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Prisma

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O presente é uma mixtape

O individualismo começa a nunca mais poder ser o mesmo. Será que é isso que a morte de David Bowie veio nos dizer? E esta teoria da conspiração a la ‘Paul is dead’ de que Kanye West, arauto da filosofia ‘I am a god’ e, portanto, do individualismo capitalista, teria sido apontado por Bowie como seu sucessor na linhagem de ‘popstars’ que acendem uma vela para o gosto inofensivo das massas e outra pro diabo da invencionice e ousadia, só acrescenta camadas de drama de veludo drapeado a este teatro do comportamento humano que a música pop encena tão bem. Ou encenava. Não sei se este mundo superpopuloso e poluído de tantas ideias tem espaço para um Kanye West. Os pés dos gigantes vêm sendo quebrados. Ademais, Kanye West vem sendo um só há muito tempo e eu nem sei mais se as pessoas adoravam um único Bowie. As pessoas adoravam um personagem encarnado no homem David Jones, o personagem dos personagens infinitos. Essa aparente oposição entre West e East me faz pensar que um mundo mais colaborativo começa a esboçar seu nascimento depois que o século 20 tomou o rumo da roça do passado em sua espaçonave brilhante, no dia 10 de janeiro. Chega de monopólios, chega de autoria. Há uma crise da mediação na cultura, como eu disse na coluna anterior, mas há também uma crise de autoria, parece. Os que se acham mais espertos dizem que é crise da crítica especializada. Quase concordo com eles, porque tenho visão crítica, mas também crio e creio, e, por isso, desisto de concordar. Acho preguiçoso ser pessimista demais, embora tome grandes doses de realismo sem cerimônia, e o real é gago, sabemos. O fato é que não há crítica especializada quando a autoria se dissipa. A ideia de que um douto vai apontar o que é bom porque se especializou naquilo que algum artista supremo faz melhor e sabe reconhecer e atribuir valor a isso é reduzida a pó quando não há mais artistas supremos. Em vez disso, há um fluxo constante de pequenos artistas recortando e colando o que já foi feito. A crítica aponta onde estão os recortes e os restos de cola aparente, mas não pode mais ser tão capaz assim de definir o que vem a ser supremacia nos dias de hoje. O mundo está descentralizado, enfim. Você não chega a sentir uma brisa de conforto por isso? Para que ocupar TANTO espaço?

Amigos lamentam a morte da ‘mixtape’. Grosseiramente, uma ‘mixtape’ é uma coletânea de canções que pode ser ditada por um estado de espírito, afinidade estilística ou por um conceito qualquer. Nos anos 1980, era comum haver algum rei ou rainha (mais incomum) do pedaço que gravava uma fita cassete com uma porção de músicas misturadas para ouvir no ‘walkman’ ou para dar a um amigo(a) ou pretendente. Naquela época, extrair uma música de um álbum, uma espécie de portfólio do autor — ou de livro, mais especificamente, como um romance —, significava tirá-la de todo um contexto para enfiá-la no seu contexto. Era uma desvirtuação, de certa forma, já que o álbum era uma entidade sagrada, ouvida de cabo a rabo, com necessidade de trocar o lado para continuar recebendo a mensagem. Hoje, as músicas estão por aí, tocando no fundo da vida das pessoas, sem um ritual, e a ‘mixtape’ está mais viva do que nunca, mas de um outro jeito, aparentemente como a substituta do álbum, ou seja, com vida própria, mostrando que a autoria hoje é muito mais compartilhada ou que se diluiu, mesmo. Além disso, aquela figura de um detentor único do conhecimento musical, que gravava sua amostragem de novidades quentes às quais poucos tinham acesso, virou um fóssil. Meus amigos choram, portanto, por um passado romântico em que fitas analógicas rodavam precariamente e capas caseiras eram especialmente confeccionadas para determinadas ocasiões por esses ases do conhecimento musical, ignorando a customização digital das ‘mixtapes’ contemporâneas, e entristecidos pela noção de que está massificada a ideologia do faça-você-mesmo. Um dos maiores desafios da nossa geração, que hoje beira os 40, é transmutar esse rancor pela rebeldia/reatividade do punk, com a qual conviveu como sendo tudo de mais especial e revolucionário, estar, aos poucos, se tornando o ‘establishment’. 

