colu

Prisma

0 Flares 0 Flares ×

Selfie-se quem quiser, como Bowie ensinou

Não há outro assunto possível depois de uma semana de pranto, lamento, audição mais que atenta dos discos, congregação e confraternização com amigos fãs, escrituras muitas a respeito, revisão ruminante de sentimentos e passagens da minha vida, e uma festa em homenagem a ele na bagagem, a primeira vez ouvindo Bowie depois de morto numa pista de dança. Faz diferença. Pelo menos, agora. A verdade é que a morte de David Bowie é um evento. Mas pela gória de novos tempos, um evento menos dos todo-poderosos midiáticos e mais do povo. Sua história é a história de cada um(a) de nós e sua história está sendo contada nas redes sociais, que virou uma missa, de uma semana pra cá. As revistas e jornais estampam homenagens, dissecam o cadáver do século 20, dão o microfone para comparsas, influenciados notórios e especialistas em cultura pop tecerem suas loas, charges proliferam, análises de álbuns e até videoclipes num exercício de revirar um baú que não acaba mais, e sempre há uma vírgula a acrescentar sobre esse fenômeno da expressão universal a partir de si próprio, mas o espírito de Bowie está em franco voo mesmo é pelas ‘timelines’, pelas festas e brindes em que sua música soa ainda mais xamânica. Assim como mostra o penúltimo clipe, “Blackstar”, um sopro de inovação que vai além do que o ‘trip hop’ atingiu, acertando, inclusive, porque há um revivalismo noventista em pleno desabrochar, e que encena um ritual meio Dia dos Mortos mexicano enquanto Bowie empunha uma Bíblia da Estrela Negra, ladeado por dois dançarinos que reforçam em sua pele o conceito de raça pura.

O que eu quero dizer é que não é mais necessário que a Veja faça 12 capas trazendo faces e versos diferentes (como versículos da Bíblia do Pop) de David Bowie para que possamos entender a dimensão que ele tem. E também estou dizendo que você não viu a melhor matéria sobre o ícone no Fantástico. Há 20 anos, teria visto. Hoje, o barulho é nosso. Quem está legitimando a magnitude desta morte são fãs, curiosos, entusiastas, críticos de internet, blogueiros, artistas e jornalistas on-line que vêm fazendo uma vigília incansável que resulta numa colagem de links quase infinita que o mantém no topo das paradas de sucesso. Depois de morto (ele conseguiu). As 12 capas chegam a ser alvo de deboche, mas não é pra tanto. É importante que os meios mais tradicionais também rendam suas páginas ao Grande Agente Modificador da Cultura que foi Bowie. É uma questão de soma e de reconhecimento. Um pintor e um exímio videoartista e ator: Bowie conseguiu se transformar na Mona Lisa, na La Gioconda do século 20, e não no Da Vinci contemporâneo, o criador, o autor, como alguns vêm sacando, pelo caráter multitarefa exemplar de David Jones. Em vez disso, ele entra para a história como a criatura, mesmo. Quando o pierrô vestindo uma roupa quase aquática brota na tela ou quando o galã quarentão de 1987 dispara, seco, “clock” numa entrevista a Jools Holland, quando este pergunta “time?”, é certo que Bowie é uma obra de arte em si, e não o artífice de todas aquelas personas e disseminador de todas aquelas ideias. Seria sobre-humano.

O mais indicativo de que os séculos transcorreram e há um abismo entre eles é que essa Mona Lisa assumiu centenas de faces. Essa é uma criatura que nós, amantes da música e da cultura pop, e vítimas do ‘cult of personality’, criamos. Ela foi pintada principalmente pelos fãs, pela plateia de desajustados perante os olhos opacos e rasos da Grande Máquina. As transformações pelas quais o mundo passou foram sabiamente capturadas e exploradas na arte de mil e uma caras de David Bowie. Com quase todo grande artista é assim. É sua capacidade de interlocução com os agentes do ‘zeitgeist’ que os faz maiores ou menores. É sua sensibilidade para entender o tipo de reflexo que o mundo pede que dita sua importância. De certa forma, um artista como Bowie é, justamente, um artista sem cara. Muito também se falou durante a última semana sobre não se conhecer quase nada da vida pessoal de Bowie ou de ele ser apenas um cara bem comum fora do circo da fama. Para o cineasta Julien Temple, que dirigiu um clipe-saga de 20 minutos para Bowie, nos anos 1980, “Jazzin’ for Blue Jean”, em depoimento dado ao The Guardian, Bowie tinha consciência da “estranha tensão” que existia dentro dele entre a esquisitice e a normalidade, mas foi mais além em sua leitura sobre o artista: “Sua banalidade era o segredo por trás da relação unicamente íntima que existe entre ele e sua audiência, e explica sua habilidade para alcançar as pessoas em tamanha escala universal. Tocá-las, ensiná-las, como seu irmão o ensinou (citando o meio-irmão esquizofrênico, que se suicidou, em 1985), e despertá-las para aspectos mais estranhos delas mesmas. Testemunhar sua transição da normalidade para algo completamente incandescente conforme ele pisava no palco era algo miraculoso de assistir”, declarou Temple. Seria justo afirmar que Bowie encarnou um pouco de todos nós em sua inquieta vida no palco.

