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Sentimento do Mundo

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Com açúcar, com afeto

Não sei exatamente por que resolvi aprender a cozinhar. Quer dizer: até desconfio do motivo, mas já faz tanto tempo que não consigo mais dizer com certeza. Lembro que, naquela época, meus pais decidiram seguir uma dieta alimentar muito restritiva, e de repente açúcar, refrigerante, carne vermelha, fritura e até tomate, entre outras coisas, estavam vetados das nossas vidas.

Talvez não seja coincidência que a primeira receita que eu preparei tenha sido um pão-de-ló, receita da minha avó. Talvez também não seja coincidência que eu até hoje seja louca por tomate e por doces. Que tenha passado boa parte da minha carreira escrevendo sobre gastronomia.

Minha mãe é da geração que ganhou o mercado de trabalho e não costumava cozinhar (embora, hoje eu saiba, leve jeito para a coisa). Então quem me ensinava receitas era a mãe dela, minha avó. Sempre que podia, eu passava horas na cozinha espiando dona Conchetta em ação.

A comida da minha avó sempre foi, para mim, a melhor do mundo. Até hoje me lembro das vezes em que dava a sorte de ir para a casa dela depois das escola e almoçar por lá. Mas não só para mim. Meu avô, um filho de italianos que amava comer bem (já mais velho, quase não saía de casa: somente aos domingos, sempre para algum restaurante), sabia que tinha em casa uma grande cozinheira. E toda a família, amigos, conhecidos: até os meus amigos puderam comprovar o talento dela.

Vovó nunca foi uma mulher de grandes demonstrações de afeto. Hoje, com os bisnetos, até se derrete de uma maneira que nunca antes na história deste país. Mas sempre teve paciência para responder as infinitas perguntas daquela garotinha sobre seus receitas e ensinar seus segredos ao fogão. Quando moramos juntas, só nós duas, por seis anos, eu já adulta, me recebia sempre com meus pratos preferidos. Engordei seis quilos nesse tempo, mas isso já é outra história.

Muitos restaurantes depois, com direito a chefs estrelados, continuo não encontrando nada igual à comida dela. E, aos 94 anos, ela continua firme e forte na cozinha. Com a minha avó, aprendi truques culinários que até hoje fazem a diferença, de um pudim sem furinhos a uma omelete que eu desconfio que tenha sido decisiva para eu conquistar meu marido de vez. Mas, mais do que tudo, com a minha avó eu aprendi que existem muitas e menos óbvias maneiras de dizer eu te amo.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

Imagem: ‘A Maid Taking Soup from a Cauldron’, de Pehr Hilleström

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