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Prisma

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Mudar de vida 

Nesta primeira semana do ano, todos e todas vivemos em algum tipo de limbo no qual nos esgueiramos entre lembranças do ano que passou e o que precisamos enfrentar no ano que começa. Lembro do meu pai me dizendo sobre alguma coisa que eu estivesse procurando e não conseguisse achar quando era criança: “Está no limbo, Leïlah.” Sempre imaginei o limbo como um lugar prateado em que as coisas perdidas estariam em modo transparente, em conformação com aquele lugar, mas invisíveis para nós, que estaríamos dentro de um mundo marrom, feito de madeira, do palpável. A passagem de ano deixa transparecer muitas coisas, e é por isso que, nela, sempre nos metemos a escrever as velhas conhecidas metas para o ano vindouro. E se as metas eram mais sobre ter isso ou aquilo, viajar para tal lugar, conseguir tal trabalho, ser feliz com alguém, à medida que o tempo passa, as metas são mais sobre tornar-se aquilo que se imagina, agir melhor, cercar-se de pessoas mais positivas, ajudar ao próximo, colocar algum método mais eficiente em prática, descobrir ou dar espaço para alguma vocação, partir para outro lugar, começar uma vida realmente nova.

A gente sabe que, de 2010 pra cá, valores e princípios estão sendo colocados em xeque ou sendo transmutados num processo impiedoso e violento, que atingiu seu cume em 2015. Sinto que o início de 2016 vem com cheiro de exaustão diante de erros que se repetem, descartes de hábitos, crenças e relações, que se arrastam suplicando por substituição ou renovação, ainda que dentro de alguma subversão, que não conseguimos concretizar, e imbuído de um grande desejo de espiritualizar a relação com a vida. Em outras palavras, recuperar um sentido que parece perdido entre os zilhões de cliques que nós, ciborgues burgueses, não conseguimos parar de dar. Não por acaso, a última obra que comprei, já nos estertores de 2015, foi uma ampulheta da poeta visual virginiana Gab Marcondes onde tem escrito “sentido” e “destino” em cada uma de suas extremidades. Não é possível que uma delas sempre tenha que estar vazia.

Maína Mello, astróloga titular de um dos melhores sites astrais brasyleiros, o Mapeando, contou no evento que criei no finalzinho do controverso ano de 2015, o Sarau Astral, que neste ano de 16, algo da tensão inenarrável que estávamos atravessando seria diluído e que nossas preocupações tomariam uma feição mais espiritual. Embora, os tais descartes e os limites entre sonho e realidade vão permanecer em pauta, chacoalhando nossas relações e nos mantendo na senda da grande limpa nas nossas vidas e, consequentemente, no planeta que sabemos estar operando na rota da escassez, a coisa fica mais suave ou menos bélica, que seja. 2016 é ano do Sol e o Sol ilumina nossas temíveis sombras. Se 2015 foi pautado pelo confronto com essas sombras, 2016 talvez vá ser o encontro pacífico com elas, realizando que elas são tão necessárias quanto a luz para a nossa composição.

Na mesma época, outra astróloga de mão cheia de estrelas e outros corpos celestes, Maria Eunice Sousa, avisou que Júpiter entraria em retrogradação em 08 de janeiro. O “Grande Benéfico”, neste aspecto, segundo ela, sugeriria “grande exagero na necessidade de liberdade e dificuldade de administrar isso na vida, queremos nos expandir, mas ao mesmo tempo, hesitamos em nos comprometer com os esforços necessários para isso; podemos nos tornar revolucionários só em palavras, inflamados e apaixonados pelas ideias, mas incapazes de entrar em ação de fato, potenciais agitadores, pregando filosofias anarquistas, mas permanecendo atados ao status quo, talvez por conveniência”. Eu me vejo exatamente dentro dessa descrição, excetuando pela “conveniência” que eu prefiro chamar simplesmente de “medo”. E sinto que não estou sozinha neste sentimento. Maria Eunice sintetiza: “O que é mais importante, permanecer solto pulando de galho em galho de forma irrefletida ou ater-se a sonhos realistas que demandam algum sacrifício e grandes esforços?”