Alguns detalhes importantíssimos me fugiram à memória emocionada quando escrevi minha coluna anterior, um videoclipe da participação de Bowie na minha vida. Eu não mencionei que, tomada pela esquisitice magistral da fase Thin White Duke, em 2003, fui no meu banheiro apertado do Leblon, com bandeja de xixi de gato emoldurada por pedrinhas espirradas do pouco ergonômico utensílio e, inspiradíssima, raspei as sobrancelhas. Também passei por cima da noite em que dancei “China Girl” com o fotógrafo Vicente de Mello e paramos uma festa, da tarde edulcorada dos anos 1980 em que meu pai me levou para ver “Labirinto” num cinema de Copacabana que virou academia de ginástica, e de como passei muitos anos de discotecagem no underground Rio/São Paulo tocando “I Am a DJ” em todos os meus sets. Bowie falava da realidade de todos nós, dos que perderam o emprego (“estou em casa, perdi meu emprego, incuravelmente doente, você acha que isso é fácil, realismo”), por exemplo. A maioria exalta sua obra teatral, apoiada em personagens fantásticos, que pareciam ter acabado de pisar na Lua e estar anunciando um tempo impossível de conciliação das diferenças, mas a melhor performance de Bowie, mesmo, foi como homem comum. Muito embora os fantásticos fossem belas projeções de um homem comum atormentado pelo desejo de transcendência num mundo que lhe parecia mais descabido que qualquer uma de suas ambições e desejos.

Foi desse homem comum, debatendo o machismo (“Boys Keep Swinging” e “Repetition”, ambas de ‘Lodger’ são denúncias, a primeira irônica e a segunda angustiada e soturna, do machismo), tentando se livrar de um vício, a fim de ejetar-se da masmorra do cotidiano, querendo a suavidade do anonimato, fazendo declarações de amor diretas, louco pra partir para terras distantes e conhecer culturas estranhas ao padrão louro de olhos azuis, que veio sua melhor performance. Essa narrativa do homem despido de Ziggy Stardust, Aladdin Sane, The Thin White Duke emergiu junto com o laboratorista de sons, trazido à superfície por Brian Eno, o culto que encontrou a sinergia das artes em suas expressões mais altas, o criador de um ‘blend’ delicioso de sensibilidade de canção ‘standard’ (quanto mais eu o ouço, mais me encanto com as semelhanças entre canções de Sinatra e Bowie com seu eloquente pendor orquestral) com barulheira sintética, aloprada, soprada, metalizada, que rasga os tímpanos sem ter um pingo de peso, apenas fundida em distorção. Esse homem veio dar as caras na aclamada mas pouco ouvida/entendida trilogia de Berlim (formada pelos álbuns ‘Low’, ‘Heroes’, ‘Lodger’, de 77 a 79), onde o artista múltiplo cedeu o gogó àquela nossa porção que quer partir em velas vermelhas para um continente mais promissor, mais moderno ou que simplesmente nos tire do lugar. Bowie também foi resultado da maior mobilidade da classe média no mundo pós-década de 1950, e de uma criatividade que ousava tornar-se mais democrática, até ser realizada em torrente no mundo hiperconectado que rende fama e reconhecimento a milhares de anônimos todos os dias. Ou Bowie simplesmente realizou para essa classe média o sonho de se mudar de sua mediocridade. Bowie sempre transpirou e inspirou mudança. No entanto, ou talvez porque “eu sei quem eu sou, ele disse”, como informa “Look Back in Anger”, de Lodger.

