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Notas Perfumadas

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Essa gente que ama jasmim

Há sentimentos e emoções que só emergem de nós após uma certa idade, depois de alguns livros ou descobertas, situações. Há aromas cuja profundeza de sua essência só conseguimos captar depois de termos passado por alguns desses sentimentos, desertos internos e momentos de hibernação. Esse é o caso do perfume do jasmim.

Há várias espécies de jasmim, as quais apresentam diferentes aromas e, dentre os espécimes, infinitos perfumes. Quando eu tinha uns 14 anos, uma professora me disse que eu só iria entender Machado de Assis “pra valer” aos 40 anos e que eu fosse relendo-o até lá. Ainda não cheguei aos 40, mas, já nos 30, começo a entender o que a mestra queria dizer. Fico aqui pensando nos ‘restarts’ que ainda terei até os 40 e quantos a minha querida professora já atravessou até hoje, no auge aí dos seus 70 anos.

Assim também é o perfume de um jasmim. De início, é apenas um belo aroma floral que lembra alegria, cheiro lunar, traz emoções e pode até encher os olhos de água. De início, jasmins podem, realmente, lembrar algo belo, leve, pacífico, espiritual, místico e sublime. Mas será a plenitude composta só por flor? Não, assim como em Machado de Assis, há notas no jasmim que só são possíveis de tocar já tendo sido caule, raiz, se embebido e se entranhado nas areias do próprio deserto. São as dores, emoções e memórias que dão outras capacidades sensoriais para sentir o aroma do jasmim além do olfato: com a alma, captando o seu perfume com a sabedoria do sobrevivente do próprio mergulho interno.

Jasmim é considerada uma planta yin, às vezes, yang. Para mim, ela é tudo, é híbrida, porque já viu e viveu tudo, não se preocupa mais com gêneros. O seu tão falado poder afrodisíaco é a sua alta sensibilidade, moldada no mesmo lugar de quem sabe que ser pleno não é alegria todo o tempo, mas uma busca pelo caminho da autoconsciência, adquirido em dias de lágrimas “sem motivo”, solidão, perdas, dores, mergulhos intensos e momentos indispensáveis de hibernação. E, cá para nós, quem é que não sabe disso? Expor as feridas e encará-las de forma consciente e amorosa é fundamental!

Jasmim acolhe nossas feridas,  nos abraça, traz compaixão e amorosidade nesses momentos de recolhimento e reconhecimento. É uma mãe, uma Nossa Senhora, uma deusa pagã, daquelas mais  primárias, primordiais. Jasmim auxilia na cura de mulheres que sofreram algum tipo de agressão, seja na infância ou na vida adulta, eleva a consciência ao espiritual e relembra o sagrado ao coração.  Jasmim é uma flor para dentro, do sexo consigo mesmo, do amor pelo próprio corpo, pela própria alma. Quando o dentro está bem, o lá fora se modifica, quando a hibernação acontece, o lá fora se transforma, e, sem mudanças internas, a gente vai sempre sentir o mesmo perfume. É com a capacidade de se silenciar e se autorrever que vamos ganhando a poder de sentir os aromas em outras cores e formas.

Jasmim nos ajuda a reencontrar o amor-próprio, e fazer esse movimento pode ser muito doloroso. Dói porque não estamos acostumados a nos amar como somos e a quem somos, dói porque para sair de um lugar conhecido, mesmo que ruim e de sofrimento, pode ser preciso abalar muitas estruturas. Não é um movimento tão fácil como os livros de autoajuda e pensamentos clichê vendem. Muitas vezes, é uma busca por toda a vida. E não seria a nossa existência uma busca pelo amor-próprio e primordial?

Quem realmente quer encarar isso vai ter que passar pelas dores, se desmontar e se retirar de algumas roupagens de sobrevivência no mundo aqui fora. Afinal, há vísceras no jasmim também, e é nelas que ele exala a sua medicina, com muito amor e compaixão. E eu, do alto dos meus 32 anos, fico aqui imaginando os perfumes que minha professora já descobriu no jasmim e quais acordes ainda se escondem para mim. Se tenho medo de encarar minhas hibernações? Bom, até tenho, mas, antes de tudo, sou uma curiosa por perfumes e sinto que essa gente que ama jasmim, também.

Palmira Margarida é historiadora e pesquisa a história dos cheiros, é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. E-mail: margaridalquimia@gmail.com

Imagem: Jasmine Buds Mohan.

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