colu

Engole o Choro

0 Flares 0 Flares ×

Shhhhhhh…

Era uma vez uma moça que tinha dois filhos. Ela parou de trabalhar fora porque, definitivamente, não estava cultivando uma relação saudável com ninguém. Ela não tirou os filhos da escola e, embora isso tenha causado olhares atravessados de muitos lados, ela não se abalou muito, afinal, era uma decisão que cabia a ela e ao marido, e ponto final. Bom, essa história não é exatamente sobre isso. Sigamos.

Pois muito beeeeeeeeem… Acabou o ano letivo e chegaram as férias. A moça catou os dois filhos, enfiou debaixo do braço e foi dar pra eles aquela coisa maravilhosa que todo mundo precisa na vida, até criança: férias. E que férias foram essas! Teve casa de vó, piscina, Natal em família, praia, Ano Novo em família, mais piscina, sorvete, picolé, pracinha, pipoca, primos, carnaval, pula-­pula… eita! Foram quase 70 dias do mais puro verão.

Mas, né, tudo acaba… E a moça, que passou todas as horas de quase todos esses dias (ela tirou três de licença, uma folgada!) respirando os dois filhos, começou, timidamente, a contar as horas pra eles voltarem pra escola. Não falta amor, não falta alegria, não falta vontade de ver os filhos. Mas faltava pra ela dar uma respiradinha, tomar um banho sem cronômetro, essas coisas bobas, sabe?

A moça e os filhos voltaram pra casa dois dias antes de eles irem pra escola. O marido da moça foi trabalhar, e ela ficou sozinha com os dois, pra já tomar aquela imersão de realidade (ela tinha esquecido um pouco de como era essa realidade, desculpa ela). E 24 horas já valeram quase pro ano inteiro: teve irmão batendo na irmã, gritando pela rua, teve filha sem dormir porque o dente tá nascendo, teve um calor que dificultava o ato de existir, teve a casa completamente tomada por todos os brinquedos do mundo (aparentemente, uma forma muito comum de matar a saudade dos brinquedos é levá­-los, um a um, pro meio da sala de casa, pra ficar olhando) e teve aquela que é a maior provação dos céus no quesito maternidade: a pisada no Lego. Quatro vezes, pra moça lembrar que não é bolinho.

Até que chegou o dia da escola. Escola linda, abençoada, salve a escola, né, Brasil? Ela arrumou a filhinha, que agora vai de uniforme, toda linda. Deu uma choradinha, porque percebeu que a filha tá crescendo (a moça sabe que criança cresce, mas ela ainda se emociona, deixa ela). Arrumou o filho sob protestos severíssimos e gritos de “NÃO QUERO VER MEUS AMIGOS. NÃO QUERO VER NINGUÉM. NÃO GOSTO DA ESCOLA, SÓ GOSTO DA MINHA CASA”. E ela chorou mais um pouquinho, porque uma criança de três anos não devia usar esse tipo de argumento, sei lá… Na escola, foi mais um festival: a filha chorou quando saiu do colo dela, parou de chorar, mas, quando percebeu que ela ia embora, gastou toda a água do corpinho nas lágrimas. Nem deve ter feito xixi o resto do dia. O menino, então, escalava a moça, pedia por favor, olhava pros amigos e enfiava a cabeça na perna da moça… E a moça cogitou levar os dois pra casa de novo, largar essa história de escola, vamos ser diferentes, vamos fazer home schooling, vamos nos amar 24 x 7… Mas ela resistiu.

A moça chegou em casa aos prantos, sentido que no mundo não há mãe pior que ela. Daí, ela tomou um banho, foi resolver assuntos pendentes, almoçou sem interrupções, tirou os brinquedos da sala e percebeu que estava em silêncio. Silêncio… Ai, santa escola!

Leticia Lamas é jornalista e mãe de dois. Escreve neste espaço às sextas-feiras. E-mail: lamasleticia@gmail.com

 

Imagem: www.sonhos.com.br

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Pin It Share 0 0 Flares ×