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Sentimento do Mundo

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Um Rio que resiste

Sempre que vou à Rua do Rosário, no Centro (e é uma região que visito com alguma frequência), fico triste ao passar por escombros no lugar do que um dia foi um casarão centenário. Segundo dizem, o dono ficou sem dinheiro no meio da obra, e a demolição simplesmente parou no meio, as ruínas a nos lembrar a beleza da construção que até não muito tempo atrás esteve ali.

É muito triste ver casas e prédios que deveriam ser tombados (será que são e, ainda assim, dá-se um jeito de burlar?) dando lugar a construções de gosto duvidoso. Sobretudo porque conseguiram resistir tanto tempo — pensemos em quantas reformas a cidade passou e esses lugares permaneceram lá, praticamente intactos — para justamente agora, em que temos mais consciência de preservação, irem por terra.

Viajamos para Paris e Buenos Aires e admiramos a beleza de suas construções históricas. Certa vez, uma amiga fez a comparação: o Rio de Janeiro é uma maravilha criada pela natureza; Paris é uma maravilha criada pelo homem. Pois muitas vezes parece que lutamos para destruir a paisagem deslumbrante que recebemos de presente em nossa cidade. Com a conivência e muitas vezes iniciativa de nossos governantes.

Não faz tanto tempo assim, sugeri a um amigo de Belém que visitasse a região do quadrilátero formado pelas ruas do Rosário, do Ouvidor, Primeiro de Março e do Mercado. “Obrigado, você fez eu voltar a me apaixonar pelo Rio”, ele me disse.

É mesmo um dos lugares mais encantadores da cidade.  Aquele trecho, situado no bairro que outrora foi o mais importante da cidade, guarda um pouco do Rio de séculos passados. Nossa história está entranhada nas paredes dos belos e centenários sobrados, que um dia receberam os moradores mais elegantes da cidade e foram cenário de histórias de nomes como Machado de Assis. O tempo parece passar mais lento por lá.

Hoje, ficam ali a livraria Al-Farabi (um dos meus xodós), a Brasserie Rosario, a Folha Seca, a Toca do Baiacu. Com sorte, é sábado de Samba da Ouvidor, para a alegria ficar completa.  Nas mesinhas espalhadas pelas ruas de pedestres, em vez de homens de fraque e mulheres de vestidos longos, gente vestida a caráter para o samba. Vivi muitos momentos memoráveis naquela região.

E, se quando olho para as ruínas do antigo casarão meu coração se enche de tristeza, quando caminho por entre o movimento daquelas ruas, sou tomada pela esperança outra vez. Aquele é um Rio que resiste.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

Imagem: Rua do Ouvidor em 1941

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