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Prisma

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Todo Carnaval tem seus meios

Pensei muito durante janeiro se deveria festejar Momo este ano. Com os bolsos vazios, cri-cri-crise – crise econômica, do jornalismo, de valores, do Rio de Janeiro – e lendo relatos castradores de pessoas que admiro sobre o quão absurdo seria participar dos folguedos em meio a tanta lama, num país paralisado como num coma induzido pelas forças políticas de todo o sempre hereditário desta nossa grande capitania, fiquei realmente me perguntando se valeria a pena me filiar ao bundalelê que define o Carnaval brasyleiro. Eu nunca fui exatamente de bundalelê, aliás. Tudo pra mim tem que ter muito motivo e razão de ser. Por outro lado, estou mais perto do ‘glitter’ durante todo o ano porque tenho alma de vedete ou “encosto de chacrete”, como dizia a velha comunidade do Orkut. Daí, que perdida entre meus botões naturalmente dourados de purpurina, lembrei durante minha reflexão de onde estava no Carnaval do ano passado e viajei muito, como de costume, até chegar à conclusão de que o Carnaval 2016 deveria entrar, pelo menos, pra minha própria história, por revelar um reencontro com a minha vocação para a criação. E quem sabe não seja assim pra você também, que está aí amuado ou amuada com as grandes dificuldades da sua vida neste (mais um) momento crítico no Brasyl. Nunca senti tanto na pele que esta festa da carne pode ser um grande encorajador de posições políticas e práticas cotidianas que têm a ver com ocupar os espaços públicos contra o que é ditado institucionalmente, por mais que o Carnaval de rua seja uma festa oficializada e em grande parte, já controlada pelas esferas do poder.

Em 2015, eu ainda era empregada de uma grande corporação e não tinha tempo para detidas excursões ao Saara, mas queria fazer como minhas amigas do trabalho mais jovens que eu e mergulhar nas Caçulas e Babadões do centro comercial do Rio de Janeiro atrás de adereços para compor fantasias para os blocos de rua. Alguma coisa me incomodava em repetir a banalidade de enfermeiras, diabinhas, anjinhas, mulheres-gato, palhaças, garotas-táxi, Minnies, mas fui em frente sem poder pensar muito, sabendo que só teria o intervalo do almoço de exatos 60 minutos para juntar uns trapos com uns adornos no labiríntico comércio popular e tradicional do Rio. Cumpri a árdua e ardente missão sob sol escarlate e montei a palhaça, a Mulher Gato, a cigana e a mágica, meu único suspiro criativo daquele Carnaval, nascido mais do que eu já tinha em casa que dos restos, literalmente, que catei numa cesta da Caçula com a etiqueta “coisas do ano passado”. Eram resquícios de fantasias desmembradas, uma queima de estoque improvisada e foi o que me salvou naquela correria agonizante e esfomeada de funcionária corporativa.

Hoje, devidamente sem tempo assim como naquela época, talvez com menos tempo ainda, mas com liberdade para co-ordená-lo e organizá-lo, percebo que comprei minhas fantasias e adereços deste ano também nas brechas (e na semana que precede o Carnaval!), mas que minha inventividade havia ressurgido das cinzas de Major Tom, justamente porque não me encontro mais confinada numa corporação. A maioria dos meus personagens únicos fiz nascer em casa e das minhas próprias mãos. Fazer muito com pouco, que, ironicamente, era uma das mensagens motivacionais da empresa quando eu passava meus últimos dias nela, estava voltando a ser o meu mote pessoal, sem uma conta bancária bem fornida. Vi nisso um dos sinais mais eloquentes de que seria bem-vinda a comemoração este ano, sim. Porque me reencontrei com meu talento nato para transformar parcos recursos em beleza, o que é, aliás, a plataforma do meu negócio em design de interiores, o Movendo. Beleza pura, dinheiro não.

Carnaval, afinal, combina com estar sem lenço, sem documento, sem nada no bolso ou nas mãos. Deixei-me levar pelo cordão, mesmo entendendo que o Carnaval deste ano possa soar como um acinte. Que é, de certa forma, aviltante, sim, que comemoremos e pulemos esquindô lelê quando o país se desfaz num clima fascista-evangelizador-destruidor de recursos, vítima de inflação escorchante e juros altíssimos, desemprego e estreiteza orçamentária máxima, carente de qualquer linha ideológica que represente um salto (ainda que no escuro). O Brasyl vem comendo nossa alma. É mais que devorar sonhos, é nos regurgitar numa sarjeta sem fim, ao contrário do Carnaval que sempre chega ao final. Contudo, também entendi que há como abrir uma avenida para deixar a alegria passar sem que bombas de gás e sprays de pimenta corroam nossas fantasias de igualdade e liberdade. “A alegria é a prova dos novos”, adaptou genialmente o adágio modernista oswaldiano “a alegria é a prova dos nove”, o pós-moderno autor Eduardo Logullo, elogiando a ocupação do espaço público pela juventude numa simétrica oposição ao texto que a jornalista Cora Ronái publicou no seu perfil no Facebook, em que lamenta estar velha pra gostar deste Carnaval que está pintando, segundo ela, com muita sujeira, moral e de detritos. Essa avenida que podemos abrir está, conforme ecoam as reivindicações desde junho de 2013, nas ruas, que não foram compradas (ainda) pelos poderes tão zelosos que nos privam de ir e vir de maneiras bem mais sutis o ano inteiro. E também está nos desfiles das escolas de samba empobrecidas, que substituíram as penas de animais por penas sintéticas, em 2016, inscrevendo, à força, a nova tradição século 21 que manda que não torturemos os animais.

