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Engole o Choro

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Dois tá bom pra quem?

Eu queria mais um filho. É, eu sei que eu reclamo e que a rotina com criança de fato não é bolinho, mas, gente, eu queria. E não admito de jeito nenhum que me classifiquem de louca por isso. Aliás, não consigo entender por que isso espanta tanta gente.

Olha, vou te falar, amiga, que já ouvi de um tudo nessa vida. Que hoje em dia não dá pra ter muito filho porque a vida moderna não permite, que quem tem um casal não precisa mais “se preocupar” com isso e já pode fechar a fábrica (deuses, como eu odeio essa expressão!), que ter muito filho (quem decide quanto é muito?) é uma irresponsabilidade com o planeta, que não é viável pra uma família classe média sustentar mais de duas crianças numa boa escola, além do plano de saúde, que quando eu acordar pro mundo eu vou perceber que dois filhos está *ótimo* pra mim.

Minha vontade real e sincera é mandar todas essas pessoas se foderem, sem pedir perdão pela expressão. Quem é você pra se sentir no direito de me dizer o que é bom ou não pra MINHA vida? Mas eu já vi que isso virou uma regra, e ai de quem não quiser andar na linha!

Eu queria muito entender quem foi que fez essa conta tão racional, porque nego vem com mil argumentos, desde o seu desgaste físico e mental até quantas cadeirinhas cabem confortavelmente num carro. Sério, galera? Porque se for pra ser racional, a gente nem tem filho nunca, né? O mundo já tem gente demais, já tá faltando água, ninguém gosta de ficar sem dormir, de andar em cima de Lego, de negociar um banho…  sabe? Mas o que eu quero saber mesmo é em que momento da história do mundo isso virou um assunto que as pessoas se julgam no direito de discutir. E não estou falando das pessoas envolvidas diretamente no tema (leia-se: quem vai fazer e criar). É TODO MUNDO opinando, até seu chefe! Ah, vá cagar!

Eu, por motivos de caráter interno, não terei mais filhos — pelo menos é o que se desenha. E, putaquepariu, nunca recebi tantos parabéns. “Isso mesmo, faz você muito bem, ainda mais que já tem um casal, família perfeita, já pode encerrar, pra você tá ótimo.” As pessoas parece que ficam mais felizes com isso do que quando eu fiquei grávida. E, quando respondo “é, mas eu queria mais…”,  eu sou declaradamente tachada de maluca.

Eu não sou maluca, nem milionária, nem avessa às condições climático-econômicas. Eu só gosto, apesar de todos os pesares, que não são poucos, de ser mãe. Posso? E como não fiz pedidos pra 2016, segue um primeiro: menos patrulha da maternidade perfeita, que cabe no bolso, no colo ou no carro, e mais respeito pela mãe. Não precisa nem se esforçar pra ver que eu não tô pedindo muito.

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

Imagem: ‘Portrait of a young woman with three children’, de Wallerant-Vaillant.

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