colu

Prisma

0 Flares 0 Flares ×

Reflexões aquarianas 

Às vezes, a vida fica tão pesada que é preciso voltar-se para a poesia. Leminski, Gullar, Mário de Andrade, Pessoa, Whitman, Baudelaire, Byron, Mallarmé, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Torquato, Ronald. David Bowie. Essa gente que ousa tocar o mistério. Cruzar a madrugada nessas companhias, descobrir a luz que há no fundo de qualquer túnel que se ponha a atravessar. Para além das crises, dos desesperos, das fechadas surpreendentes dos carros, das pelancas que teimam em se apropriar do seu corpo onde antes era rijo e furioso. Às vezes, só a poesia dá conta. Carla Diacov, Mariana Teixeira, Bruna Beber, Claudia Roquette-Pinto, Fernanda Fatureto, Gab Marcondes, Leda Spinardi, Carla Carbatti, Regina Azevedo. Estão todas publicando no Facebook. Você pode ter pílulas quase que diárias de visões que são como lupas naturais. É fácil ter uma vida na antítese da poesia. Subsistência feita de vida prática, levada a ferro e fogo, preço da fruta, como educar a filha da maneira mais correta possível para todos os envolvidos, não repetindo os erros dos seus antepassados, buscando luz e harmonia, um núcleo familiar mais saudável, zerar as dívidas de toda espécie (maldita saga cristã), pagando as contas, levando apenas números em consideração. Ainda que algum exercício filosófico ou esforço pálido seja feito neste processo.

Esta não é a Idade de Ouro em que valores como compaixão, generosidade, amabilidade, compreensão, empatia são o norte. Não é fácil criar crianças dentro deste mundo intrincado mas superficial, libertário na carne mas ideologicamente aprisionador, mais ‘in your face’ mas mascarado em toneladas de ‘selfies’ com aplicativo de correção de traços. A coisa foi tão longe que mulheres da minha geração querem apartar-se totalmente desta máquina de trucidar individualidades e fortalecer arquétipos viciados e equivocados que é a escola, criando movimentos para estudo supervisionado em casa. Talvez os valores que citei ali em cima nunca tenham sido os dignos de prêmio, vão argumentar. Mas então, nossa era é o maior elixir de todas as eras porque estamos falando disso agora, como nunca se falou. Não lembro de ver matérias nos jornais dos anos 1980 e 90 disseminando uma ideia de triunfo da coletividade sobre o individualismo, por exemplo. Não lembro de as pessoas estarem em busca de algo maior que um bom salário e a mesma rotina massacrante por 40 anos a fio, naquela época. Parece que ficar mais velho mantendo as faculdades mentais e o físico em dia, parece que este estender do tempo de vida e da excitação e do enlevo da juventude, nos autorizou a buscar mais prazer durante a jornada. E também nos fez não suportar tantos freios acionados pelo senso comum ou passar tanto tempo parados diante da TV e no mesmo escritório.

A minha narrativa e da minha geração é formada por uma espécie de escombro do ‘self-made man’ que havia chegado ao seu ápice nos anos 1980, ainda num transe de propaganda de si mesmo e seus símbolos de riqueza e vitória sobre a excrescência humana que “não merece o melhor”. Hoje, é diferente. Não é a ‘patrulhinha’ de esquerda da qual falam pejorativamente, no deboche, que está só a perceber isso. (E até os inteligentes debocham, mesmo estando de saco cheio de suas vidinhas). A crise do trabalho como foi estabelecido no século 18 – século que já soa terrivelmente arcaico e incompreensível dada a evolução da circulação do dinheiro, da noção de serviço, das formas de os homens e mulheres se organizarem, do avanço tecnológico, e das conquistas de representatividade política dos seres antes periféricos – atinge até a quem sorri amarelo para as botas do patrão todo-poderoso dono de picape prata. Mas essas são criaturas perniciosas porque fazem troça de sua própria desgraça, que é a única compensação para quem esmoreceu por medo de mudar, ou porque apenas desejam estar no lugar daqueles que os oprimem. Esses não se erguem do sofá de veludo ou couro bem escovado, ainda que ele custe dez prestações infernais ou não possa nunca mais ser trocado, pra ver a vida fora de suas ficções e fixações de segurança.