Saber quem você é, mesmo com o tique-toque opressivo do relógio a embalar o baile e a morte a escancarar a boca enquanto a luta para se manter são, lúcido, positivo e operante se impõe diariamente, é bem difícil, mas é o norte mais desejado na idade do ego pontocom. No mundo hiperestimulado e em rede, na dependência do reflexo aprovador do outro e, ao mesmo tempo, firmado na necessidade de desenvolver a habilidade de adaptação com uma narrativa tão fragmentada em curso, substituindo o romance, saber quem é você é moeda forte. É o que permite que a sua vida seja levada da maneira que você quer, contra os grandes pilares de uma sociedade em decadência, ainda que a liberdade seja uma ficção dentro dela. A cultura da ‘selfie’, essa Mona Lisa fotográfica na qual todos queremos nos transformar para validar nossa existência perante o outro, também é herança de David Bowie, essa espécie de Andy Warhol mais ao alcance dos meros mortais e dos desentendidos de arte-cabeça, que esteve em todas as suas capas de disco, à exceção do derradeiro ‘Blackstar’, que traz apenas a imagem de uma estrela preta. Porque ‘Blackstar’ é um disco póstumo, um testamento que só poderia ser aberto após a morte do criador. Ou que só faria sentido nesse contexto (será que ‘Blackstar’ conseguirá virar um disco maior que o último disco de David Bowie, planejado para ser seu ‘final statement’?).

Muitos e muitas declararam em seus perfis nas redes sociais que Bowie deixou como legado principal a chancela para você ser quem quiser ser. Muitos e muitas ‘outsiders’ encontraram em sua obra consolo, amparo, conforto, irmandade, fraternidade. Não era tão fácil perceber-se diferente da maioria antes de porta-vozes ‘cool’ do desvio como Bowie. Não era tão fácil ser crítico ao sistema vigente, questionando limites institucionais prontamente aceitos por quem só tem como mote ascender economicamente e poder entrar num clube fechado de privilegiados que podem esmagar todo o restante do planeta sem que haja punição formal. Não era tão fácil gostar de arte que estivesse nas ruas, fora do museu. Não era tão fácil se vestir e conseguir aliar criatividade a elegância, performance a rigor. Não era tão fácil ter sexualidade difusa e permitir-se o prazer sem se destruir. Não era tão fácil saber fazer poesia e não ser inviável em salões menos sofisticados. Não era tão fácil dançar e pensar ao mesmo tempo. Não era, mesmo, tão fácil.

Por isso, neste momento, há um corredor quase interminável de gente velando pelo século 20, reclamando que não mais haverá artistas de vanguarda & de massa como Bowie, capazes de tocar tanta gente, mas eu pergunto por que precisamos que artistas vanguardistas/experimentais e pop sejam massificados e todo-mundo os conheça e tenha suas vidas modificadas/impregnadas por eles? Acho que estamos reféns de uma visão demasiadamente século 20. Esse esquema foi desmantelado pela internet. Há muito mais democracia, hoje, para que as pessoas sejam o que elas quiserem e gravem e distribuam sua música como acharem melhor ou como puderem. Este é o mundo que artistas como Bowie tornaram possível. Nunca houve tanto espaço e liberdade para ser diferente quanto hoje. Talvez o espanto venha do fato de que há menos uniformidade, menos consenso e, por isso mesmo, com as diferenças mais intensas e fragmentadas e sua expressão mais dispersa, pareça que nada nunca esteve tão “igual”. Mas igual a quê? O mundo se transformou completamente desde o surgimento do cantor-alien. Hoje, ser alien como ele simplesmente não tem mais o mesmo peso. Porque há muito mais aliens. A morte de Bowie representa a morte do século 20, e vamos atravessar um intenso período de luto (já estamos atravessando), mas o processo é irreversível, e mais, necessário. Nós fomos acostumados a muita passividade. Recebíamos informação da TV, do rádio, de revistas e jornais impressos. Hoje, há necessidade de ir buscar essa informação e, frequentemente, conseguir curá-la. Há uma crise de mediação de consumo de informação. Quando vamos atingir um patamar de razoável conforto novamente? Não sei. Acredito que dentro de uns 20 anos. Mas o que é amargo? Quantos anos NÓS teremos daqui a 20 anos? É isso que mais dói. Saber que vamos sendo deixados pra trás junto com o século 20 e seus heróis. Nossos heróis. Aí, nos restam duas possibilidades: construir museus para eles e ficar lá adorando-os ou nos atualizarmos, digerir o colapso do que conhecemos como “o certo” na cultura pop e fazer parte do novo. É muito difícil conseguir o segundo caminho, mas foi o que Bowie conseguiu fazer — pelo menos, até a página 3, já que o Camaleão se repetiu depois dos 40, passando a ser mais influenciado que influenciar; os 40 são um ponto de inflexão cruel —, e, se seguirmos o exemplo dele, talvez dê pra chegar lá, num século mais plural e expressivo.

