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Engole o Choro

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A boa mãe

A boa mãe aceita. Aceita que recém-nascido não dorme mesmo, que chora muito, mama muito, demanda muito e não dá descanso. A boa mãe aceita que a licença-maternidade é dela e, portanto, é ela que pode passar a noite acordada. Ela aceita que quem tem filho não descansa nunca mais e que, se quisesse dormir, não era pra ter filho, e que, quando ficava na balada, era bom virar a noite, né… agora aguenta. Ela aguenta, ela é uma boa mãe.

A boa mãe sabe que por mais participativo e prestativo e atencioso e companheiro que o pai seja, na hora do vamuvê é com ela, porque o filho só dorme com ela, só para de chorar se for pro colo dela, só come com ela. Só ela sabe dar banho e desembaraçar o cabelo da criança do jeito certo. Só ela sabe dar remédio, só ela sabe vestir essas roupas muito complicadas que inventam pra bebês e crianças atualmente. Só ela entende o que o filho quer dizer quando ele começa a falar e, portanto, pra ela é muito mais fácil dar atenção e brincar o tempo todo. E ela aceita, porque, lembre-se, ela é uma boa mãe.

A boa mãe passa as férias escolares 24 horas por conta dos filhos porque ela não precisa descansar. A boa mãe não descansa, lembra? Ela aceita.

Pois muito bem… eu passei muito tempo sendo a boa mãe, mas sabe uma coisa? A boa mãe não é uma boa pessoa. Porque, quando ela não dorme, não descansa, não olha pro lado, ela vira uma pessoa chata. Chata com os filhos, com o pai dos filhos, com todo mundo. Passei muito tempo agradecendo ao meu marido por ficar com os NOSSOS filhos enquanto eu ia fazer as unhas, por exemplo. E, quando dava, eu encaixava tudo no horário do almoço, pra ficar livre e ser a boa mãe no fim de semana. E, olha que coisa mais curiosa: nunca recebi nenhum agradecimento por cuidar dos meus filhos. PORQUE NÃO É UM FAVOR PRA NINGUÉM, GENTE! Então eu é que era uma pateta, de achar que estava tomando o tempo do outro.

Então este ano eu decidi que a boa mãe vai tomar algumas atitudes. A primeira delas foi entregar meus lindos e amados filhos pro pai e dizer “toma,que também são teus”. Já fiz isso uma outra vez — e também já pedi um help pra minha boa mãe, mas nunca pra ter tempo pra mim. Era sempre colocando o tempo “livre” em mais trabalho e, lógico, sempre tomada dessa culpa que eu nem sei mais onde foi que eu aprendi a ter. Mas agora, não. Assim sendo, cá estou eu, passando alguns (poucos, mas significativos) dias só por minha conta, na casa da mamãe, lembrando, entre outras coisas, de que também sou filha. E como eu tava com saudade de ser filha!

Hoje eles voltam. Claro que eu quero que voltem, claro que falei sobre eles o tempo quase todo, claro que estou com saudade. Mas sei que, na hora em que chegarem, vão encontrar uma mãe melhor que quando eles foram. Uma mãe que descansou, que dormiu (pela primeira vez em sei lá quanto tempo) bem e que tá cheia de amor e energia boa pra trocar com eles. Uma mãe ótima.

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

 

Imagem: ‘Sleeping lady’, Konstantin Somov

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