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Sentimento do Mundo

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A batalha do tempo

Certa fez, ainda bem criança, pedi à minha mãe: “Por favor, não fica velha!” Subitamente, tinha me dado conta dos efeitos da passagem do tempo e, com isso, veio o medo de que ele levasse a beleza daquela que eu então considerava a mulher mais linda do mundo.

Minha mãe parece ter atendido ao meu apelo e, hoje, já uma senhora, continua bela, muito distante da imagem que outrora tínhamos de uma avó de dois netos. Aquele episódio na infância, no entanto, ficou marcado como o que foi talvez o meu primeiro espanto com o tempo.

Tenho uma relação um pouco complexa com ele. Uma mistura de euforia pelo presente, com uma boa dose de desapego do passado, e saudade de épocas que nunca vivi. Sou adepta do “meu tempo é hoje” (e creio que não houve tempo melhor para ser mulher neste mundo do que o atual), mas de vez em quando me pego romantizando algo que ficou para trás.

Dia desses, precisei esvaziar um pouco minha caixa de e-mails, que lotou. Em busca pelas mensagens com arquivos mais pesados, acabei fazendo uma inesperada viagem pelo meu passado recente. Espantava-me: passaram-se dez anos desde que entrei naquele emprego. Seis desde que terminei aquele relacionamento, e também que conheci aquela que hoje é uma grande amiga. Reportagens, viagens, parentes e amigos que se casaram, pessoas de quem já nem me lembrava: um mundo.

Um mar de flashbacks que me fez pensar em como a vida mudou em tão pouco tempo, e como está sempre mudando. Foi ontem que ganhei meu primeiro sobrinho. Conheci meu grande amor. Comecei um grande projeto, daqueles que dão mais sentido à vida. Mudei-me de casa — uma, duas, três, quatro vezes. Comecei uma (completamente) nova fase profissional.

Sim, um clichê. Está aí pelo menos desde a Grécia Antiga: Cronos, o senhor do Olimpo, aquele que engolia seus filhos. E eu, novamente criança, horrorrizada com a passagem dele, implacável, mas agora sem poder me agarrar à ilusão de que um pedido meu possa pará-lo, ou ao menos suavizar seus efeitos.

Só me despeço dessa angústia por alguns instantes quando a porta se abre, é o meu amado de volta à casa. De repente, os relógios já não se movem. Como na teoria de Einstein, não corro (contra o tempo, ou com ele) e, portanto, estou mais jovem. Neste momento, tenho certeza de que o perverso Cronos perdeu sua batalha.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: www.wall.alphacoders.com

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