colu

Sentimento do Mundo

0 Flares 0 Flares ×

A parte boa

Dizem que ter sobrinhos é de certa maneira melhor do que ter filhos, porque fica-se apenas com a parte boa. Como não tenho filhos, só posso falar sobre como é ser tia — e, de fato, é muito bom.

Hoje, soube que o mais velho riu ao ouvir um quase-palavrão dito pela tia-avó. Lembrei-me de quando era criança, e de como eu me divertia ouvindo adultos falarem palavrões ou termos escatológicos. Minha tia, a mesma que fez meu sobrinho cair na gargalhada, contou que um de seus filhos mais velhos até hoje se lembra de um coral boca sujíssima que fazíamos no Natal (ensinado por um tio e uma tia, por sinal). Rapidamente, eu e meu irmão mais velhos recordamos todos os versos da tal canção.

Foram muitas as lembranças de infância vividas com os tios, e olha que já faz muito tempo que nossas infâncias passaram. Hoje, infelizmente, já não nos encontramos com a frequência com que outrora fazíamos. Mas não importam o tempo e o espaço a nos separar: foram tantas as gargalhadas, tantos os dias felizes que aqueles momentos ficaram gravados com detalhes no coração.

Meu irmão desdenha quando falo que muita gente acha o filho mais velho dele parecido comigo. Mas não é só verdade, como muitas vezes me pego notando naquela miniatura de gente (ele tem quatro anos e muita personalidade) alguma coisa que eu mesma tinha quando criança.

O Lorenzo, quando brinca, às vezes entra num mundo particular. Tão concentrado que fica difícil chamar a atenção dele nesses momentos. E como não pensar em quando era eu a brincar, e minha mãe (ou qualquer outro adulto) quem insistentemente tentava alguma resposta? “Vive no mundo da lua”, ela dizia.

O de um ano e meio (são três sobrinhos, dois do meu lado e um pelo lado do marido) ainda não fala, mas juro que nos entendemos. Quando era mais novo, ele balbuciava palavras irreconhecíveis como se fizesse uma pergunta a alguém. Até hoje, quando finjo conversar assim com ele, o Jhonas cai na gargalhada e me responde, à sua maneira.

O Antonio, que além de sobrinho é afilhado, só tem cinco meses. Mas confesso que morro de orgulho quando chego falando qualquer coisa com voz  tatibitate e ele me devolve um sorriso.

Olho para os meus sobrinhos e fico tentando imaginar que espécie de pessoas eles vão ser quando se tornarem adultos. Mas, mais do que tudo, espero que eles gostem tanto de mim quanto eu sempre gostei dos meus tios.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: ‘Cornelia, Mother of the Gracchi, Pointing to her Children as Her Treasures’, Angelica Kauffmann

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×