotaques, de expressões que não conhecia, de sabores surpreendentes, da cor das luzes quando anoitece, do cheiro da terra molhada pela chuva — que não é o mesmo quando chove na minha cidade. Com que outras ruas se parecem essas ruas que eu percorro agora? Será que um dia, em alguma dimensão, já estive nessa praça que me é tão familiar?

Meu senso de direção é muito ruim, então, quando viajo, é como se eu estivesse presa em um labirinto de ruas, casas, prédios. Ainda que existam os mapas, tem sempre aquele instante, mesmo que muito breve, em que eu me pergunto, à beira do desespero: e agora, para onde vou? Passado o pânico, me ponho a procurar placas ou, quando possível, pedir informações.

Mas, se não tenho nenhum compromisso, muitas vezes aproveito para me perder pelas ruas, admirando a arquitetura, desvendando pequenos segredos, caindo de amores por lugares onde, talvez, eu depois sequer saiba voltar. Há alguns anos, na Bélgica, peguei o ônibus errado e, quando me dei conta, resolvi seguir nele para ver até onde iria. Atravessei a cidade, em um caminho que de outra forma jamais teria feito, e, de repente, já não era mais a mesma cidade: nem mesmo as pessoas pareciam ser as mesmas que eu tinha visto até então.

Procuro ter sempre um caderno de anotações, onde invariavelmente escrevo endereços e dicas de amigos sobre lugares a visitar, recados importantes do horóscopo, trechos de textos que jamais chegarei a terminar, rascunhos de cartas que não serão enviadas, pensamentos perdidos que depois nem mesmo eu própria consigo entender. Fundamental, portanto.

O caderninho também me lembra do que mais gosto quando viajo: é o tempo que me permito para pensar na vida e em todos os sonhos que deixei adormecer nas paredes da minha própria cidade. Hora de despertá-los.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

Imagem: quadro ‘It’s a Mess’, de Marina de Wit
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