Mas quando falo que ‘hoje é diferente”, estou falando de quem está de olho no que esta sociedade está dizendo, nem mais tão nas entrelinhas, e que quer fazer alguma coisa com isso e por causa disso. Aqueles que entendem que uma era de um único modelo de família, de um único modelo de propriedade privada, de polícia, de cultura, de raça homogênea, de homem mandando em tudo (porque alguns implicam com o termo ‘patriarcado’ e eu até os entendo), acabou. Aqueles que querem propor novas formas de experimentar o mundo, novos fluxos e novas trajetórias possíveis. Novos cultivos, novas maneiras de se relacionar. E que estão trabalhando nessa construção misteriosa contra a corrente, fazendo muita força.

O acesso massivo à informação libertou um tanto o senso crítico. Há uma crise de atribuição de valor, sim, é certo. Alguns defendem que a arte não é a mais mesma porque não há mais crítica de arte, por exemplo. O que será de nós num século em que a imediação individual se espraia para o coletivo e em que a mediação imposta, seja pela indústria, pelo governo, pela moda, pela igreja, não está mais no centro? Claro que analiso isso sobre uma classe média privilegiada, culta, capaz de ler no osso da coisa. A mediação de uma igreja evangélica não conhece crise alguma. Pastores descontrolados em sua performance santo-televisiva num palco são muito ouvidos por muitos e muitas. Mas VJs da MTV já não temos mais. DJs, críticos, que pensem e apresentem a música como narrativa social, também não. Temos heróis da resistência, mas não são essas ‘talking heads’ que predominam mais na psique popular. A indústria cultural está virando outra coisa pelos tentáculos meme-tizados da internet e suas redes sociais neuróticas em que todos adoecemos mais um pouco todos os dias, presos às ideias que alimentamos sobre nós mesmos em nossas páginas.

Poucos ocupam o espaço nobre dos inovadores na curva. Poucos podem influenciar uma mudança radical de estilo de vida, tomadas de decisão sobre morar, amar, rezar, viver que farão toda a diferença no cômputo geral da satisfação, que antes, ligávamos apenas a ter coisas. Ter tantas coisas, aliás, foi corroendo as pessoas, embora eu acredite – ainda – na importância e na potência dos objetos como agregadores de energia e amuletos da história pessoal. Acredito que os objetos ainda contarão a história deste período na Terra. Acredito na vida útil dos livros, passando de mão em mão como ensinamentos promíscuos, vidas impossíveis realizadas apenas nas letras. Acredito na vida útil dos discos girando e preenchendo os cômodos de uma casa. Acredito no poder dos artefatos que nos mantêm conectados aos sonhos dos homens, paradoxalmente, por meio da matéria.

Mas nada disso tem a ver com compulsão pelo uso breve e o descarte (irresponsável) do que serviu por muito pouco tempo. Entupimos nossa vida de lixo. Inclusive, emocional. Virou moda falar em “emoções tóxicas”. Tem gente que se acha psicanalista rodado por colar essa expressão inócua numa conversa. Mas é óbvio que consumimos mais até do que queremos. O radar do ‘querer’ é muito mais escorregadio e falho que o do ‘precisar’. É óbvio que não há o que fazer com tanta embalagem. “Embrulha pra viagem?” Essa lógica permeia, também, os relacionamentos. É preciso ‘dar upgrades’ no homem e na mulher. “Melhorem!”, eles e elas picham na cidade. Não gosto desse “melhorem”, acho arrogante. Que não se volte para a situação anterior, de famílias mantidas à base de amantes, mas o prazo de validade curtíssimo das relações amorosas, abandonadas ao primeiro sinal de dificuldade e discordância ou de imposição de tudo que a vida nega ao romance, também não precisa ser o único polo a ser trabalhado. O poliamor é uma resposta talvez possível. Não julgo esses arranjos. São maneiras de distribuir o afeto que dizem respeito somente a quem sente (e não sente). Não há instituição que possa professar ou legislar sobre isso. Há tendências culturais, claro. Há momentos propícios para esse ou aquele tipo de afeto aparecer e prevalecer. E até nisso, a propriedade privada como a conhecemos vai sendo desmantelada. Porque a propriedade privada depende de um determinado modelo de arranjo familiar. Os bens têm muito mais a ver com as pessoas de uma sociedade e como elas se organizam do que imaginamos com nossas cabecinhas sonhadoras. Os bens e o papel que eles desempenham num dado momento ditam como as pessoas vão se relacionar, como vão formar núcleos de proteção e manutenção. Os afetos se dão dentro deste contexto.

