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Uma jornalista boa pra cachorro

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“O que a vida quer da gente é coragem.” A famosa frase do escritor Guimarães Rosa pode ser usada como lema para muita gente que, tomada pelo correr dos dias cada vez mais atarefados e atribulados, decide mudar, aquietar-se. Com a jornalista Ana Alice Vercesi essa transformação começou no início de 2014, quando ela estava com 34 anos e decidiu trocar São Paulo por Ribeirão Preto, optando por deixar o emprego em uma grande agência de comunicação para cuidar de bichos.

“Eu buscava uma mudança de estilo de vida. Também queria ficar mais perto da família, que estava no interior. Inicialmente, a ideia era continuar trabalhando com comunicação. O projeto Cão Vivência seria tocado em paralelo, mas acabou ganhando espaço”, lembra a jornalista.

O imponderável teima em mostrar que a vida não pode ser organizada como um relatório. Ana lembrou dos elogios que recebia quando fazia o favor de cuidar dos bichos dos amigos enquanto eles viajavam, ainda morando na capital paulista. A sua paixão por animais também foi um incentivo para fazer o curso de Condutores Profissionais de Cães Domésticos. E, a partir daí, rapidamente, o interesse pelo assunto só aumentou. O jornalismo foi sendo deixado de lado e os dias da mais nova empreendedora do mundo animal foram tomados por latidos e miados.

“Fui me apaixonando pelo assunto e resolvi investir 100% nisso. Realizei um estudo de mercado, constatei que ninguém na cidade oferecia esse tipo de serviço e os primeiros clientes vieram da indicação de amigos. Porque esse é um negócio que exige que as pessoas confiem plenamente em você. Eu entro na casa delas e cuido dos bichinhos, que são tudo na vida de seus donos”, enfatiza.

Mamãe dos gatos Zumbi e Zelda e da cadela Cacau, Ana considera que sua sensibilidade na maneira de lidar com os animais é o ponto alto de seu trabalho. Mas esse talento nato, fundamental para o sucesso do novo negócio, traz consequentemente um dilema: como expandir a Cão Vivência para poder atender à demanda, que tem crescido?

“Os donos não querem um cachorro obediente e parado em casa. E eu não quero que o cão me obedeça porque estou mandando. Ele me obedece porque acha divertido o que estamos fazendo. Para segurar um animal, eu não uso força. Portanto, antes de trabalhar com um novo bichinho, eu converso com os proprietários, questiono quais são as dificuldades de convivência entre eles. Quero que as pessoas consigam passear com seus próprios cachorros, consigam colocar uma coleira neles, o que muitas vezes não acontece. No curso, aprendemos um treinamento comportamental, eu faço muita pesquisa e continuo me atualizando com outros cursos. Agora, no entanto, vivo um momento de dúvida sobre colocar outra pessoa trabalhando comigo porque seria imprescindível que ela trabalhasse com a mesma filosofia que defendo. É muita responsabilidade”, analisa.

Atualmente, Ana consegue cuidar de 20 cachorros. Até seus horários precisaram ser repensados, porque, no calor de Ribeirão Preto, cidade com clima que não deve nada ao verão carioca e que só não tem praia por um equívoco divino, o ideal é que os bichos saiam para passear no máximo até 10h da manhã ou no fim da tarde. Ela realiza, ainda, um trabalho de socialização deles, e pode passear com até quatro animais juntos.

Já em relação aos gatos, o modo de trabalho é diferente: “Na ausência dos donos, o gato precisa de companhia, tem que interagir com alguém. Aí entra meu trabalho de babá, indo até a casa da pessoa”, explica Ana, lembrando que essa é uma demanda mais sazonal e que cresce muito nesta época de fim de ano, já que muitas pessoas viajam de férias.

Os preços dos serviços variam. Um passeio individual de 40 minutos, por exemplo, custa R$ 25. Muitos clientes fecham pacotes mensais por R$ 600. Já uma visita como babá sai a R$ 35: “No mercado de pet não há crise. No dia 1º de dezembro, a Cão Vivência completou um ano, e essa é uma área que só se expande. Um casal de clientes do Espírito Santo que se mudou para Ribeirão conheceu meus serviços e resolveu abrir um negócio de acessórios para bichos, inclusive”, orgulha-se.

Mas, como em todos os nichos, não há espaço para aventureiros. Ana já viu concorrentes surgirem e desaparecem. Sua experiência em comunicação, sem dúvida, conta muito, já que ela usa o poder da tecnologia e das redes sociais para valorizar sua atividade. É comum, por exemplo, fazer uma foto do bichinho que está visitando e enviá-la por WhatsApp, para manter o cliente informado e tranquilo enquanto viaja. Encontros com apaixonados por bichos também são organizados via redes sociais, aumentam a visibilidade e expandem a clientela.

“O uso da internet é essencial para mim. Já participei de bate-papos esclarecendo dúvidas sobre esse universo. Organizamos caminhadas e feiras também”, resume Ana, que não se esqueceu de entrar em uma corrente do bem com o intuito de salvar animais vítimas da tragédia que assolou Mariana, em Minas Gerais.

Gabriela Germano é uma paulista apaixonada pelo Rio e por gente com boas histórias para contar. E-mail: gabigermano@gmail.com

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