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Prisma

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Por enquanto, as ruínas

Mudaram as estações e tudo mudou, está tudo assim tão diferente. Se lembra quando a gente ia dançar na Bunker, a maior e mais trepidante boate que Copacabana já teve? Se lembra quando a gente ia comprar discos no bloco mais musical de Copacabana, na Barata Ribeiro, ali ao lado da Santa Clara, onde ficavam enfileiradas a Billboard, a Gramophone e a Modern Sound? Se lembra da All The Best, Moto Discos, Snake Pit, Spider (onde você podia alugar centenas de títulos em CD, acredite se quiser, na era pré-MP3, isso era revolucionário), Gabriella, Hi-Fi (no Rio Sul, parecia uma boate, preta e roxa, com muito neon e aramados em seu esplendor new wave 1980) e a melhor loja de discos de bairro de todos os tempos, o verdadeiro portal atemporal na melhor tradição Nick Hornby, a Satisfaction, que resistiu, mais que bravamente, até o ano passado com suas portas roqueiras e blueseiras abertas para mais que um público consumidor, para verdadeiros amigos? Mais recentemente, a Baratos da Ribeiro, principal point de gente que ainda se reúne em torno de música e literatura, quase pirou seus seguidores ao fechar sua loja em Copacabana mas ressurgiu num casarão em Botafogo pouco tempo depois e ufa!, segue na luta pela conservação de livros, discos e baratos cada vez mais incomuns no nosso dia a dia: encontrar alguém que é louco por aquela banda como você, achar aquele disco com óculos 3D dentro que ninguém tem, descobrir um livro com aquele trecho maravilhoso marcado com grifa-texto e uma dedicatória de partir o coração que até parece fazer parte daquela história. Ou seja, lances da arqueologia urbana que nos fazem sentir mais conectados que horas e mais horas de navegação em redes sociais. Esses são os lugares onde se dão os encontros que alimentam nossa memória e que engendram um mapa afetivo ao qual recorremos quando nos sentimos perdidos num hoje esquisito. Disforme. Em ruínas.

Perder lojas, perder livrarias e até editoras, perder vídeo-locadoras, perder bibliotecas, perder galerias, perder quarteirões inteiros, mas e quando perdemos um centro cultural de 12 mil metros quadrados com pouco mais de dois anos de vida, que levou cinco anos para ser posto de pé, como fica? Um fim de semana de fim e começo emparelhados. No sábado, um dilúvio de início de noite me prende na Bhering. Delicioso dilúvio que me fez experimentar a pulsante fantasmagoria de uma fantástica fábrica de chocolates desativada, nosso sonho de Berlin artística e organizada, incrustada justamente no bairro do Santo Cristo (o Rio de Janeiro é como um chocolate derretido), um lugar retomado, ressignificado, como gostamos de dizer os curadores. Eu gostaria de dizer mais como xamã: um lugar REANIMADO. Entre escandalosos raios de uma tonalidade violeta quase orquídea e corredores apagados, batia o coração da apropriação vitoriosa de um prédio que perdeu sua função primordial. Mas é chover no molhado falar da excelência da Bhering e sua ocupação por artistas e comerciantes bem articulados e inteligentes que dão vida a um Rio de Janeiro sombrio de demolições e emoções turvas frente a uma gentrificação sem gentileza. Já não é tão chover no molhado assim, falar de como a arte pode ser sustentada pelos prosaicos rodos empunhados por funcionários que escoavam a água que teimava em invadir o prédio meio esquelético, obviamente carente de infraestrutura. E mesmo assim, a Bhering foi nosso abrigo naquela noitinha de tempestade, com direito às crianças Lydia e Catarina brincando de sentir medo das trovoadas de dezembro, mais ruidosas que as próprias, verdadeiros caprichos da natureza humana funcionando como instalações sonoras nos corredores da fábrica.

Nas horas extras de Bhering, acabo sendo levada por amigos-parceiros a conhecer o Atelier Branco de Patricia Stagi, no quinto andar, longe do aguaceiro. A artista visual, então, me apresenta a um site-specific seu, uma espécie de maquete com uma longa série de minúsculas fotografias em estética polaróide pregadas por alfinetes no isopor, que ela pretende desdobrar num trabalho de fôlego maior, usando o acrílico como suporte. Algumas dessas fotos estão reproduzidas três, quatro, cinco vezes no mesmo alfinete e quando chego perto, vejo que são fragmentos do Rio de Janeiro, exibindo prédios, ruas, igrejas, praças, árvores, casas, dispostas como num mapa à moda digital. Patricia me explica que gosta de retirar a fotografia de seu ambiente usual e posso quase que tocar o tal mapa afetivo que percorremos na nossa memória, materializado naquele trabalho. Começa a tocar “there are places I remember, all my life, though some have changed” dos Beatles na minha cabeça e me vem imediatamente a lembrança dos monóculos com fotos dentro, dos anos 1970, que meu pai guardava, com suas pequeninas janelas para outro tempo. Eu me lembro bem de um verde que trazia a surpresa de meu pai de sunga num Arpoador já bastante modificado, com seu cachorro. Não por acaso, Patricia me conta na sequência que seu primeiro trabalho exposto era composto por um cordão daqueles monóculos, desenhando uma narrativa sobre seus lugares do coração.

