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“Parece que a gente já está no lugar mas não pode sentar”

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A cineasta Anna Muylaert, de ‘Que horas ela volta?’ e ‘Durval Discos’, dá entrevista exclusiva à Vertigem, e é a entrevistadora da ‘Mostra Cine-Delas’, que estreia no Canal Brasil, dia 8 de janeiro, sexta-feira. Leïlah Accioly conferiu as entrevistas que Muylaert fez com as diretoras Monique Gardenberg e Renata Pinheiro, em primeira mão, e conta como foi

Dia 1º de dezembro de 2015, o estúdio no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, onde será gravado o programa especial do Canal Brasil — a  ‘Mostra Cine-Delas’ será exibida de 8 de janeiro a março de 2016, com um total de 13 filmes de cineastas mulheres e suas entrevistas — só tem mulher. Toda a equipe, da câmera à diretora, passando por produtoras e iluminadora, é composta por mulheres. E eu estou ali como a jornalista convidada pelo canal, uma voyeur autorizada. Na frente das câmeras, também, só meninas. A cineasta Anna Muylaert, primeira mulher em 30 anos a representar o Brasil no Oscar com o longa ‘Que horas ela volta?’, chega com seus fartos cabelos cacheados e corpo forte como rocha, perguntando: “O que é isso? Só mulher, é isso mesmo? Isso é sempre assim ou vocês fizeram isso aqui pra mim?” Nós todas rimos. Alguém parte nosso riso no ar com um “não é assim, imagina, foi coincidência”. Mas em se tratando da temática do programa e do momento do país, eu diria que foi um lance bem esperto da Sincronicidade.

Muylaert estava ali para ser entrevistada pela apresentadora Simone Zuccolotto (antes da exibição de seu primeiro longa, ‘Durval Discos’, de 2002) e para conduzir um bate-papo com as colegas cineastas Renata Pinheiro (‘Amor, plástico e barulho’) e Monique Gardenberg (‘Ó Paí, Ó’) sobre seus respectivos filmes. Na pauta, também estavam o papel da mulher, hoje, em lugares antes ocupados quase que totalmente por homens. Em mais uma graça da orquestra invisível do tempo-espaço, aquele é exatamente o dia em que se comemora 60 anos que a ativista Rosa Parks recusou-se a ceder o seu lugar num ônibus a um branco, marcando assim, o início da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos. Provavelmente sem atentar para mais esta “coincidência”, Muylaert, horas tantas, dispara a frase que dá título a esta matéria: “Parece que a gente já está no lugar mas não pode sentar.”  No entanto, ali, naquele momento, ver aquelas mulheres realizadoras debatendo livremente, com suas percepções tão particulares e pertinentes do mundo, do feminino e da arte, fazia parecer que temos cada vez mais espaços onde sentar, e melhor, falar, ainda que o processo seja duro e lento.

A seguir, três mulheres, três experiências de vida, três formas de ver o feminino e o feminismo.

“‘Que horas ela volta?’ demorou 20 anos pra ficar pronto”

Anna Muylaert, roteirista, diretora de cinema e TV, que tem no currículo participações na criação dos programas ‘Mundo da Lua’, ‘Castelo Rá-Tim-Bum’ e ‘Um menino muito maluquinho’, abre sua entrevista ao Canal Brasil declarando sentir mais temor, hoje, que em 2002, quando lançou seu primeiro longa, ‘Durval Discos’. “Parece que hoje, os homens sentem que a mulher deveria ter ido até um certo ponto”, analisa. “Em 2002, a mulher estava mais em evidência com a retomada do cinema no Brasil e a Carla Camuratti na linha de frente disso.”

Anna Muylaert descobriu rápido que queria ser uma realizadora. Começou escrevendo contos sobre mulheres. “Quando o sangue sobe à cabeça” é o título de uma das obras que ela destaca: “falava da menina esperando pela primeira menstruação, a mãe esperando pela última e a empregada esperando que o sangue descesse pra confirmar que não estava grávida.” Desses contos, nasceram seus projetos para a película, mais notadamente, ‘Que horas ela volta’, cujo argumento surgiu há 20 anos atrás. “Achei complexo demais, desisti e resolvi fazer ‘Durval Discos’.”

Sempre em busca de derrubar clichês sobre o comportamento feminino, a cineasta evita trabalhar com artistas que tenham feito muitas plásticas, preferindo rostos e corpos naturais, por considerar que uma das formas de machismo mais perversas é a exigência de uma mulher irreal, “de revista”. “O olhar masculino sobre a mulher é idealizado demais. Pegue ‘Despedida em Las Vegas’ como exemplo, uma prostituta que parece uma modelo. Os homens não conseguem retratar uma mulher que não seja perfeita, maravilhosa. Eles humanizam mais os homens.” A diretora ainda cita o Teste de Bechdel, que tem como requisitos para identificar se há preconceito de gênero numa obra cinematográfica, que hajam, pelo menos, duas mulheres na história; que as duas conversem e que o assunto não seja um homem. “Só 30% dos filmes passam!”, ela informa.

