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Sentimento do Mundo

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Com fantasia

Saio de casa e, na rua, os vestígios do bloco que passara pouco antes: serpetinas e confetes pelo chão, algumas latas, purpurina. A cidade, de cinza, ficou colorida. A música ainda soa, ao longe, como num filme antigo. Tudo parece passar em câmera lenta, e eu sou de novo uma menina fantasiada de caubói na Vinte e Oito de Setembro, em Vila Isabel, ao lado do meu irmão (que usa a mesma fantasia), o olhar fascinado com tanta gente e festa.

Não sou das foliãs mais animadas, daquelas que já de manhã estão a postos, bebida na mão, marchinhas e sambas na ponta da língua, e assim vão até de noite.  Mas, nos últimos anos, acabei morando em lugares onde não era possível evitar o carnaval. Está certo que hoje em dia é praticamente impossível não ter um bloco perto de casa, só que, de repente, não mais que de repente, eu me vi caindo dentro da folia, conforme o rei mandou.

Certa vez, tendo chegado tarde na véspera e com um plantão no trabalho à tarde, até tentei dormir enquanto um bloco passava, mas, diante do coro debaixo da minha janela — “ô, ô, ô, Aurora…” — acabei me rendendo e me juntando à multidão. O mesmo carnaval me voltaria à memória meses depois, quando, ao pegar um sapato, vi que havia confetes dentro dele. Aqueles confetes eram meu tempo reencontrado.

Como uma metáfora da própria folia, a purpurina, essa danada, não quer mais sair. É como se ela fosse parte desse estado em suspensão em que nos encontramos: tudo pode, inclusive dançar homem com homem e mulher com mulher, e de repente ninguém se sente ofendido por ver hordas de homens maquiados, de peruca, usando vestido e dizendo gracinhas para outros homens. Tempos mágicos, esses.

No mercado, um super-herói tenta alcançar um pão integral, enquanto uma noiva renova o estoque de cerveja. Esses personagens, assim, em meio à vida cotidiana, me fazem pensar em quando éramos crianças e muitas vezes ficávamos o dia todo com uma fantasia, brincando de ser princesa ou bicho ou qualquer outra coisa que desse vontade. Quisera eu todos os dias fossem como esses: que cada um pudesse simplesmente ser o que quisesse. Enquanto não chega a quarta-feira, vou fingir que é assim.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

 

Imagem: ‘Le Vidé du Carnaval’, Paule Charpentier

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