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Engole o Choro

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Tá doida. Tá doida?

Eu acho um pouco estranho, um pouco engraçado, mas muitas pessoas, que me conhecem ou não, acabam sempre concordando que eu não “nasci para ser mãe”. Desse grupo, ouço muito:

— Quem diria que você (Insira aqui qualquer ação da rotina de uma mãe que você pode imaginar. Qualquer uma mesmo).

— VOCÊ tem filho? Nossa, nunca imaginei…

— DOOOOOOIS?

Tem um outro pessoal (aí geralmente é família, mas não só) que me faz sentir muito da fodona, porque eu tenho dois filhos, moro longe da família, não tenho empregada e trabalho fora. Aí é:

— Nossa, não sei como você consegue!

— Você é muito guerreira.

— Só você mesmo pra dar conta de tanta coisa (???)!

Então, meus amores, para não dizerem que eu dou preferência pra um ou pra outro, resolvi desapontar todos vocês de uma vez só e sair do meu emprego. Pois é. Não, não foi uma decisão fácil, e sim, estava e estou com muitas dúvidas ainda, mas já foi.

Sabe, tem coisas que parecem que precisam ser. E elas ficam bem mais óbvias quando, numa manhã, antes de ir pra escola, seu filho decide que ele é você e começa a gritar: “VAMOS PRA ESCOLA. VOCÊ TÁ ME ATRASANDO!”. Ou quando, já fora de casa, ele pede pra voltar, pra ir ao banheiro e, sem que você fale nada, só de olhar pra sua cara, ele te pede desculpa. Pois é. E, se você não percebeu a gravidade disso, eu sim.

Não é fácil, e acabou de acontecer, então nem posso imaginar como vai ser. Mas o certo é que não tive filho pra ser mãe só de fim de semana e olhe lá. Não quero acordar torcendo pra eles continuarem dormindo até eu terminar de arrumar tudo, não quero chegar em casa torcendo pra eles dormirem logo, pra eu poder descansar. Não quero estar sempre cansada. Não quero mais. Eles não merecem, nem eu. Eu não tive filho pra cumprir cota. Eu quis ser mãe. E o meu “ser mãe” passa bem longe do que eu estava vivendo.

(Em tempo: não que eu ache que precise me justificar aqui, mas enfim… Não pretendo parar de trabalhar, mas essa vida de escritório, de 8h30 às 17h30, de correria de manhã — e o dia inteiro, pra poder sair na hora — e de, no fim das contas, não conseguir me dedicar a nada de fato, essa não funciona mais aqui. Pra mim, chegou a hora de buscar outros caminhos.)

Mas, daí, é claro que todo mundo tem uma mensagem pra passar. E, à medida que fui comunicando a minha decisão a quem ela interessava, ouvi todo tipo de coisa:

— Parabéns, é uma decisão muito nobre (ai, obrigada).

— Você é louca, vai ver só (pode crer).

— Acho que você tá certa (brigada, miga).

— Acho que você não vai aguentar (veremos).

— Tem que tomar cuidado pra não se anular (OK, obrigada pela dica).

 Toda mulher acaba tomando essa decisão mesmo (oi?).

Bem ou mal, todas me fazem pensar. Todas martelam na minha cabeça. Pode ser que eu seja louca, o tempo dirá. De qualquer forma, uma coisa que eu ouvi já valeu.

– Filho, agora a mamãe vai sempre levar você pra natação.

– Isso vai ser muuuuuito legal. sim, senhor!

Bom, agora, com licença, porque preciso fugir de um meteoro.

Beijos

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

 

* Publicada originalmente no blog Sinceramente, gente…

Imagem: www.thescarymarys.blogspot.com.br

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