Em uma das afirmações mais contundentes de sua entrevista, a diretora, que reconhece um feminino fortemente plasmado pela maternidade e suas questões em seu trabalho, indicou um salto de consciência a partir do momento em que reconheceu que o trabalho da mãe é extremamente desvalorizado, um dos cernes de seu ‘Que horas ela volta?’. “Que sociedade é esta que paga dois salários para alguém cuidar de uma criança? Alguém pode realmente fazer esse trabalho por você, por esse valor? Quando formulei essas perguntas, comecei a entender como a nossa sociedade desvaloriza tudo que é interiorização, criativo, feminino.”

“A arte é a grande saída mesmo. Mais que a política. Imagine se o poder que os veículos têm fosse usado para promover a igualdade de gêneros”

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Anna Muylaert no set do ‘Cine Delas’

Renata Pinheiro é a primeira mulher do Recife a ter lançado um longa de ficção. Seu ‘Amor, plástico e barulho’, filmado no ano passado, chegou a 12 salas brasileiras, no início de 2015, contando a história de duas cantoras de música brega no Nordeste, uma em ascensão e outra em decadência. Vinda das artes visuais, tendo vivido em Londres e trabalhado preferencialmente com instalações, a cineasta ingressou na carreira cinematográfica pelo viés da direção de arte. Sua primeira experiência nessa área foi em ‘Baile Perfumado’. “Meu atelier foi usado para todos os efeitos especiais do filme”, contou ela à Anna Mulayert. “Brinco que o cinema entrou na minha vida e não, eu que entrei no cinema”.

Sobre o mercado cinematográfico, a diretora — que acredita na dimensão sagrada da natureza e que ela pode ajudar a promover a igualdade entre os gêneros, no lugar de religiões ocidentais, que colocam o homem no centro do universo — não teve palavras das mais lisonjeiras. “Um meio muito machista, competitivo, mas eu encarei. Não queria ficar presa na direção de arte, em só construir a visualidade para alguém que já chegava com a sua visão, seu projeto”, disparou. Renata Pinheiro se abriu sobre o que ela definiu como “a solidão do criador” ao partir para sua jornada solo na direção, e também, sobre como passou a ser vista como concorrente e algumas de suas relações esvaziaram. “Eu achava que as pessoas com quem eu tinha trabalhado iriam me apoiar mas a vida não é assim”.

A respeito do filme, ela falou do misto de ficção e da apropriação de uma realidade nordestina intensa. “Falar da vida dessas mulheres junto com a minha, pois somos todas artistas que querem reconhecimento, foi muito forte”, disse a diretora, que classifica seu cinema como “autoral e bastante pop”. Ela, que jogou luz sobre o papel das mulheres no showbiz do brega, um meio machista mas onde há muitas mulheres bem sucedidas e bem resolvidas com sua sexualidade, que tomaram a posição de protagonistas, criando seus filhos e ganhando dinheiro, vai voltar suas baterias para o masculino em seu próximo projeto, batizado por enquanto de ‘Carro-rei’. “Vou contar a história desse filho de uma família muito importante na sua região, um ‘bon vivant’ que ganha muito dinheiro, é aventureiro e tem um carro 4X4. Nesse filme, os carros vão falar e até matar. É uma reflexão sobre a sociedade brasileira contemporânea, com boa dose de humor, mas o que eu quero mesmo é arrancar o riso amarelo da plateia”, provocou.

“Arte não tem sexo. O olhar é do artista”

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Monique Gardenberg fala a Anna Muylaert

Monique Gardenberg é um ícone da mulher multifacetada que joga nas 11 na cultura nacional. Sua trajetória começa como diretora cultural do Centro Acadêmico da UFRJ, onde cursava Economia, promovendo shows e eventos, de onde partiu para tornar-se ‘manager’ numa turnê de Milton Nascimento. Produziu peças teatrais de Gerald Thomas, criou e realizou o Free Jazz Festival e o Tim Festival. Na fase mais difícil para o cinema nacional, lançou seu primeiro longa, ‘Diário Noturno’ (1993), selecionado para o Festival de Veneza. À frente da Dueto Produções, também dirigiu uma série de videoclipes, dentre eles, ‘Não enche’ para Caetano Veloso. Seu segundo longa veio em 2004. ‘Benjamim’ lançou a atriz Cléo Pires e foi premiado nos Festivais do Rio e de Miami, como Melhor Filme. Seu terceiro longa, de 2007, ‘Ó Pai Ó’, que virou série na TV Globo em 2010, é a escolha do Canal Brasil para ser exibido na Mostra Cine-Delas.