 

david_bowie_in_the_70s_taking_a_selfie_by_gagambo-d7j6vqt

Bowie fazendo selfie nos anos 1970 pelo artista Gagambo 

Dois dias antes do aniversário de Bowie, um amigo me chamou num cantinho e me disse que minha boca não andava saindo legal nas fotos. A abordagem não foi das mais cuidadosas. Perguntou, primeiro, se o tal jeito de boca era minha nova assinatura visual. Foi um comentário bem-humorado, reconheço, mas só foi encarado como tal porque não encontrou um alvo inseguro. Se a insegurança fosse minha melhor conselheira ainda, como já foi, o resultado teria sido desastroso. Dei-lhe uma longa explicação. Não queria mais esconder meus dentes ligeiramente tortos que nenhum aparelho ortodôntico teve êxito em corrigir, mesmo depois de mais uma década de uso. Queria me libertar da seriedade dura de quem não pode errar. A legenda de um daqueles sorrisos queixudos dos quais meu amigo se queixou era, ironicamente, “o sorriso é o melhor antídoto”. Espetáculo de segurança só se dá mesmo é na presença do defeito, principal e justamente por causa dele, ignorando a melhor pose que Madonna prega, a pose glamurosa, perfeita, “Vogue”, e que viraria ‘photoshopada’ anos depois, até chegar a essa aparência ciborgue que toma conta da paisagem humana em sua considerada melhor exposição.

Pra que encolher a barriga, morder as bochechas por dentro, fazer ‘duck face’, olhar num ângulo misterioso, tentar manter-se distante de quem o observa? Seria a ‘selfie’ perfeita aquela que esconde os nossos pontos fracos? Parece que sim. O defeito não está autorizado a transbordar e desafinar o coro dos usuários de aplicativos para aprimorar os traços do rosto e a cútis ou rejuvenescer. E, embora eu me esforce para aceitar minhas limitações estéticas, que não são mais que as de personalidade, com as quais venho me preocupando bem mais, à medida que, irreversivelmente, envelheço, há quem se ofenda com um suposto descuido com a aparência. Esse amigo comentou que, logo eu, que sempre tive tanta preocupação em sair bem na foto, estava cometendo o deslize de sublinhar um defeito. Eu me preocupo, justamente, com a lógica predominante de que o defeito deve ser varrido do mapa, o que tem levado a relações cada vez mais insinceras e assépticas. Mas nem todo mundo quer o antídoto. Estamos entorpecidos com a predominância da falsa plasticidade, mesmo quando ela já dá sinais de rachadura.

Como a pele de David Jones em seu último videoclipe, “Lazarus”. Quando vi o clipe pela primeira vez, no dia em que foi lançado, fiquei chocada com a audácia de Bowie em encarar a velhice de frente. Pensei, “ele vai inovar mais uma vez e virar o jogo”, agora, fazendo a crônica do homem velho, o que ninguém fez/está fazendo na cultura pop, que professa que velhos devem se esconder, assim como os sorrisos fora do padrão. Era possível enxergar a fraqueza óssea de Bowie, era possível sentir sua incrível fragilidade e o esforço para estar de pé, dançando, interpretando, fazendo sua última mímica, ao mesmo tempo que era quase palpável a sua necessidade de estar ali, contando mais aquela história. Ele estava usando seu corpo para passar a última mensagem, de que é permitido envelhecer e adoecer e sentir angústia e medo de morrer. Tudo já parece ter sido dito sobre a grandiosidade e grandeza do ato de encenar com tamanho realismo tamanha realidade assombrosa. Todos e todas já sabemos que Bowie investiu suas derradeiras gotas de energia num trabalho que ficaria como presente, testamento, ‘grand finale’ etc. para os fãs e estudiosos de sua trajetória. Mas há algo que eu ainda não li sobre isso e que eu desejo dizer: ainda é cabível sair na ‘selfie’ com defeito, sem buscar a melhor luz, o melhor ângulo ou suavizar aquele traço esquisito. Esse olhar do outro sobre nós que estamos anulando — quantos ‘memes’ você já viu brincando com a aparência de uma ‘selfie’ quando confrontada com um retrato feito por outra pessoa? — é, também, uma forma de anulação da relação com o mundo. A palavra final, portanto, é “bowie-se”, que significa, no dicionário das coisas importantes, “seja você mesmo, contanto que sua vida seja uma obra de arte, e não o seu rosto”, até porque o nosso rosto vai sempre refletir o do outro. Ele e nós temos cicatrizes que, por mais que saiamos bem ou mal nas ‘selfies’, não podem ser vistas*.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: Digite “Mona Lisa iPhone selfie” e você verá que ela está onipresente na internet, mas quem é o responsável pela obra? Esta versão foi tirada do Black City Girl Files.

*referência ao verso “I’ve got scars that can’t be seen”, de “Lazarus”.

 

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×