Pois as ‘mixtapes’ estão vivas, vivíssimas, em tempos de decadência irrefutável do formato álbum. Elas estão no Soundcloud, no You Tube, em todas as festinhas. Elas não são mais um segredo dos fazedores de fitinha k7, por mais que a fita cassete insista em tentar voltar do mundo dos mortos, provando que os jovens de hoje assistem ao passado como um programa de TV nesta internet que brinca de ser o futuro, atestando que a nostalgia virou um negócio rentável. Pelo contrário, as ‘mixtapes’ estão nas mãos da massa e um ‘mixtapeiro’ pode ser visto como um artista, hoje, já que a massa virou consumidora de uma ‘mixtape’ caudalosa de tudo que já morreu do século 20 e que insiste em assombrar o século 21 que ainda não começou. Já aquela ‘mixtape’ do melhor amigo do colégio, feita com novidade fresca que só ele conhecia, como eu falava ali em cima, está bem mais difícil de conseguir no mercado. Hoje, tudo se espalha muito rápido. A nostalgia, na verdade, é mais de ter um amigo que apresente tudo de valioso que o ‘mainstream’ nega que se conheça, furando esse bloqueio e conseguindo chegar aos píncaros da experiência do-it-yourself com uma singela fita cassete de capa xerocada. Impossível não lembrar do meu pai e seu “estúdio” caseiro ao qual ele dava o nome de White and Purple’s, que vinha a ser apenas o seu equipamento Technics e Marrantz ocupando um generoso pedaço de parede do seu quarto, quase como uma torre de comando interestelar, com todas aquelas luzinhas verdes e vermelhas acesas. Hoje, o que é o ‘mainstream’, exatamente, e o que ele está negando, se está tudo ao seu alcance a um clique de distância somente?

Todos os dias, peço que o século 21 comece. É minha maior oração. Quero o pós-capitalismo, o resgate do real sentido de comunidade e de tribo, o compartilhamento, economia colaborativa. Sou uma sonhadora e quero crer que um mundo em que todos estão fazendo por si mesmos resulta, paradoxalmente, em menos individualismo. Defendo que o romantismo sempre pode usar novos trajes e que o formato virtual-digital não abafa (sem trocadilho com fitas cassete, conhecidas por seu som abafado) a capacidade de amar das pessoas que tomam seu tempo para fazer ‘mixtapes’, mesmo que não haja mais aquelas deliciosas “capinhas” únicas. Hoje, não há maior prova de amor que doar seu tempo para algo que não lhe renderá alguma coisa em troca. Também por isso, a ‘mixtape’ não só sobrevive, como ganha novo sentido. Acho que ela, em sua maneira democratizada e amplificada pelos compartilhamentos, e em sua maneira quase descaracterizada, montada como um Frankenstein, com maiores possibilidades de interferência leiga no produto original e cheia de ‘mash-ups’, é um dos retratos de uma comunidade já mais colaborativa que aquela formada por alguns indivíduos donos do conhecimento que gravavam suas fitas fechadas para doutrinar amigos e conhecidos. Hoje, as coisas podem se espalhar realmente rápido. Isso muda a dinâmica. E a ausência do design gráfico não quer dizer que não haja design na coisa toda.O que importa hoje é o patchwork, a popular colcha de retalhos. Quem tritura os pedaços da cultura embalada pela internet e vende-a em mensagens rápidas como um trovão no verão. No hip hop, é fácil achar que você está ouvindo o novo álbum do artista, e não a sua ‘mixtape’. Poderia citar o Kid Cudi, que semi-estourou em 2009 com “Day ‘N’ Nite” e que produzia ‘mixtapes’ loucamente, e eu nunca sabia o que era “dele” e o que não era, mas prefiro focar no último susto que tomei, com Childish Gambino, que soltou o entre o brilhante e o cansativo “Because the internet”, seu segundo álbum, e eu achei que se tratava de uma ‘mixtape’. É tudo por causa da internet, como ele bem sabe.

