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Notas Perfumadas

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Gente que conversa com planta

“Parecem ausentes, como blindadas no seu sonho químico. Não têm sentidos. Mas não é fechamento: ninguém mais que elas adere ao mundo ao seu redor. Estão perenemente, constantemente expostas ao mundo e ao próprio ambiente. Não precisam de órgãos de sentidos porque — à diferença da maioria dos animais superiores, não têm uma relação seletiva com o mundo ao seu redor. São a vida em exposição global, em continuidade absoluta, em comunhão absoluta com aquilo que as circunda. Por isso não precisam mover-se. Não mover-se significa aderir completamente àquilo que acontece e ao que as rodeia. Uma planta não é separável do mundo que a recebe. É a forma mais intensa e paradigmática do ser-no-mundo. ”

Emanuele Coccia

 

O artigo de hoje é rebento de minha singular fascinação pelas plantas e da interação entre elas e nós, os humanos. Se eu te der um pequeno frasco com o óleo aromático de uma planta e pedir para você cheirar, provavelmente você não conseguirá identifica-la, mas, em um inalar um pouco mais demorado e atento, você descreverá a medicina da mesma. As sensações invocadas pelas plantas, através do olfato, revelam suas capacidades de nos curar emocionalmente. Você pode não conseguir identificar, apenas pelo cheiro, que um determinado frasco carrega óleo de sândalo, mas saberá transcrever, em uma linguagem muito poética, inclusive, que há algo sobre “autoperdão” e “busca interior” nesse “cheiro tão silencioso”. Entres as aspas, as descrições mais ouvidas por mim, e elas se repetem entre os indivíduos, cada um em sua própria linguagem, com suas histórias e memórias, dores e amores. Gostar do aroma de uma planta pode mostrar o caminho de uma cura. Não gostar amplia ainda mais essa possibilidade, pois o incômodo revela que tal planta age em questões estruturais nas quais você tem medo de tocar e, por isso, apresenta repulsa ao cheiro. Sentir “cheiro de mofo” na maravilhosa rosa pode indicar mágoa guardada há anos. “Cheiro de metal” na flor de ylang-ylang pode ser falta de flexibilidade, excesso de rigidez e de autocobrança, “aroma de morte” ou de “lugar fechado” no jasmim pode indicar uma mulher que sofreu agressão física ou psicológica ou que foi molestada na infância.

As plantas estão disponíveis para nos sentir e curar, não é à toa que a maioria dos alopáticos é de sintetizações dos vegetais. Elas carregam em si a cura e agem em um nível emocional muito antes das doenças alcançarem nossos corpos físicos. A medicina popular aprende sobre as plantas de forma empírica, utilizando-as repetidas vezes, e associando-as à melhora da mente (doenças da alma) e do organismo, passando essas informações de gerações para gerações. Dessa forma, podemos supor que o conhecimento do homem sobre o campo de cura vegetal é transgeracional e integra o inconsciente coletivo.

Assim, mesmo que você nunca tenha tido muito contato ou aproximação com vegetais, ou que tenha crescido em um apartamento no meio urbano, ao inalar o óleo de uma planta, conseguirá sentir onde ela age, o que provoca, onde dói ou causa alegria. É como uma conversa entre dois mundos diferentes, mas completamente conectados. Daí que a gente entende que aquele vizinho conversando com as orquídeas ou sua mãe falando com a samambaia pode não ser tão estranho assim e que aquela galera que abraça árvore pode não ser louca, mas apenas ter formatado novas concepções “fora da caixinha”. Se dê uma chance e comece a cheirar os pés de alecrim ou descanse por alguns minutos debaixo de um jasmim-manga: talvez, você descubra que viva numa “normose” ou “normatização” insuportável só travando “conversas” com seres da sua espécie ou que, possivelmente, a medicina (ocidental) ainda não saiba de tanta coisa assim.

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

Imagem: thespiritscience.net

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