Neste Carnaval não haverá desperdício de lantejoulas nos armários da classe média nem da integridade dos animais, ave! Na iminência de uma festa olímpica, somos atacados por vírus obscuros vindos de mosquitos salientes na nossa sina de grande sertão veredas tropicais. Aliás, alguns se fantasiam de mosquito e a patrulha problematizadora contra-ataca. Vestir-se de predador é catarse, é processamento da dor infligida, é situação histórica, é personificar um problema e tornar visível numa festa o quanto estamos oprimidos por esse problema. Os grandes assuntos sempre foram parar na rua no Carnaval, momento em que o cotidiano é interrompido também para que nos olhemos num espelho-lupa que nos aumenta e entrega nossas falhas, mazelas e recalques. Daqui a 50 anos, os mosquitos dos blocos estarão documentados e farão parte de um arsenal de imagens para que nos lembremos da epidemia. Carnaval não é só piada, é política e na arena da rua, menos picadeiro que nos domínios e palácios oficiais, e quem não enxerga isso tem a visão bem estreita ou contaminada pelos óculos convenientes dos salões. Por outro lado, os fazedores de maracutaia, ao menos, nunca foram tão exibidos em praça pública e não estamos mais a fim de jogar confetes sobre eles.

Com tudo isso, entendo que o Carnaval deste ano não é para qualquer um. O verão é o fim da picada, é desoladora a nossa wesley-safadeza, é um país estagnado, perdido, um país-meme-do-travolta, enquanto vamos nos debatendo entre rezas para que os preços abaixem. Mas é justo nestes carnavais de anos convulsivos e miseráveis que descobrimos uma nova chama e saímos assumindo nossos ratos e urubus. Larguem nossas fantasias, tecnocratas que inventam fontes de petróleo e glórias da Guanabara! Nestes carnavais de Dez Mandamentos ‘sold out fake’, a umbanda avança como no desfile do Salgueiro com seus exus destrancando as ruas. É hora de apresentar enredos sobre nossas feridas e histórias menos cotadas. Não é tempo de homenagens a personagens culturais seguros, de elogios à nossa exuberância natural, de heroísmo futebolístico, estamos estirados e surrados sobre o campo do Maracanã. E eu acho essa troca de posição de eterno atacante malandro que vai driblando os adversários na malemolência até chegar ao gol para a do zagueiro raçudo que disputa cada bola como se fosse a bola do jogo, muito bem-vinda, neste momento de retranca conceitual. Estamos revendo nossas posições em muitos aspectos e períodos de revisionismo histórico, quando bem cumpridos, podem resultar em renovadoras tomadas de consciência que modificam o futuro.

Nessa pausa para a revisão, não surgem só os mosquitos, surge também “a branca maluca”, uma fantasia que só poderia ser vestida em 2016 e que já faz este Carnaval valer, por si só. O alvo da subversão da foliã, que viralizou com seu kit Revoltados OnLine composto por panela (pra bater em manifestação de janela, que não ocupa as ruas e não interfere no sagrado direito de ir e vir #ironia), boné e camisa do Brasyl-CBF, peruca loura e smartphone pra fazer ‘selfie’, foi uma das personagens mais típicas do Carnaval, a Nega Maluca, surgida em 1950 e arauto da visão século 20 sobre a mulher e especialmente, a mulher negra. A história por trás da marchinha – que, aliás, só uma mulher aceitou gravar, na época, depois de ter sido recusada por Luiz Gonzaga e Francisco Alves – é bem interessante: Everaldo Ruy, um dos autores, tinha visto uma moça negra chegar num bar avisando a um dos frequentadores que seu filho era também dele e o rapaz, que jogava sinuca, se recusou a recebê-la. Nada mais legítimo no Brasyl que recusar criança, que o diga o grande rei do futebol nacional, não é mesmo? Pois bem, o corriqueiro incidente virou música e nada mais natural que chamar a mãe reclamante de “maluca”. Podemos constatar alguns avanços após 66 anos. Além de a branca também poder ser maluca, isso não se dá por causa de uma história de amor malsucedida ou um filho não planejado, mas por uma posição política mal formulada e caricatural da mulher parodiada. E avançamos mais além, se pensarmos que, se aquela triste história de bar, em 1950, virou marchinha-piadinha, já em 2016, uma outra história de bar, igualmente triste, daquele na Vila Madalena onde duas moças foram vítimas de agressão e assédio masculino e nem seus donos, nem a polícia quiserem colaborar para que o tema fosse tratado com a devida seriedade, em vez de render marchinha, rendeu foi o fechamento do estabelecimento. Carnaval do barulho esse em que as fantasias estão sendo rasgadas, as plumas ameaçadas de extinção e as mulheres ocupando seus lugares.

