colu

Notas Perfumadas

0 Flares 0 Flares ×

O mundo no frasco de perfume

Einstein, certa vez, disse que o olfato seria o mais rico dentre todos os sentidos, pois só com ele, de fato, pode-se alcançar o mundo da imaginação.  Quando crio um aroma, minha proposta é entregar a você, dentro de cada frasco, muitas estórias.

Fazer perfume artesanal não é algo normatizado e inserido no mundo consumista, no qual tudo deve ser igual, feito em massa, com cheiros e cores berrantes para te impactar de uma só vez sem dar tempo de pensar nas nuances.

Sou historiadora, e muitos me perguntam por que resolvi trabalhar com aromas. Simples: sou sinesteta, vejo estórias e história quando sinto um cheiro, e sinto cheiro em quase tudo. Eu vejo estória no cheiro antigo dos livros, no aroma do mar, no cheiro do meu avô e no seu café dezenas de vezes repassado e, dessa forma, eu me reconheço!

Não lembro exatamente de onde surgiu meu amor por dissolver, coagular, triturar e juntar raízes, flores, mato. Lembro ter sido na infância, de onde veio não sei! Só sei que, quando estou trabalhando em cada frasco, já não sou apenas eu: sou eu e a criação! Sou eu e a flor, os óleos, a energia em volta, a minha história, a sua. E toda a história do mundo está ali: bem dentro do frasco!

E no interior de cada frasco o mundo é perfeito por ser sublime, etéreo, desmancha-se no ar, levando-me a lugares que só existem no surrealismo em que os cheiros habitam. Como poder pensar em algo ruim ao sentir o perfume de framboesa? Impossível! É um cheiro doce que invade a alma, a imaginação.

Framboesa me lembra pequenas dríades e, às vezes, deixo minha imaginação ver as pequenas tomando banho dentro do vidro de óleo de framboesa, como se estivessem em um pequeno lago, banhando-se e falando sobre assuntos demasiadamente importantes como as variações das cores das flores violetas, o aveludamento das pétalas de rosas e como a terra está com mais cheiro de musgo hoje do que ontem.

Por alguns minutos, esqueço que sou quem as vejo. É nessa hora que elas tomam conta de mim e criam o cheiro que desejam. E, puf!, está feito! Poderia contar como crio perfumes naturais de uma forma mais ortodoxa, mas isso não seria eu. Vou deixar o academicismo para o mundo acadêmico.

Nesse mundo surreal e muito melhor que o normatizado, quem fala por mim são as plantas e toda a maravilhosa energia que mora nelas!

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail:margaridalquimia@gmail.com

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×