Algumas pessoas transformam a vida cotidiana em arte, motor e transcendência. Essas pessoas pagam um preço alto por isso, mas precisam urgentemente ver sentido no que fazem, deixar um legado, transformar o ‘status quo’ de acordo com as necessidades novas que as pessoas apresentam quando seu desânimo espelha um mundo especulativo, tão voraz, que devora a si mesmo e incapaz de produzir mais. Estar na frente, ser inovador, inspirar, isso tudo vai além de ‘likes’ numa rede social. É como ser um profeta da Nova Era, o lampião do Ermitão (na carta de Tarô). É dizer coisas obscuras que nem todo mundo está dizendo. É ser ‘diferentona’ (e brincar com isso) porque ainda é possível ir na contramão no mundo politicamente correto de faz-de-conta. É isso que mulheres como Paula Maia e Palmira Margarida, duas pauleiras da nossa Vertigem, representam. Poder feminino engarrafado como essência mais próxima da pureza, no caso de Palmira. Conhecimento interestelar a serviço da evolução psicológica, no caso de Paula. Kamille e eu também estamos em algum tipo de missão, trazendo à vida textos que nos sangram, difíceis, entre o confessional e a crônica, o sistêmico, psicografando o espírito deste tempo maluco de início de século 21. Falando das cidades, da nossa cidade. Falando do que já experimentamos, olhando para o passado para formar uma ideia de futuro. “Sentimento do Mundo”, mais romântico, mais nostálgico, mais coeso, mais emocional, de Kamille. “Prisma”, mais geométrica, mais filosófica, mais analítica, mais mental, de Leïlah. E Piky Candeias dando as cartas do acaso bem marcado com suas leituras de Tarô sintéticas e precisas. E Letícia Lamas, abrindo os olhos para a maternidade real, além do anúncio de Nivea, da capa da Vogue que traz alguma celebridade que foi mãe depois dos 40 e que não tem rugas quase e que “se sente plena”. Nada contra essas heroínas, pessoalmente, mas elas pertencem ao ‘status quo’ agonizante. Elas estão apenas estampando o resultado bastante plástico de uma ‘ralação’ desumana nos bastidores. Será que queremos continuar ‘ralando’ tanto?

Eu sinto que este é um mundo mais preparado para ouvir outras e mais verdades. E temos polivozes em operação inesgotável. O coro grego do Facebook não me deixa mentir. E nem a matéria do Huffington Post UK que foi reproduzida pelo Brasil Post, outro dia, em que pais falam do arrependimento de terem tido filhos. Li alguns comentários certeiros sobre isso pouco ter a ver com sentimento, mas sim com as pressões impressionantes que homens e mulheres sofrem hoje enquanto pais e mães. Não podemos ser menos que perfeitos. Justo hoje, que somos muito mais que apenas chefes de família. Neste momento em que queremos ser a mudança que queremos ver no mundo. E para isso, não basta cuidar bem dos próprios filhos, embora tenha que começar por aí. Alguns não entenderam e reprimiram o arrependimento alheio como se fosse crime ou pecado colocar em dúvida a validade da experiência de criar um indivíduo. É a experiência mais radical da existência e é ao mesmo tempo ou justamente por isso, aquela sobre a qual pairam mais dúvidas. Pairam, mesmo, nunca param, vêm em cascatas, e a depender de outras dificuldades irmãs mas sobre as quais se pode falar com mais desapego. É como se tudo pudesse ser descartável, menos a maternidade. Não porque ela é sagrada mas porque ela deve ser definidora da mulher, muito mais que qualquer outro papel que ela desempenhe, e portanto, pautar a vida daquela mulher, deixando quase nenhuma margem para outras questões. Mas é justo arrepender-se. Homem se arrepende e pode pular para outro galho, quem sabe para ter filhos mais sadios e melhores. Mas mulher, não. Embora, haja peso colocado nos ombros dos caras, também.

Nunca quis ser mãe. Nunca até os 30/31. Cismei que queria. Que precisava formar a minha família. As circunstâncias da minha história eram/são as piores possíveis: órfã de pai e mãe, que foram maravilhosos mas se mandaram deste mundo aos 39 anos, roubada pela única tia (toda a herança da minha mãe, desde 2003 numa luta inglória na justiça contra a pior gente da pior espécie), sem avós maternos, com um avô paterno déspota do qual precisei me afastar e também sem minha avó paterna, que faleceu. A família do então marido também pequena e com a qual nunca me identifiquei. Maternidade solitária. As amigas foram regularmente na minha casa nos dois primeiros meses, depois, não mais. Tive uma jornada solitária em que a única pessoa que esteve ao meu lado tempo integral foi Daniel, pai da minha filha. Ele largou o emprego estável que tinha pra me apoiar. Isso teve um custo muito alto. Cobranças, frustrações, dificuldades intensas, vontade de voltar atrás. Uma vontade para aqueles que julgam IRRACIONAL (como qualquer vontade). Você simplesmente quer o melhor para seu filho ou filha e sabe que não está dando e isso dói muito. Mas no Instagram, só foto linda com filtro. Passeios bucólicos, roupinhas e objetos fofos, o quarto maravilhosamente decorado, a filha saudável e linda. As dificuldades vão sendo contornadas. Minha história é mais que se irritar com choros de madrugadas inteiras por cólica. E ainda assim, “só isso” já legitimaria a vontade de desistência. Todas passam por isso. A vida não é anúncio de cereal matinal.

