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Sentimento do Mundo

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Espírito natalino

Sempre fui fascinada por música. Até hoje me lembro do primeiro LP que comprei, e também do primeiro CD. Então não foi muita surpresa para ninguém que, quando meu tio-avô Tonico morreu, e lá se vão uns bons anos, a vitrola que era dele acabasse ficando comigo. Os discos de vinil ainda não tinham virado fetiche, os CDs estavam em alta, ninguém queria saber dela. É minha!, decretei.

A vitrola é linda. Daquelas que ficam dentro de um móvel de madeira, com pés. Meu tio era muito cuidadoso e, por isso, o estado dela é bom (dentro, ainda veio a flanela que ele usava para limpar o prato e os discos; eu, enquanto pessoa detalhista e cheia de pequenas obsessões, adorei). Tenho orgulho de ter um objeto assim na minha casa. Mas não é só isso.

Aquele toca-discos é uma das lembranças mais antigas que eu tenho da minha família. Isso porque todo ano nos reuníamos na casa do meu bisavô, que ficava ali entre Maracanã e Vila Isabel, e era lá que o tio Tonico e sua vitrola moravam. Enquanto meu bisavô foi vivo, o Natal sempre foi comemorado lá — e ele viveu até os 99 anos. Por isso tenho uma memória bem detalhada daquela casa e dos fins de ano que passávamos lá, embora eu fosse criança e tenha se passado muito tempo.

A vitrola ficou por uns tempos na casa da minha mãe, já que eu morava num apartamento relativamente pequeno. Mas, há alguns anos, quando ela se mudou, não tive jeito, senão trazer o aparelho para casa e arrumar um lugar para ele. Desde então, vivemos juntos e felizes. E, há alguns meses, minha tia-avó Cenir, irmã do tio Tonico, me perguntou se eu não tinha interesse nos vinis remanescentes da coleção dele.

Olhando os discos, tive uma primeira surpresa ao perceber o gosto musical tão variado do meu tio. Martinho da Vila, Chico Buarque, Alcione, óperas, canções italianas, músicas de orquestras de casas noturnas… Fiquei fascinada em descobrir um pouco mais sobre aquele tio com quem já não posso conversar, tentar saber mais sobre ele, partilhar meu amor pela música.

E a música é capaz de conectar pessoas de tantas e inesperadas formas que, meses depois de abrir aquele pacote com os discos, eu ainda me emociono só de lembrar de quando me deparei com álbuns infantis na coleção do meu tio. Aquele homem não teve filhos, mas tinha vários LPs temáticos só para agradar aos pequenos (eu inclusive, na época) nas festas que reuniam a família em sua casa uma vez por ano. Acho que isso é qualquer coisa de muito próxima daquilo que chamam de espírito natalino.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: www.lomography.com/homes/il_grande_fausto

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