A partir das fotografias de Stagi, penso no trabalho de Ana Teresa Bello, fotógrafa estreante no mundo das galerias e já veterana do Instagram, que batizou sua primeira individual muito apropriadamente de “Somos memória”. Ana recheia seu @anatbello com imagens das cidades que frequenta e do Rio onde mora. Os registros, sempre com luzes e sombras surpreendentes, equilibram-se entre a desolação em flagrantes de espaços vazios ou de indivíduos solitários que parecem descolados do espaço por onde circulam, e o êxtase estético de suas formas arquitetônicas ou suas paisagens, ou suas pessoas já ternamente envolvidas com o espaço onde estão fincadas. Ana Teresa explora a relação do indivíduo com a cidade, portanto. E não consigo deixar de pensar no efeito “narrativa de monóculos” século 21 de seu perfil no Instagram. Logo, estou num delírio de postais que não serão postados jamais, imaginando como alguma curadoria resgatará o Instagram de sua trágica instantaneidade, num futuro próximo, quando minha filha, com seus 30 e poucos, desejar mapear o Rio de Janeiro em que viveu nos anos 2010. Um jovem curador estreou um projeto pioneiro no Rio de Janeiro, no início deste conturbado 2015. Sob o nome “Permanências e Destruições”, João Paulo Quintella reuniu uma série de artistas da performance, da arquitetura, do design sonoro sob uma proposta radical de intervenção urbana em pleno verão febril, ocupando ruínas e despojos da cidade maravilha mutante, começando pela polêmica Perimetral derrubada. Com o projeto, Quintella desnudou a cidade, sublinhando suas estruturas dissolvidas, suas explosões e implosões e desativações. “Em Santa Teresa, uma placa indica que o espaço é Patrimônio Cultural Carioca. Pergunto então de que vale um patrimônio cultural que não pode ser acessado pela cultura? (…) Antes de instrumento de manipulação política, os espaços vazios ou em desuso do Rio de Janeiro são capitais urbanos fundamentais na produção de identidade da cidade”, escreve o curador no texto de apresentação do projeto, que ganhou um livro, recentemente.

E enquanto a chuva desabava lá fora, pensava nas cidades submersas ou soterradas e outros territórios civilizados varridos do mapa, alguns que sequer sabemos se existiram ou não. Pensava em Atlântida, em Pompéia, em Sete Cidades, no Rio de Janeiro da minha infância e adolescência, todos desaparecidos, inviáveis ‘spots’ do Google Earth, sem fotos em tempo real, sem um tempo real para chamar de seu. Pensava, também, em “Roma”, de Fellini, de 1972, em que a cidade-título é a protagonista e na sua brilhante sequência do metrô, em que trabalhadores agem, literalmente, nos subterrâneos, para destruir os vestígios do passado em prol dos novos tempos e suas necessidades outras. Rapidamente, no meu videoclipe mental, me veio aquele recorte de notícia recente sobre a visita a uma estação de metrô cerca de 40 metros abaixo da da Carioca, semi-concluída em 1981, que nunca foi inaugurada, e que permanece intacta desde então, com direito às latas de tinta da época enfeitando os corredores de propaganda Suvinil vintage ou coisa que o valha.

Pois, há os casos do que é inaugurado com toda a pompa e circunstância, prometendo ser o arauto de uma nova fase de luxo e deleite, e acaba por afundar como um Titanic. O domingo 14 de dezembro viu a Casa Daros funcionar pela última vez. Um espaço gigantesco que foi devolvido à sociedade recentemente e que transformou os anos de 2013 e 2014 em experiências mais prazerosas, com sua generosíssima área aberta onde minha filha gostava de dar longas voltas com seu patinete a jato e onde festas e mostras de cinema espertas encontraram seu humor ideal sob o céu de Botafogo, um restaurante de sofisticação branda ao alcance da classe média, atividades infantis bem elaboradas, uma loja recheada de gravuras, achados artesanais para as crianças e livros da recém-fechada editora Cosac Naify, esguias palmeiras que davam pouca sombra e o mais importante, um centro cultural voltado para a arte latino-americana contemporânea, cujo grande triunfo em sua curta existência foi promover uma antológica exposição de um dos papas da arte cinética, o argentino Julio Le Parc. Não cabe discutir aqui as razões políticas que levaram ao encerramento das atividades desse espaço, mas a experiência a sangue frio desse encerramento, deixando uma sensação cruel de que a cidade não nos pertence. A efemeridade da duração da Casa Daros em contraste com a pujança de sua proposta e instalações, e com o tempo que demorou para ficar pronta, gerando uma expectativa enorme na sociedade, dói na carne e faz lembrar o naufrágio do portentoso navio francês. É como pensar na brevidade das suas férias mais especiais, com a diferença de que a Daros fazia parte do cotidiano. E tornava-o mais suportável numa cidade que parece estar em ruínas e o pior, sem promessas redentoras de uma reconstrução consistente e inclusiva.

