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Sentimento do Mundo

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O ciclo das plantas

Quem gosta de jardinagem sabe que as plantas têm um ciclo. No período chamado de hibernação, elas cumprem uma função biológica: com a proximidade do inverno, é chegada a hora de descansar. Em geral, elas dão sinal de que esse momento está chegando, suas folhas vão ficando amareladas e, muitas vezes, caem. Em alguns casos, o processo é tão radical que elas secam completamente — ao menos externamente.

Durante esse período, o crescimento se dá muito lentamente, e é inútil tentar alguma solução milagrosa para que a planta se recupere. Nada de água ou adubo em excesso: a ideia é deixá-la repousar em paz. Quando a primavera se aproxima, todas começam a acordar, preparando-se para florescer com a chegada da época certa. O descanso é essencial para que depois possam realizar todo o seu potencial.

É preciso, portanto, entender que nem sempre as plantas poderão estar no auge de sua beleza e exuberância, alegrando todo o ambiente em volta. Dar tempo ao tempo. Não tentar contornar o incontornável, nem ficar triste por não ter conseguido evitar o inevitável. A hibernação faz parte da vida, e, sem ela, as plantas não seriam tão belas e perfumadas, nem dariam frutos saborosos.

Alguns animais também passam pelo processo. Em regiões muito frias, justamente por conta da hibernação dos vegetais, a comida é escassa. E aí bichos tão diversos quanto esquilos, morcegos, marmotas, ratos-silvestres, hamsters e ouriços reduzem bruscamente suas atividades, o que pode durar meses. Embora muitas vezes pareçam mortos, eles apenas estão se adequando ao ciclo natural de suas vidas, consumindo o mínimo possível de energia para continuarem vivos.

Quando um homem viajou, clandestino, no compartimento de trem de pouso de um avião, em 2014, cientistas se perguntaram como ele havia conseguido sobreviver às temperaturas congelantes e ao pouco oxigênio do compartimento despressurizado. A hibernação passou a ser uma hipótese: o lêmure-anão de Madagascar, um animal que compartilha 97% de nosso genoma, é capaz de hibernar. Por que não um humano? Apesar disso, ainda não há conclusões sobre o tema.

Até os computadores hibernam — quem nunca se irritou ao ver o seu passar pelo processo quando ainda precisava usá-lo?

Apesar da inconclusão de pesquisadores de todo o mundo, arrisco que seres humanos, podem, sim, hibernar. Podem, sim, poupar energia em tempos de recursos escassos, para que possam voltar ao ritmo anterior em uma época mais amigável. Como as plantas e os bichos, descansar, à espera de um ambiente mais propício para se lançar no mundo.

Por isso, se uma amiga sua “sumiu”, justo aquela, a mais animada, a que sempre soube de toda a programação do fim de semana (e da semana também), a que era pau pra toda obra, a que estava em todas; se essa pessoa não tem mais o pique de antes para estar em tantos lugares com tanta gente fazendo tanta coisa, isso não quer dizer que ela encaretou ou envelheceu: talvez ela esteja justamente trabalhando em seu subterrâneo. Para que, quando chegar a hora de florescer, ela consiga realizar todo seu potencial.

Kamille Viola é jornalista e há muito tempo sonha ser também cronista. É fã de Rubem Braga, Drummond, Carlito Azevedo e Alvaro Costa e Silva, o Marechal. Escreve neste espaço às quartas-feiras. E-mail: kamilleviola@gmail.com

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