Poucos estamos dispostos a fazer esses grandes esforços, parece. Sai ano, entra ano, a maioria quer “abandonar tudo”, mas não consegue nomear uma única coisa a ser abandonada dentro de suas vidinhas. E no fim do ano, isso fica sublinhado. Metade da timeline defende que “fim de ano é bobagem”, que nada demais irá acontecer, que todas as épocas são iguais, só mudando as técnicas e os termos, que o que temos é um arbitrário calendário gregoriano idiota que não significa nada. A outra metade acredita que tem ciclo novo no pedaço, que os ares mudam, que o astro regente do ano vai comandar a orquestra dos nossos dias, que o ritual é significativo. Os cínicos acham que só começa em fevereiro. Eu penso que alguma coisa acontece no meu coração que quando um ano cruza com o outro, é uma nova avenida que pegamos, uma nova temporada da série que começa, a novela das nove troca, o enredo é basicamente o mesmo, mas vêm outras personagens e situações inéditas, senão, pelo menos, novos ângulos e tomadas sob nova direção. Quero crer que essa demarcação, tão sem nexo quanto o nome que se dá a qualquer coisa ou pessoa ou ao pontilhado invisível que se confere a um pedaço de terra, é uma forma eficaz de nos fazer suportar a eternidade. Mas confesso que a eternidade do erro anda eterna demais pra quem gosta de movimento em excitantes direções como eu.

Em início de ano, estamos procurando nos achar. Entre o fim dos folguedos e a melancolia agridoce que nos faz apenas semi-despertar e as demandas que vão, suavemente, encontrando brechas e se impondo. Tentamos digerir o que nos aconteceu enquanto catamos o feijão para a nova refeição que precisa ser preparada. Catamos os caroços entre sonhos de olhos abertos e impulsos metódicos. Inclusive, essa poderia ser a metáfora perfeita para o eixo Virgem-Peixes onde vai se dar o novo ciclo de eclipses que sacudirá este 2016. Também por ocasião do Sarau Astral, Maína vaticinou que a tônica deste ano seria espiritual, pautada em perguntas que exigem que vamos mais fundo, como “quem sou eu?; qual o sentido de eu estar aqui?”. O importante, ela disse, será “sair da reatividade e da ansiedade”. Os eclipses de Virgem-Peixes também pedirão um “desliga, mermão”, mas lembrando que esse desligar-se tem muito mais a ver com uma tomada de responsabilidade silenciosa pelo próprio destino que apenas um detox sazonal de aparatos tecnológicos (não desprezando que as redes sociais sinalizam que o novo êxtase do luxo é se desconectar na passagem do ano). Tem a ver com tornar-se consciente no plano virginiano de atenção ao detalhe, discriminação e discernimento sobre o que serve e não serve, e de tornar-se, enfim, um ser humano útil ao planeta e aos irmãos. Tem a ver com dar forma consistente ao seu sonho e moldar no barro, que lhe aparece feio e sujo, o rosto que você quer ver no mundo.

Para chegar à liberdade expansiva de que Maria Eunice falou, Virgem lembra que é preciso organização, disciplina e a palavrinha mágica favorita dos programas de transformação ‘express’ do GNT, “planejamento”. Aquele planejamento, que na TV, parece fruto de uma reflexão de cinco minutos diante do problema, mas que na vida real, é algo a ser arduamente trabalhado, principalmente em tempos de imediatismo compulsivo. O apelo é espiritual num sentido que eu entendo como racional, já que você se apropria do seu saber para instrumentalizá-lo e fazer com que ele floresça a serviço das pessoas. Bem, isso é exatamente Virgem-Peixes, uma vez que Peixes é o eixo espiritual e Virgem, o eixo material. Materializar as nossas ambições mais altas de sermos verdadeiramente úteis, eis o norte em 2016 depois da extensiva jornada caos adentro.