Na minha viagem até a conclusão de que seria válido pular este Carnaval, compreendi que seria ridículo, patético e idiota transformar Carnaval em dilema. “Carnavalizar ou não, eis a questão”, é uma indagação existencial que simplesmente não cabe na minha vida, nem nesta nossa vida coletiva brasyleira de quarta-feira de cinzas sempiterna, em que a sina é desafiar as botinas, os assaltos, as propinas, os sobressaltos, as balas perdidas, as CPIs, as crises lucrativas para bancos, os black blocs cansados, os desempregados desmotivados, os boçais que mandam em nós porque são proativos e resilientes em conchavo, com muita cor na categoria originalidade. Desafiar isso tudo com a carne dura, a cultura, a elegância, a formosura, a pele escura. Dinheiro não. Porque dos bolsos vazios saem as mais impressionantes fantasias, é fato. E não se trata de ufanismo para vender o conceito de pobreza criativa, gambiarra rica, favela chique, não. Isso já caiu por terra, além de já nunca ter sido. Trata-se da verdade de que o homem cria onde não recreia, produz onde não sobra. Pouca matéria-prima disponível leva a melhores elaborações sobre o que já se tem. É só pensar no mundo que floresceu pós-Segunda Guerra. Escassez também pode ser uma bela aliada. Aprendizado da cabra caprina armazenadora de energia e recursos e estamos tendo um Carnaval em pleno ‘stellium’ capricorniano. Mas é claro que não advogo pela escassez. Sou pela abundância, pela Cornucópia, só que essa abundância deve brotar da inteligência com fome de realização e não da farra devoradora.

A diversão a custo (quase) zero dos blocos neste nosso deserto das oportunidades atrai gente querendo samba, suor e cerveja como no mais plácido sempre do entra e sai dos anos no terceiro mundo e quem não quiser que vá fazer seu retiro e descansar dos sem número de atividades do resto do ano. O Carnaval acaba sendo uma saída. A única saída viável sem que isso signifique alienação porque mesmo quem requebra na avenida da ostentação SABE que o momento é de austeridade, estoicismo, sacrifício, simancol. Não há fita metaloide destes dias de amplificação da nossa vocação para o caos que vá desmentir o GRANDE TRABALHO que temos pela frente. Mas entendi depois que o Carnaval se instalou que talvez o pré-Carnaval seja a entidade culpada pela culpabilização do Carnaval em tempos severos. Por isso, nem estranhei quando vi que aquelas pessoas que admiro e que estavam descendo o sarrafo nos foliões pré-carnavalescos, divulgaram estar participando da festança após o fim de semana. Acho que essa coisa de pré-Carnaval é complicada mesmo. Dá um nó nos miolos. A coisa é pra ser quando a coisa é e não, antes. Complexa esta nossa ansiedade super aditivada de fim de século 20. O pré-Carnaval predispõe muita gente contra a folia ao mesmo tempo em que vai criando uma bolha falsa de entusiasmo.  Escancara que se trata de uma indústria, de um comércio, de um negócio e que, segundo os ditames dos senhores do lucro, muito mais espertos que nós que só observamos a cena, deve durar o verão inteiro, e não, apenas quatro ou cinco dias. Aí, a gente já precisa se moldar a uma nova realidade. O verão virou Carnaval e aqueles quatro ou cinco dias cumprem a função de ser o ápice disso. Eu aceito que tenha virado. Parece-me bem razoável que o verão seja sinônimo de festa, enfim.