Em entrevista à Muylaert, Gardenberg relativiza os gêneros no tocante à arte: “Pense em Almódovar, por exemplo, o olhar dele é feminino, já a única mulher que ganhou o Oscar, fez um filme com olhar masculino. Eu diferencio pelo olhar mais reflexivo, e não, por tratar-se de um homem ou uma mulher na direção”. A cineasta relatou ter sentido um ‘tranco’ quando começou a dirigir videoclipes, “mas não por ser mulher, acho que mais por inexperiência, por faltar voz de comando, e não, por eu usar saia”, ponderou.

Sua visão é que homens e mulheres devem ser vistos e tratados da mesma forma. “A naturalidade amoral com que tratei ‘Jenipapo’ (seu primeiro longa, de 1996) e ‘Ó Pai Ó’ é fruto do mesmo lugar, esse lugar onde tudo deveria ser indistinto”. Anna Muylaert discordou: “Isso é uma utopia!” ao que Gardenberg retrucou “mas minha visão é essa, estou falando de arte e não, de mercado. O espaço que existe no mercado, hoje, vem de uma luta das mulheres, claro”. Seu próximo projeto para o cinema é uma adaptação do livro do israelense Amos Óz, ‘A caixa preta’. “Vou falar de um triângulo amoroso brutal que inclui um judeu e um palestino, mas por meio de cartas. É muito difícil transpor um livro totalmente epistolar para a tela, mas o que mais me interessa nessa história é falar da intolerância”, revelou. “Este filme virá num bom momento”.

VERTIGEM: Em que momentos sentiu o machismo no cinema?

Anna Muylaert: Eu senti o machismo não apenas no cinema, mas também na televisão e na vida. A questão é que os homens tratam as mulheres como se fossem café com leite. E quando ela não age como café com leite e sim como uma profissional competente, vêm outras formas de diminuição como não dar o crédito ou pagar menos para mulher do que para o homem – coisas que eu fui resolvendo ao longo dos anos de carreira. Depois de ter feito sucesso internacional com o ‘Que horas?’, senti uma nova forma de machismo que se caracteriza por um incômodo masculino diante do protagonismo feminino. É como se os homens não legitimassem o seu sucesso. Algo como acontece com a presidenta Dilma, em que alguns homens falam dela como se ela estivesse na presidência por acaso, e não, por voto direto.

Qual o seu filme que considera ter mais mensagens voltadas para a mulher? Você faz filmes com as questões da mulher em mente?

Sem dúvida, ‘Que horas ela volta?’. Porque é um filme sobre maternidade, educação. Sim, este filme eu fiz pensando em falar de questões femininas. Daqui pra frente, gostaria também de fazer um filme sobre machismo para desnaturalizar certas atitudes humilhantes que acontecem diariamente sem que a gente se dê conta.

Você disse à ‘Brasileiros’: “Fiz muita análise e fui aceitando cada vez menos esse tipo de situação. Hoje, não fecho trabalhos sem crédito e dinheiro justo.” Essa situação é própria da mulher no Brasil? A mulher brasileira não sabe cobrar pelo seu trabalho? Ou esse é um problema que atinge a todos os profissionais de Cultura?

Acho que a mulher, não apenas a brasileira, está no mercado de trabalho há menos tempo que o homem, historicamente falando. De modo que sim, acho que houve até agora uma timidez, um excesso de humildade muitas vezes, mas que está chegando a um ponto de saturação. A gente não quer só poder fazer o trabalho. Quer também receber os créditos e os méritos por ele.

Você acredita em sororidade entre mulheres de classes sociais diferentes?

Sim, acredito.

 

Filmes da ‘Mostra Cine-Delas’ (Canal Brasil, a partir de 8/01/16):

‘Pequeno dicionário amoroso’ (1996), de Sandra Werneck;

‘Ó Paí, Ó’ (2007), de Monique Gardenberg;

‘Amor, plástico e barulho’ (2014), de Renata Pinheiro;

‘Um passaporte húngaro’ (2001), de Sandra Kogut;

‘Durval Discos’ (2002), de Anna Muylaert;

‘Como esquecer’ (2010), de Malu Di Martino;

‘A primeira missa — Ou tristes tropeços, enganos e urucum’ (2014), de Ana Carolina;

‘Reidy — A construção da utopia’ (2009), de Ana Maria Magalhães;

‘Narradores de Javé’ (2004), de Eliane Caffé;

‘A hora da estrela’ (1985), de Suzana Amaral;

‘Irma Vap — O retorno’ (2006), de Carla Camurati;

‘A Via Láctea’ (2007), de Lina Chamie;

‘Revelando Sebastião Salgado’ (2012), de Betse de Paula.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagens: Débora 70. No destaque: Ana Muylaert (à esquerda) e Renata Pinheiro

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