Mas nenhuma dessas astuciosas diretrizes astrais anula o fato de que já apertamos os olhos caídos e gritamos roucos e pra dentro, “desta vez vai ser diferente!”, com o pé atrás próprio de quem assiste ao espetáculo das resoluções de troca de bastão e os desejos coletivos de mais paz, harmonia, amor, educação, ‘joie de vivre’ todo santo ano nas redes sociais. Decidir esforçar-se por uma vida e um mundo melhores virou o espetáculo favorito de todo fim de ano nas mídias sociais. Mas o que confirmamos durante todos os anos desde 2010 não é de que tudo já não está assim, tão diferente, mesmo? O que mais vamos mudar? Talvez vamos mudar as mudanças e finalmente, implementá-las, no entanto, a própria noção de “finalmente” parece mais móvel, hoje. Sempre há mais um episódio surrado a ser assistido, mais um capítulo de reclamação a ser vivido, mais um post a ser despejado no automático, mais uma foto a ser curtida com inveja e desdém, mais uma previsão astrológica a ser lida no atropelo, mais uma chance furreca para as mesmas pessoas que nos decepcionam e nos ferem. O “finalmente” nunca chega, e, finalmente, o que vence é o cansaço. Encaramos nossas grandes cidades, nossas carreiras, nosso tempo e espaço, nossas relações, nossos comportamentos, assim, com olheiras gigantes, desconfiança, indiferença à capacidade real que temos de revolucionar nossas próprias vidas, que é o único caminho para que revolucionemos o mundo. O velho clichê de começar a mudá-lo pela sua própria horta (orgânica).

Por mais que as matérias sobre quem larga tudo se proliferem como coelhos, por mais que sempre surja uma “história de vida inspiradora”, como se convencionou chamar qualquer caso de pessoa-que-deixou-a-modorra-da-vida-diante-do-jornal-nacional-após-um-dia-inteiro-de-trabalho-corporativo nos bares e festinhas de apartamento, sabemos que quando a vida é nossa, muito nossa, e há filhos, e há laços com a terra natal, e há em maior ou menor grau um instinto de preservação da trajetória, com isso implicando em apego a pessoas, à língua materna, a códigos socioculturais, a paisagens (como é fácil se apegar às paisagens do Rio de Janeiro, aliás), abandonar nosso lugar, por mais que ele não seja mais nosso, não é assim tão fácil, não é assim tão páginas ‘glossy’ de uma revista bonita nas bancas. E o pior é que estamos todos enredados numa ilusão perigosa, a de que estar diante da tela do celular difere tanto assim de estar diante da tela da TV. E quanto mais essa tela sedutora nos fala de “mudar de vida”, apresentando centenas de possibilidades e histórias de sucesso na empreitada, mais nos deixamos intoxicar pela passividade de assistir a essa movimentação que nunca chega a irromper nas nossas próprias vidas.

Essa ação toda, que está ao alcance dos nossos polegares e indicadores rápidos no gatilho em ‘likes’ e compartilhamentos, camufla uma nova forma de apatia, que eu chamo de “apatia opinativa”. A opinião parece o artigo redentor que nos salva de sermos as caricaturas que sempre criticamos quando dão suas caras aumentadas nos outros e nas tribos que resistem à máxima individualização e fragmentação. A opinião, a commodity mais valorizada destes tempos à mercê de fatos não comprovados, é o que nos dá a sensação de potência, de capacidade de ação e escolha sobre nossas vidas e nosso mundo. Mas essa opinião que oferecemos prontamente diante de qualquer tema, sem conhecimento sobre o objeto da discussão e com foco nas pessoas envolvidas, não é mais que um zapear de canal de TV mais sofisticado. É o signo do grande sonambulismo da civilização, no limbo entre salvar o planeta de si mesma e a repetição compulsiva de um padrão de consumo até do intangível — a felicidade nas fotos das férias, por exemplo —, que não rende mais prazer. Do canal 540 pro canal 600 pro canal 555. Do perfil polêmico de x para a matéria es-sen-cial y para o comentário bombástico de fulano para mais uma foto idílica. O que você está, exatamente, fazendo ao consumir toda essa informação sobre mais um fim de ano e entupir as retinas de fotos de fogos de artifício em terraços e janelas, e de praias paradisíacas em algum Réveillon pretensamente mais feliz que o seu? No meio de toda esta baderna estrepitosa, eu fico com o desejo do ilustrador Felipe Guga sobre o ano-novo: “FELIZ A̶N̶O̶ VOCÊ NOVO”. É só nisso que dá pra acreditar. Isso se eu mesma (me) deixar.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

Imagem: Frame tirado do filme “Mudar de vida” de Paulo Rocha (1966).

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