A Daros foi um majestoso centro cultural pop-up como as lojas transitórias, com data pra abrir e fechar, experimentos comerciais-conceito sazonais ligados a alguma especificidade do momento. É como se a Daros tivesse sido o centro cultural pop-up símbolo daquele Rio fifa-olímpico-pré-sal que iria viver uma nova aurora de progresso e prosperar como locomotiva do trem bala do país ascendente. E com tudo isso, eu ainda me pergunto se devemos remoer as infelicidades da crise que nos devora ou se devemos expandir este fluxo de pensamento e questionar se as ocupações dos espaços nas grandes cidades não tendem a ser cada vez mais voláteis, líquidas, conformando-se às nossas próprias (novas) narrativas individuais, cheias de idas e vindas, desistências, terceirizações, mudanças súbitas de rota nas nossas carreiras e nos afetos, dentro de um mundo maior, com mais conexões possíveis e menos limites. Por outro lado, sabemos que a era globalizada atravessa um grande dilema socioeconômico e político, que a direita avança, que a guerra do capital está mais complexa, que o futuro do planeta é turvo por crescentes emissões de carbono e que atrás de toda esta cortina de fumaça, talvez não seja mais tão simples a mobilidade que nos venderam na madrugada do milênio e que parece ser mais uma característica de nossos celulares multifuncionais que um traço do caráter destes tempos.

E como a cidade fica dentro deste cenário? Talvez vá ser cada vez mais fundamental ouvir as demandas da população sobre os espaços e talvez essa população, a exemplo de tantas manifestações-ocupações com motivações políticas e reivindicatórias ao redor do globo, vá exigir uma cidade mais fluida, com menos concreto balizando-a e mais áreas verdes ou mesmo, áreas não-verdes mas de uso comum. Enxergo uma tendência à glorificação da praça, da rua, do bloco, do tamo-junto. Talvez, dentro dessa lógica, os espaços institucionais como conhecemos no século 20 vão ser dissolvidos a partir de uma descentralização do poder. Talvez ser dono de uma birosca vá virar um processo desaburguesado, talvez vamos estar prisioneiros de cidades colapsadas em que mobilidade só dentro das redes sociais, mesmo, e daí, surgem novas perguntas: que formação de identidades e grupos os novos templos a serem erguidos nestas cidades vão permitir?; a destruição dos pontos tradicionais de troca de ideias da intelectualidade e artistas leva com eles as possibilidades de alianças e encontros e parcerias nas cidades? Pensar numa cidade inteiramente tombada é assustador. Ninguém vive dentro de um livro, precisamos da impermanência que é contar a história todo dia, no tempo presente. Pedras que não rolam criam limo, não podemos nos segurar numa pedra original, mas é inegável que ainda trazemos dentro de nós uma concepção de cultura que se pauta na convivência em lojas de discos, livrarias, centros culturais e até, nas vídeo-locadoras. Como ficamos sem os encontros que esses sítios proporcionam?

No mesmo domingo em que balões brancos foram soltos no grande pátio central da Casa Daros sob alguns discretos choramingos, o Fantástico passou reportagem sobre a abertura do Museu do Amanhã, em 19 de dezembro, próximo sábado, e o ciclo do pequeno fim de semana de despedidas ladeadas por resistências como a da Bhering, se completou. Mas não sem antes me deixar com uma fascinante nota de pé de página a ser estudada. Naquela mesma noite, a TV Cultura exibiu o raro documentário de Ugo Giorgetti, “Uma Outra Cidade”, rodado em 2000. A radiografia intensamente reveladora dos poetas da beat generation brazuca, na São Paulo dos anos 1960, os chamados Novíssimos, me tragou e por uma hora, eu me vi habitando aquela cidade industrial mítica de tantos movimentos culturais vitais para o país. A única que poderia tornar possível (e visível) a existência da vanguarda modernista de 22, da MPB experimental geração Lira Paulistana, do punk do começo do fim do mundo, do pós-punk e da no wave oitentistas versão tupinambá, da MTV noventista naïf e independente, do hip hop documental periferia-Carandiru-Capão Redondo, e finalmente, da geração beat-Brasyl de Roberto Piva, Rodrigo de Haro, Claudio Willer, Antônio Fernando de Franceschi e Jorge Mautner. Impossível não pensar que só naquela São Paulo poderiam ter sido produzidos aqueles artefatos culturais. Talvez impossível não imaginar se não foi justamente aquela São Paulo que inventou aquelas pessoas, aqueles fluxos, aqueles encontros que desaguaram nessas brutais expressões historicamente tão decisivas para que possamos nos compreender. Afinal, o que é possível fazer, dizer, movimentar e construir quando não temos uma cidade?

Dedico este texto a alguns dos heróis e heroínas da Bhering: Vivian Caccuri, René Machado, Dani Anet, Felipe, Fernando e Flavia do F. Studio, Angela Brito, Patricia Stagi, Maria Baigur.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

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