Ainda durante minha viagem pessoal, lembrei do ano de 2009, em que escrevi o texto “O Rio babou” motivada por um ensaio, durante o tal pré-Carnaval, do bloco “Xupa mas não baba” debaixo das minhas fuças. Em 2009, o Rio começava a ensaiar a volta do Carnaval de rua, as autoridades incompetentes não davam conta da demanda e Laranjeiras era o bairro mais esculham-babado de todos por causa de sua impressionante concentração de blocos. Naquele dia, o trânsito parou por cinco horas e não foi porque o ensaio tinha gente demais, mas porque não houve a inteligência de fechar uma praça para ele. No texto, eu escrevi horas tantas, “o carioca precisa compreender que até para brincar Carnaval é necessário que haja organização, consideração aos demais cidadãos cujas vidas não giram em torno da festividade e educação. Sem isso, fiquemos relegados à Apoteose onde o dinheiro que corre é alto, única forma de assegurar os direitos de quem quer e não quer participar”. Hoje, reconheço que o dinheiro que corre na Zona Sul também é alto e há pessoas que querem ir ao supermercado-emblema da região comprar seus queijos em paz, sem ser atordoado(a) por “gente demais”. Então, fui lá em 2009 bater um papo comigo e dei uma lição na jovem adulta incomodada: a rua é de toda a gente e realmente, contanto que haja organização, o resto é percalço ESPERADO numa festa de grandes proporções. Há uma dificuldade na classe média alta de entender que por mais caros que sejam seus palacetes incrustados nestes grandes cartões postais, as ruas onde eles foram construídos e que os rodeiam são de todos e que tarefas comezinhas como ir ao mercado durante uma tarde podem ser atravessadas pelo samba e por uma festa que tem data marcada pra acontecer e é exceção. Morar em Ipanema como morar ao redor de qualquer ponto nevrálgico de uma cidade que recebe grande fluxo de pessoas, especialmente em tempos de férias, significa passar por esse tipo de transtorno, embora não o de passar por outros tantos que só se conhece em picos menos privilegiados. É necessário entender que gente bêbada, muito bêbada e amassos em grades fazem parte de qualquer celebração ou que na celebração premium século 20, o lance era a tríade cocaína, lança-perfume e loló debaixo do sol mais estridente, já que não se falava dos perigos dessas coisas. Os amassos ficavam, realmente, às escondidas, mas é pra ser assim em pleno alvorecer do século 21?

A melancolia está nos olhos de quem vê ou não vê. O melhor deste carnaval é a ocupação leve, espontânea e criativa do Centro da cidade do Rio de Janeiro e me chegam notícias de fontes confiáveis em São Paulo de que por lá, também. As outras zonas estão plenamente transitáveis. Dificuldade para conseguir transporte público e táxis e mijo demais são as notas dissonantes, não, “gente demais”. Rua é pra suportar gente demais, mesmo, e tem gente demais querendo se divertir, embora não esteja tranquilo nem favorável. Tem gente que não vai pular Carnaval, mas apenas passear pelas gentes demais e reparar nas fantasias, nos rostos, nos flertes, embeber-se de vida pulsando nas veias em vez de ficar na sala de jantar. Camuflando infelicidade crônica ou não, o que é certo que é outra característica comum a quaisquer festas, há gente querendo ver prédios públicos despidos temporariamente de sua sisudez institucional pelas intervenções enfeitadas de gente demais. O Carnaval anda tão bonito que nem mais limitado a quem gosta de samba ele está. O Carnaval está pluralizado, conjugando o “nós” direitinho, com direito a bloco de ‘freaks’, bloco psicodélico, bloco pop art com muitas evoluções a la Le Parkour com ‘collants’ 100% elastano se dependurando em postes, orelhões, bancas de jornal e andaimes. O contraste dos edifícios mantenedores da burocracia do dia a dia com as pessoas de rosa-choque e verde-neon faz poesia involuntária. Tem bloco pra quem quer rasgar a fantasia e fazer teatro e tocar apito e inventar uma cidade aeróbica multicor sem crise e sem sexualidade definida. Festa carnavalesca legítima.

Os blocos desta rua que se fosse minha, eu mandava ladrilhar com os nomes de cada transeunte transante que evolui por ela, são a verdadeira alma do Carnaval, sem dúvida, por mais que alguns e algumas chiem por aí, perdendo o bonde e o bom da história. E o que também é bom é que ainda tem oportunidade nova no deserto das oportunidades porque não é mais só de encomenda de escola de samba que os ateliês da folia estão sobrevivendo, como conta a figurinista Adriana Lessa, aqui, nesta reportagem para a Globo News, no “Ofício Em Cena”, que percebeu a necessidade dos “criativos” sem habilidade manual terem fantasias especiais/exclusivas para se expressar no Carnaval de rua. O alento é saber que quem se expressa incomoda. O Carnaval está vivo num país que está semi-morto.

L.A. é um caleidoscópio: escritora, poeta, jornalista, agitadora cultural, curadora, DJ, artista visual, decoradora, ocultista, mãe, geminiana e o que mais não couber em duas linhas. Escreve neste espaço às terças-feiras. E-mail:leilah.accioly@gmail.com

Imagem: livro “Os Guinle” de Clóvis Bulcão.

 

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