colu

Notas Perfumadas

0 Flares 0 Flares ×

Qual o cheiro do seu Natal?

Natal para mim sempre teve cheiro de bolinho de bacalhau. Eu não lembro quando, mas a última vez que passei o Natal com a minha família faz tempo. Decidi há anos passar o Natal sozinha, em total silêncio, para poder realmente conectar-me à história de Jesus e sua energia de compaixão, amor e gratidão.

Eu não via esses valores na minha família, o que sempre vi foi pessoas bebendo demais, discussões, atrito e competição. Uma noite que era para nos lembrar da compaixão tornava-se um circo de horrores. Enquanto eu era criança, os presentes e o cheiro dos maravilhosos bolinhos de bacalhau da minha falecida avó criavam uma noite mágica. O Natal, na minha saudosa infância, tinha cheiro de biscoito, de bolinho e de cor dourada. Lembro de ver uma estrela cadente no Natal, aos 11 anos, e aquilo me marcou para sempre: virou uma chave do que realmente era a simbologia daquela noite. Aí, os anos se passaram, tenho 32 anos, não sou cristã, não tenho religião, mas Natal é tão sagrado para mim que resolvi passar sozinha, a fim de sentir toda a sacralidade do momento, sem interrupções de brigas, bebidas e intrigas.

Na noite de Natal, minha família sou eu, minhas plantas, poemas que recito para mim mesma e o cheiro do incenso de mirra. De alguma forma, estou com os meus parentes: lembro do cheiro de cada um, faço reverência, agradeço por tudo que me ensinaram (mesmo que pela dor), e essa é a forma que encontrei de realmente sentir o nascimento de Jesus em mim.

Não é fácil sentir os cheiros das ceias dos outros apartamentos, ouvir as gargalhadas, o aroma de bolinho de bacalhau e não ficar um pouco triste. Mas a tristeza faz parte do nosso autoconhecimento, e as lágrimas fazem parte de um enorme aprendizado sobre o que se tem e o que não se deseja mais ser. O sagrado toca o coração. Se não está tocando, não faz sentido, e o que não faz sentido eu desconstruo, transformo o cheiro, as cores e tudo que for possível para não perder a sacralidade do amor.

O cheiro do Natal depende do nosso comportamento, pensamentos e ações. O meu Natal tem aroma de mirra, a planta da espiritualidade, da entrega ao etéreo, da compaixão e do perdão. Essa noite é quando renovo meus votos com a mirra e seus poemas, abraços e entrega, acolhimento e afeto e é isso que desejo para mim e para você o ano inteiro.  Mais que cheiro de bolinhos, precisamos aprender e sentir a espiritualidade da mirra. Meu presente: um incenso de mirra e nada mais!

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail:margaridalquimia@gmail.com

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×