É como o Snapchat. Quem pode dizer que não há amor naquela volatilidade toda? É um elogio dos mais altos ao cotidiano e sua banalidade. Há uma crise também do armazenamento. Principalmente, eu diria. O Snapchat destrói o seu dia. Já foi. Ele é a antissacralização desse presente contínuo que nos vemos obrigados a estampar nas linhas do tempo. Já perdemos a linha e não sabemos mais onde enfiamos o tempo. O Snapchat é a antimemória. Um estado de presente que jamais vira passado, porque não fica registrado. Mais ou menos como a TV dos primeiros tempos, em que não havia o ‘videotape’ e tudo era ao vivo, uma única chance. Sem edição. Especialistas em mídias sociais debatem sobre a perda de terreno do Facebook para o Snapchat, porque o último captou essa necessidade de desmaterialização da lembrança, de não deixar rastro, de não haver uma linha do tempo reconhecível e organizada. O Facebook marcha mesmo na contramão, mais do que nunca, com aqueles seus lembretes diários do que foi postado em anos anteriores, fazendo o trabalho inverso, de hipervalorização da memória. Mas quem grava ‘mixtape’ hoje como ela foi incialmente concebida? Talvez ninguém. Se o armazenamento está sendo repelido até nos meios digitais, em que se é, teoricamente, livre para gastar espaço, que dirá na vida de papel. E, mais do que isso, armazenar canções, nem mesmo no computador parece ser uma opção razoável. O mundo em trânsito constante e em transe pede serviços de ‘streaming’, em que todos têm ao seu alcance confeccionar sua ‘mixtape’, mas ‘on the run’, enquanto a vida rola. Sem gravação, sem enrolar a fita. A própria noção de ‘tape’, de gravação, está desconstruída, portanto. O que existe agora é uma linha contínua de retalhos de músicas sendo reprocessados no que eu chamo de “fluidezes musicais”. Trilhas em vez de canções. Reconheço que também há uma crise da canção em curso, e sinto o peso de uma certa velhice nisso, porque eu mesma não sei o que é viver sem canções, mas estou curiosa e excitada pelo que virá. Talvez seja possível habitar costuras musicais invisíveis sem os limites tão confinantes das canções. Ainda assim, sem dúvida, dói perder a identificação com aqueles pedaços tão individuais e idiossincráticos de artistas que viviam para passar sua mensagem na forma de canções. É terrível perder a estrutura que se conhece.

Mas como as canções não seriam afetadas por esta crise generalizada que estamos vivenciando? Estamos perto do ponto culminante de um processo iniciado em 2010 e que começou a ficar mais nítido e pesado em 2012. De certa forma, o mundo acabou em 2012, mesmo. As pessoas estão enxergando o mundo e suas próprias vidas e relações por novos ângulos, e o resultado é esta demolição, esta Torre Partida. O mundo vai jogando fora as crenças patriarcais, brancas, europeias, monoteístas, monotemáticas, acorda para questionar o capital, a destruição do planeta, a escassez de recursos, o neoliberalismo feroz do mercado financeiro, o excesso de poder midiático. Nascem movimentos, há um clamor por compartilhamento de ideias e experiências, compra-se menos, perdem-se empregos, governos são enfrentados (lembrar a primavera de 2011), a indiferença da Europa é escancarada, EUA têm um presidente negro, imigrante e progressista, o trabalho começa a ser visto não como algo que dignifica o homem, mas sim que o esmaga e rouba de si a potência criativa. Começa-se a falar em economia criativa com mais afinco. O design se espraia para o pensamento e a experiência, abandonando progressivamente a ideia de objetos num mundo saturado deles. Discute-se o que fazer com o lixo, o que fazer com a vida. A internet integra-se à sociedade de forma cada vez mais visceral, e estamos quase todos conectados o tempo todo. Era de Aquário em seu alvorecer. Não sem sofrimento, não sem um senso de que a hiperconexão pode roubar a espontaneidade, o contato íntimo, as trocas e até mesmo as nossas canções. São muitas rupturas seguidas de muitos despertares, mas não há como voltar atrás. O homem anseia pelo casamento perfeito de natureza e cultura/tecnologia mais uma vez, e parece mais próximo disso. O que nós nos tornamos na era da internet? ‘Performers’ de nós mesmos ou profissionais do nosso ‘lifestyle’. As gostosas e os gostosos fitness com seus pratos de comida saudável e sucos detox, eternamente desintoxicando-se com sucos verdes, os e as intelectuais de post de Facebook com suas entrincheiradas opiniões baseadas na leitura assídua de manchetes, por exemplo. Se, antes, a performance era coisa de artista, hoje, ela também encontra território e expressão na vida comum dos sujeitos em mosaicos “snapchateados” e ‘mixtapes’ anônimas despejadas na internet, sem qualquer reivindicação de autoria, mas com uma noção bem consistente da urgência do presente, não importando qual a exata origem daquela grande canção que regurgitamos sem parar e que ainda pertence ao século 20.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: notnicolajames.

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