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Sentimento do Mundo

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Um novo ano-novo

Talvez eu seja a última romântica, como disse o poeta, mas confesso que adoro ano-novo. Meu coração se enche das mais ingênuas expectativas, e adoro os rituais que envolvem a data: tomar um banho de cheiro para levar embora as coisas ruins, fazer lista de intenções para o próximo ano, mentalizar os desejos mais importantes na hora da virada, usar uma cor que eu acredito que vá trazer sorte, me cercar de pessoas que amo e me encher de energia positiva… Enfim, para mim nessa hora vale tudo que envolva fé.

Já não me lembro como era antes das redes sociais, mas nos últimos anos tem sido a mesma coisa: boa parte das pessoas que conheço pragueja contra o ano que está terminando e torce para que ele acabe logo. Tudo bem, o clima no Brasil (e no mundo) anda mesmo estranho, em diversos aspectos, mas será que está tão diferente assim do que sempre foi? Obviamente, existem anos que trazem perdas ou outros traumas muito grandes para algumas pessoas, mas fico pensando se tanta gente do meu mundinho privilegiado tem motivos reais para odiar 2015 dessa forma.

O mundo tem muitas desgraças acontecendo o tempo todo. Pessoas sofrem violências inimagináveis, vivem em extrema pobreza, são assassinadas. Neste exato minuto, grandes injustiças estão acontecendo, em diversas partes do mundo. Neste exato minuto, existe no planeta uma multidão de pessoas a quem, desde sempre, foi negado o direito a sonhar.

E é por isso que eu acredito que nós, que temos diversos privilégios em um mundo tão duro — entre eles, a possibilidade de realizar nossos sonhos —, talvez devêssemos tentar olhar um pouco mais para o aqui e agora, e nos dar conta de como somos agraciados diariamente. Claro que não dá encarar a vida com leveza o tempo inteiro (até existem pessoas assim, mas, pelo que sei, são muito raras), mas que tal dar uma chance para os pequenos milagres diários?

Num exercício rápido, tento lembrar os momentos em que fui feliz hoje. Da hora em que acordei até agora, pouco antes de dormir: eu estava muito calor e tomei um banho frio; fiz um café que perfumou a casa inteira (e depois bebi); recebi uma visita querida; falei bobagem e dei muita risada; falei sobre coisas sérias, e por vezes me emocionei; senti o cheiro de terra molhada antes da chuva; e a chuva veio com um vento fresco, que amenizou um pouco (ainda que brevemente) o calor; fiz planos (modestos) para a virada do ano, amanhã; comi coisas deliciosas no lanche da tarde; recebi outra visita querida; tomei outro banho frio. E em breve vou dormir na minha cama, na minha casa que tanto amo.

Estou longe de ser uma otimista nata (embora talvez no fim do ano eu fique um pouco mais de esperança do que no resto do tempo, admito). Mas acredito que as pequenas alegrias são capazes de nos salvar de algumas grandes angústias. Um gesto de gentileza de um estranho, um livro que nos aquece (ou perturba) a alma, uma música que nos viajar no tempo ou no espaço: coisas assim podem nos devolver um pouco a fé na vida.

Mas, se no fim das contas o ano que está quase terminando teve mais contras do que prós, agora é uma chance de zerar as mágoas e angústias, e acreditar que o próximo pode ser diferente. E, afinal, o que é mesmo que temos a perder com isso?

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: Wendi Kelly

 

 

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