colu

Sentimento do Mundo

0 Flares 0 Flares ×

Mágica no absurdo

Sabe-se lá como surgiu em mim a paixão pela música. Meu irmão mais velho também gostava (diferentemente de nossos pais, que nunca tiveram muitos discos em casa), mas nunca foi do tipo que me apresentava artistas. Íamos a shows juntos — desde os meus 11 anos minha mãe me deixava ir, se ele fosse também —, mas logo ele foi perdendo o entusiasmo e eu segui com a missão. Fui descobrindo artistas aqui e ali, no rádio, na televisão (desde a era pré-MTV, que viraria vício) e através de amigos.

Foi por ter desde cedo ido a grandes shows que acabei guardando algumas mágoas. E foi justamente um de David Bowie em 1997 que me fez prometer a mim mesma que nunca mais iria perder um show importante que viesse ao Brasil — e assim foi, pelos anos seguintes.

Fui uma fã tardia do artista. Por guardar um trauma por ter perdido seu show (não conhecia sua obra direito na época), alimentava secretamente a esperança de que ele voltasse um dia a se apresentar ao vivo — mesmo que ele tenha se tornado recluso nos últimos anos. Como um dia aconteceu com meu ídolo da pré-adolescência Paul McCartney, que não pude ver em 1990, por falta de alguém me levasse, mas me redimiu vinte anos mais tarde, em 2010, no Morumbi, em São Paulo, me fazendo chorar do início ao fim.

Muitas vezes acreditamos ter conexões especiais com nossos ídolos. Quando decidi ser jornalista musical, sonhava um dia entrevistar Eddie Vedder, de quem eu era muito fã aos 15 anos. Até cheguei perto: estive cara a cara com seu amigo e contemporâneo de movimento Chris Cornell, das poucas vezes que tive frio na barriga ao falar com alguém. O encontro com Eddie, porém, até então não chegou.

Já cheguei a viver uma situação mágica com Jorge Ben, daquelas que nem em sonho a gente imagina: um dia ele cantou uma música obscura em um show e dedicou a mim em um show só porque era minha preferida. Um dos maiores gênios da música, trilha sonora da minha vida. Eu mal podia acreditar.

Bowie, no entanto, nunca escutou o chamado do meu coração. Ou talvez tenham sido simplesmente seus problemas de saúde que o impediram de voltar aos palcos, como milhares de fãs mundo fora ansiavam.

Em um mundo em que sonhos são esmagados dia a dia por trabalhos sem sentido e contas a pagar, o jovem que tentou e tentou capricorniamente até se tornar um rockstar trouxe uma boa dose de sonho para nossas vidas, lembrando que absurdo mesmo é o cotidiano modorrento e sem propósito. Essa talvez tenha sido sua maior transgressão.

Depois do torpor que tomou conta de mim com a notícia de sua morte, depois de ouvir músicas suas seguidamente por horas a fio — o que não fazia desde que, há poucos anos, resolvi escutar toda a sua discografia na sequência, um álbum por dia —, fiz um brinde em sua homenagem. E veio em mim a vontade crescente de ouvir suas músicas nas pistas de dança, como fazia aos 20 anos e por muitos anos que se seguiram.

Obrigada, Bowie, por me lembrar que a vida pode, sim, ser mágica. Nem que seja só por um dia.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: Bowie no filme ‘Labirinto’, de 1986.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×