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BH Calling: terceira noite

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Uma deusa. Uma louca. Uma feiticeira. E também terra, o fogo, vento e rio em um ritual. Mineira de Almenara, no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, Déa Trancoso foi a atração de abertura do terceiro dia da Mostra Cantautores​, quarta-feira, em Belo Horizonte. No palco da Funarte, a capella, Déa é uma xamã guardiã dos saberes ancestrais, uma poderosa matriarca que evoca o sagrado feminino com suas canções.

Déa Trancoso se apresenta
Déa Trancoso se apresenta

Cada faixa é precedida por um poema lido por ela (pré-gravado, a maior parte das vezes) e o máximo de intervenção instrumental é com uma das duas rabequinhas artesanais que ela tem no palco. A regra da mostra é essa: cada artista só pode se apresentar acompanhado por seu instrumento. O de Déa é sua voz. Sem nenhum coadjuvante, ela preenche o teatro. Ao mesmo tempo forte e delicada, faz o público prender o ar. Arrepio da cabeça aos pés.

Com 25 anos de carreira, tem quatro álbuns, foi gravada por Ná Ozzetti e Mônica Salmaso. É parceira de nomes como Badi Assad e Chico César. No show, Déa disse que tinha atingido o auge de sua pretensão na carreira ao se apresentar na mostra. O Brasil ainda precisa conhecê-la.

Romulo Fróes era atração que viria depois desse vulcão. Curiosamente, a tônica da noite continuava sendo o feminino, já que o artista de São Paulo escolheu apresentar o repértório de seu recém-lançado disco ‘Por elas sem elas’, em que interpreta com voz e violão composições suas registradas anteriormente por cantoras. Perfeito para o formato do evento.

Na voz do “dono”, músicas como “Presente de casamento” (dele e de Thiago França), gravada por Juçara Marçal no disco ‘Encarnado’ (2014); “Flor vermelha” (dele e de Nuno Ramos), registrada por Nina Becker, e “Mulher do fim do mundo” (parceria com Alice Coutinho), que dá título ao recém-lançado e elogiadíssimo álbum de Elza Soares (por sinal, produzido por Romulo), ganharam unidade e delicadeza. Ele também lembrou duas de ‘Barulho feio’ (2014): “Ó” e faixa-título.

Se Déa é uma explosão, Romulo é contido, é para dentro. Mas não menos pungente. O formato do show (e do álbum) só fez confirmar a força dessas canções.

Kamille Viola é jornalista, carioca da Tijuca e uma das editoras da Vertigem. A música e a palavra são duas grandes paixões. E-mail:kamilleviola@gmail.com

 

Imagens: Pablo Bernardo

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