Depois de seis meses amamentando (e sim, no começo, parece que vai arrebentar o corpo inteiro, mas é de uma glória incompreensível cumprir a tarefa), tem que voltar ao trabalho. Corporativo. É tudo que você não quer na vida. Um pesadelo. Tirar leite dentro de cabines do banheiro feminino enquanto ouve fofocas aguadas das mulheres do outro andar sobre coisas que não dizem respeito a qualquer realidade que vagamente interesse. O leite vai escasseando. Você foi arrancada da missão que lhe interessa. E que vai fazer diferença na sua vida, ao contrário das palestras motivacionais sobre resiliência. A resiliência não chega nem perto das qualidades que são exigidas para estar naquele banheiro espremendo os bicos dos peitos. Lágrimas e mais lágrimas se misturam ao leite. “It’s a man’s world”, você se toca. Mas você nunca precisou se perguntar sobre isso antes porque, afinal, você ouvia Madonna e você era uma felizarda que não desejava ter filhos, totalmente voltada para a carteira. Opa, carreira. Mas filhos se beneficiam incrivelmente de uma boa carteira. Digo, carreira. Paradoxal.

“Se a minha família estivesse viva, se minha família fosse completa, se o amor dos meus pais e as carreiras dos meus pais estivessem de pé… Tudo seria diferente”. Esses pensamentos me torturam desde antes de minha filha nascer. Minha vida é miseravelmente comparada à das outras, que estão cercadas de amor e ajuda. Mas todas estão sofrendo. Em graus diferentes e por motivos diferentes. “Keep your ego in check”, você pensa. A vida não é conto de fadas e nada que ensine mais sobre isso que filhos. Você tenta aprender com os relacionamentos amorosos que não é mas sempre parece que haverá outra chance de redenção. Filho é porrada. É consciência amplificada das suas limitações. Ainda assim, é preciso continuar. Tem o dia seguinte e o outro. As pequenas alegrias vão se somando. A transformação em criança é miraculosa. De repente, você está sentado ou sentada no restaurante e há diálogo com seu filho ou filha, uma descoberta das mais prazerosas nesta vida. O arrependimento parece, então, algo sinistro que jamais deveria voltar a visitar o peito, mas na próxima crise de nervos do seu filho por algo aparentemente banal, na próxima vez em que o estudo não estiver sendo levado a sério e aquela mensalidade de escola estiver latejando no seu bolso combalido, ele voltará, ah, sim, voltará. E você deverá verbalizá-lo, conectar-se com outros pais e mães, partilhar as experiências que nunca são devidamente partilhadas nas reuniões de condomínio ou de pais e mestres. Nunca até há algum tempo atrás. Tenho sentido mais liberdade de expressão até nestes corredores estreitos da classe média toda ‘certinha’, que precisa provar que está vivendo bem, com a sua grama mais verde e bem aparada que a do vizinho.

Numa saída à Feira da Glória, no domingo, quando o sol estoura as lentes dos óculos escuros e se mete entre a trama da palha do chapéu, vi um feirante usando uma camiseta que dizia “inconformados com este século”. Era coisa de banda ‘gospel’, mas poderia ser o uniforme de muita gente que está cansada da farsa do século 20 ser recontada com ares de “agora, vai”. O capitalismo já não deu certo. David Bowie já partiu deste mundo. “Ground control” para quem quer evadir esta ilusão remendada. Este século 21 tem que começar e vou ficar batendo nesta tecla até a mudança de tom chegar. Porque “viver tudo que há para viver” e “se permitir” deveriam ser mais que grito de guerra de juventude dourada Arpex-ilha da fantasia. Aquário nos ensina que, às vezes, é preciso subverter para que faça sentido ou simplesmente, deslocar-se com o vento, e não lutar contra ele como uma fera enjaulada e ferida.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail: leilah.accioly@gmail.com

Imagem: ‘Urania’s Mirror’, Sidney Hall

 

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×